november rain

chuvahaja alma para tamanho dilúvio. chove lá fora e aqui, inunda. corre-me por dentro um rio de lágrimas, em corredeira, derrubando barragens pelo caminho, serpenteando por entre as pedras ou por cima delas ou apesar delas, e eu tamborilo nervosamente meus dedos no vidro da janela, querendo aquietar alguma coisa que não sei o que é. tantas urgências. e esse desejo de gritar cada uma delas a plenos pulmões, perder de vez a voz, a vergonha e a covardia. chove lá fora e aqui troveja, relampeia, escurece-me o céu do meu lado de dentro e a alma se me revira em princípios de furacão. não sei o que há de restar. não sei o que de mim sobrevive, ao fim de tudo isso. não sei se haverá um fim, ou se será infinitamente apenas isso mesmo: um revolteio constante de intensidades a atirarem-se umas por cima das outras, em rebeldia, enquanto eu. trato de tentar adormecer entre as tempestades. nas breves calmarias, nos respiros transitórios, nos momentos fugidios em que um tímido arco-íris apenas se insinua em um horizonte que eu desejaria alcançar. chove lá fora e aqui, a vida acontece. incessantemente. impiedosamente. impacientemente. uma irrascibilidade de mim para comigo. perco as rédeas daquilo que sou, se é que algum dia as tive. penso que não. o que me habita por dentro irrompe desgovernadamente, feito veículo com freio avariado, feito animal selvagem sem sela e sem arreio. eis o que sou. divido-me: algo em mim vai, rodopia de mãos dadas com o vento, sem medo de perder-se no vendaval; outra parte repousa, encolhida num canto abraçada aos joelhos, chorando baixinho feito criança perdida da mãe. chove lá fora e aqui eu me misturo a mim mesma. ouso perder-me, para me encontrar.

little children

captura-de-tela-2016-11-12-as-17-03-13o que se passa é que às vezes eu chego muito perto de perder as esperanças, entende? perigosamente perto. e fico acreditando mesmo que é isso, que não se pode ter tudo, que há que se deixar escorrer pelas mãos, ainda que doa, sangre e deixe uma ferida que – sabemos – não há de cicatrizar tão já. e o que posso dizer? queria fugir. como Pessoa, ‘ir ser selvagem entre árvores e esquecimentos’, abraçar todos os vazios que a vida tem me salpicado pelo caminho, como se o sentido de tudo fosse apenas vivê-los até a última consequência, apesar do cansaço, apesar de tanta lágrima, apesar do desejo infantil de que tudo se transformasse num piscar de olhos, num toque da varinha mágica. eu venho dedicando tudo o que tenho ao esforço de não desistir. entende? seguir acreditando. sorrir todos os dias, quando o sol invade o meu quarto pela janela me convidando a sair da cama e viver um dia inteiro. desafios diários de uma existência um tanto ridícula, um pouco risível. e eu faço o quê? eu me esforço, entende. eu meto o medo no bolso, amasso o desencanto numa bolinha bem apertada e varro pra baixo do tapete, faço de conta que não é bem assim, que pode ser outra coisa, que uma mentira repetida mil vezes acaba virando verdade, evito o espelho para não dar de cara com os meus olhos que têm estado sempre rasos, e vou. batendo a porta atrás de mim, empinando o nariz para dar conta do mundo lá fora. fingir a coragem que não tenho tido (auto-ajuda de livreto de bolso, eu sei), mas está difícil, sabe. a cada dia, fica um pouco mais difícil. e eu tenho medo, vou dizer com todas as letras, eu tenho medo do dia em que eu não vou conseguir me levantar da cama. apesar do sol brilhando lá fora, apesar da vida esperando ser vivida, apesar de tudo o que de bonito talvez me espere na próxima esquina, aquela que eu ainda não dobrei. eu preciso tirar forças de algum lugar, entende. de uma coisa boa qualquer. de uma esperançazinha, por pequenina e desbotada que seja. mas todas elas têm se escondido de mim, e eu nunca fui boa no pique-esconde. pequenas tragédias cotidianas.

e há tempos são os jovens que adoecem

pracagastao-60

eu escrevi o texto abaixo (a citação inclusa) aos quinze anos. lá se vão mais de vinte, e é sempre um espanto deparar-me com a menina que eu fui, toda emaranhada em suas caraminholices angustiadas, toda em carne viva, como eu nunca deixaria de ser. o colorido-dolorido, paradoxo perdido na espuma cotidiana dos dias, dualidade que aprendi a saborear. ah, essa menina. há tanto de mim nela, e há tanto dela em mim. ela, que naquele tempo era eu. ou quem eu achava que eu era. puxa. que coisa maluca-assustadora-maravilhosa é o tempo, e a gente enroscada nele.

‘parece cocaína mas é só tristeza’ *

eu sei que as coisas às vezes parecem maiores do que são na verdade, e eu sei que tudo parece pior num dia cinza em que o sol não aparece, e eu sei que eu estou cansada e dormi mal ontem à noite e quando eu durmo mal a vida parece um emaranhado bem mais insuportável do que talvez seja, eu sei sim eu sei, mas eu não consigo evitar, eu me pergunto se há de ser sempre assim, entende? tão solitário, tão vazio. as palavras ditas na frente do espelho. as mãos frias. o sinal da esquina trocando as cores, o tic tac do relógio, as horas passando, mais um dia chegando ao fim, a noite silenciosa e no meio de tudo, eu. uma ilha, cercada de silêncio por todos os lados. às vezes me bate um desespero, sabe. uma vontade de gritar, bem alto. sem medo, sem vergonha. escandalosamente, mesmo. mas no segundo seguinte já me sinto ridícula, porque sei que é inútil. não há ninguém – ninguém ouve, ninguém vê, ninguém entende e ninguém virá. um oceano de distância, toda uma vida. eu escrevo. escrevo muito. furiosamente, até começarem a me doer os dedos e eu sentir a vista cansada e as palavras começarem a se embaralhar e eu não aguentar mais e então eu me jogo na cama, fico olhando para o teto. esperando sem saber o quê. eu acho muito, esse cansaço todo para os meus quinze anos. sei lá. de algum jeito, não parece ser certo. dizem que as coisas mudam, dizem que tudo melhora, dizem que é só uma fase difícil. eu não sei. eu quero acreditar, sabe. preciso muito acreditar. e me agarro a essa possibilidade como se fosse uma tábua de salvação, mas lá no fundo, o medo persiste, igualzinho, sem tirar nem por. o medo de que seja assim para sempre. para sempre – tão definitivo, isso. o medo de que o amanhã seja sempre igual ao hoje. as mesmas palavras que eu não digo. o mesmo abismo entre eu e os outros. o mesmo arrepio de desânimo na base da nuca. o mesmo sorriso amarelo escondendo a vontade de enfiar a cabeça na terra feito avestruz. a mesma falta de vontade de sair de casa. a mesma lágrima escorrendo silenciosa. o mesmo buraco no peito. tudo assim, tão eu. eu mesma. porque é isso, mudam os dias, passam as horas, as coisas se reorganizam do lado de fora, mas eu. eu sou sempre eu mesma, eu não consigo me evitar. e às vezes eu penso que isso deve ser o mais bonito de tudo, que eu seja sempre eu mesma, igual a ninguém, e que isso é o que vai valer a pena no fim das contas, mas esse fim não chega, esse fim demora. e até lá, eu não sei o que fazer de mim. eu-não-sei. **

* Renato Russo, em ‘Há tempos’/ ** outubro de 1993

quem diria que viver ia dar nisso

fazendaipanema-109e no que me diz respeito preciso te contar que a vida deste lado do mundo tem sido isso, minha irmã: uma sucessão de dores mais ou menos suportáveis, repetidos sustos de me reconhecer tão risivelmente humana, lágrimas de demasia abafadas no travesseiro, silêncios interrompidos pela urgência do café da manhã ou da ida ao parquinho para distrair as crianças, ligações enfadonhas de gente de que não gosto, cobranças estúpidas que atendo sem saber porquê, prazos inúteis que cumpro mecanicamente, apertos de mão, e ao final de cada dia, a cabeça rodopiando feito roda-gigante e um sem-fim de pensamentos que vão e vêm, para lá e para cá, de um lado a outro, agitando-se freneticamente, trombando uns com os outros pelo caminho, ridiculamente. tão risível, tudo isso. não estivesse você tão longe e nos distrairíamos falaríamos disso madrugada adentro, eu faria pouco das minhas próprias queixas e você me diria coisas ligeiramente sábias enquanto bebêssemos vinho vagabundo, uma taça após à outra, sem sentir o gosto, apenas pela diversão. música ruim ao fundo. cheiro de asfalto molhado. ah, aqueles tempos. tenho tantas saudades. tudo agora é tão outra coisa. às vezes penso que a vida me virou mesmo do avesso e não, eu não descobri que o avesso era o meu lado certo, para ser sincera ainda estou aqui, revirada, confusa, ridícula, sem saber para que lado correr, calculando disfarçadamente uma rota de fuga, olhando-me no espelho sem saber o que dizer a mim mesma. tenho tanto a colocar em palavras, e no entanto elas me faltam. fico calada, patética, lambendo as feridas, a alma encolhida, os braços largados ao longo do corpo, os pés cheios de calos doloridos, tão cansados de procurar a saída deste labirinto que, afinal, sou eu mesma. tudo, tanto, tudo. há tanto tempo não rodopio minhas saias, e gosto tanto de rodopiar minhas saias. não quero ser ingrata: a vida tem me dado muita coisa. e há tanto de bonito. sinto que deveria sorrir e agradecer, mas na maior parte do tempo não sei se rio ou se choro. queria o teu abraço. queria muito o teu abraço. que saudades, minha irmã. que saudades. você me faz muita falta. **

* título: de Caio Fernando Abreu, em carta a Maria Lídia Magliani / ** texto: março de 2006, trecho de mensagem para a amiga distante que já não está mais aqui

keep walking

fazendaipanema-108há uma tristeza bruta me mastigando por dentro, ela dói, mas não é dor aguda, é dor crônica e insistente, daquela dor que permanece e incomoda o tempo todo sem no entanto incapacitar para a vida de todos os dias, o que ainda não sei se é vantagem ou desvantagem, porque eu não queria, entende, eu não queria acordar todos os dias e lavar os cabelos e calçar os sapatos e engolir um pão dormido aos bocados e sair à rua e cumprir prazos, e chegar no horário, e saciar expectativas que não são minhas, e dar respostas que não sei, e fingir certezas que não tenho, eu não queria acordar todos os dias e viver a vida como se nada tivesse acontecido, porque não, não é verdade, aconteceu algo, aconteceu uma coisa importante, porque há uma tristeza me consumindo por dentro, porque me dóem os ossos, porque me dói o estômago, a cabeça, porque o meu único desejo é enfiar-me bem debaixo dos cobertores com as janelas fechadas e ali, no escuro mais escuro do meu quarto, deixar que se passem as horas, os dias, as semanas, talvez eu envelheça ali, deitada sob as cobertas, de olhos fechados, só com os meus pensamentos, e as minhas querências não atendidas, e as minhas necessidades não satisfeitas, e as minhas queixas não ouvidas, e as minhas feridas não cicatrizadas, e as minhas carências não acolhidas, e as minhas lágrimas não derramadas, eu e tudo aquilo que poderia ter sido e não foi, tudo aquilo de que não dei conta ou de que não deram conta pra mim, eu e tudo aquilo que eu queria ter sido e não deu, tudo aquilo que pensei que seria e não chegou a acontecer, tudo aquilo que sonhei e virou pó na calada da noite, tudo aquilo que tentei construir e se desfez quando pisquei os olhos, eu e toda a minha solidão de estar abraçada a cada uma das minhas impossibilidades, eu e tudo aquilo que me pertence e não posso dividir com ninguém porque a existência humana é ridícula e indizivelmente solitária, apenas eu no escuro do meu quarto à meia noite à meia luz, apenas. mas não. a vida continua, lá fora. debaixo do sol. ela me puxa pelo colarinho, e eu não tenho saída a não ser isso mesmo: continuar.

foto: renata penna

a casa onde eu sempre morei

fazendaipanema-287porque eu também sou, em alguma medida, fruto desta dor. em meio dela, eu nasci. e fui existindo da maneira possível, estendendo pelos cantos as minhas mãos desastradas, aprendendo a amar de modo estabanado, por entre os espinhos, por entre as impossibilidades, tateando as belezas que, sim, também existiram e não foram poucas, ou eu não estaria hoje aqui, inteira, com força suficiente para olhar essa história em seus detalhes mais escondidos, buscar compreender o que fomos, e o que fui eu e o que sou. e esta dor, que é e sempre foi minha sem sê-lo, numa misturança de sentires e mundos que caminharam entrelaçados desde o início dos nossos tempos, nas entranhas de uma história escrita estabanadamente, rabiscada e rasurada por entre caminhos e descaminhos, compreendo talvez pela primeira vez: não posso largá-la a meio caminho. não posso virar-lhe as costas como se não me dissesse respeito, não posso abandoná-la como se fosse um saco inútil de bagagem desnecessária, porque não o é: ela também me forma. dela também sou feita, ela repousa em cada molécula daquilo que me coloca de pé, e finalmente o reconheço sem pudor e sem paúra. não porque seja fácil – não é. mas é o que há. é a irrefutável realidade que a vida, ela mesma, despida de subterfúgios, atira-nos ao rosto em desafio: nada se faz sem o seu oposto, nada existe apenas por si sem seu contrário por mais indesejável, e em tudo há mais de um lado. não há alegria sem dor e não há, sem ela, lugar para o amor. eis o que me tem sido fundamental e inevitável acolher como verdade irrecusável: que amar necessariamente dói – não que haja necessariamente a obrigação do sofrimento, mas a dor, ela sim, crua, está e permanece como companheira natural do ato de amar quem quer que seja. porque amamos necessariamente o imperfeito, porque o somos todos, por essência. para além das superficialidades do gostar comezinho que se disfarça como se fosse algo mais sem no entanto sê-lo, amar por inteiro significa abrir-se para a falha do outro, aceitar a falta, a mão estendida sem serventia, a impossibilidade mais absoluta naquele que seria o momento da comunhão, o vazio e o sopro gelado do abandono na hora mais triste. e se falo disso é porque sei bem do que se trata este abandono. sei como é experimentá-lo, sei bem do que nos causa por dentro e das muitas marcas que permanecem, a despeito do tempo, a despeito das distâncias, a despeito das inúmeras e desesperadas tentativas de embrulhar o que já foi e abandonar pelo caminho. mas sei bem também que, da vida que me resta nas mãos, eu decido o que faço. é meu livre arbítrio. minha derradeira libertação. e é isso o que eu escolho fazer: eu amo sem pensar duas vezes. sem pedir desculpas. e sem olhar para trás.

sou pequenina e também gigante

boacavajul16-14“eu não sou maluco, a minha realidade é diferente da sua” *

só eu posso encontrar a saída desse labirinto. sei disso. sei também que ela não está tão longe quanto parece, nem é tão inalcançável quanto eu imagino, nos meus devaneios salpicados de medo, dúvida e solidão. ela está ali. está aqui. está em mim. sou o beco sem saída, como bem dizia Clarice, mas sou também a cura, a epifania. o milagre. parece mesmo incrível que contrários tão irreconciliáveis possam coexistir, dentro da mesma criatura. uma coisa a começar no momento exato em que a outra se finda e assim sucessivamente, como uma cobra a engolir infinitamente o próprio rabo. até a indigestão. ou a revelação. que bagunça. e deste emaranhado delirante de linhas e nós e laços e intrincados desencontros, entre a vinda e a ida, entre o desencanto mais absoluto e a esperança mais cintilante, entre os olhos rasos de pranto e a boca frouxa de riso, bem aqui, em algum lugar no meio de tudo, no olho do furacão, é que hei de encontrar a paz. como sempre. como tem sido. a única maneira possível. para mim, para quem sou (e nada sei ser além disso), é assim: o silêncio em meio à mais absoluta algazarra, a calmaria sob a mais impiedosa tempestade. a coexistência, o infinito particular que tenho aprendido a ser sem desejar outra coisa. basta, para isso, que eu seja capaz de não desistir. basta, para isso, que eu alcance uma vez mais a valentia necessária, aquela, feita da mais pura teimosia misturada a uma inocência quase suicida. aquela, que desde que passei a me entender (ou a me des-entender) por gente, é parte essencial daquilo que tenho de mais verdadeiro. que assim seja. que uma vez mais eu seja capaz de superar este cansaço que me castiga os ossos e a alma. que o meu sorriso não desista de, mais uma vez, desenhar-se por sobre as minhas bochechas lavadas de sal. incansavelmente. maravilhosamente. para que eu possa enfim desvendar este labirinto e encontrar a porta – e descobrir uma outra vez que, afinal, não havia porta. era só a vida, ela mesma. misteriosa como tantas vezes e bonita como sempre. quem estava ali à minha espera, afinal, era eu.

* frase do Chapeleiro Maluco, in: ‘Alice no país das maravilhas’

a busca

ipanema-30“não me perder de mim, não me perder em mim”

aqui dentro está escuro, mas lá fora há luz. muita. bonita. convidativa. mas eu fico. permaneço, repouso. escolho ficar. não por medo, não por covardia, ao contrário – por coragem. por valentia de enfrentar-me uma vez mais com os meus abismos mais profundos, com tudo aquilo que me esforço para manter por sob as frestas, os tapetes, os buracos. não há nisso sofrimento: é aqui que desejo estar. neste silêncio, neste breu. aqui, onde os olhos mal enxergam mas posso ver-me com a nitidez dos olhos da alma. não necessito clareza, quero apenas sentir. há tão poucas horas na vida como esta, tão preciosa: o minuto mesmo em que algo de tão profundo em nós se deixa tocar pela ponta dos dedos, dá-se a conhecer, entrelaça-se com os nossos sentires mais assentados e passa então a fazer algum sentido, ainda que não se explique. porque a palavra às vezes não chega para alcançar o que existe em nós sem organização, apenas sendo. hoje, eu não abro a porta. permito-me ficar do lado de dentro, sem acender a luz. porque meus olhos estão cansados, e porque o que desejo abarcar com a vista e o coração e abocanhar de uma vez só é grande demais e nesta escuridão eu percebo coisas que antes não via. porque aqui descanso, repouso, reflito. compreendo coisas minhas que antes ignorava. converso comigo mesma em voz baixa, em um tom acolhedor, porque sei que mereço. ser acolhida. ser compreendida. ser respeitada. aqui, neste escuro em mim e que de mim diz tanta coisa, é que eu quero permanecer. não para sempre. não sem esticar os olhos por vezes até a janela por cujo vão enxergo o som e a fúria que sobrevivem lá fora, apenas para me certificar de que continuam ali. à minha espera. pacientemente. em ebulição, como sempre. sei que sim, e respiro aliviada porque sei que é questão de tempo: hei de desejar novamente. um dia. sim. apenas não hoje.

* foto: Renata Penna

longa jornada noite adentro *

rezicacasamodernista-5o problema, pensava ela, era que nada era tão simples assim. as coisas iam e vinha, ajeitavam-se ordenadamente para no instante seguinte voltarem a acumular-se umas por cima das outras, desordenadamente. nisso matutava, enquanto sacudia os pés ao som da música que tocava ao longe, e de cuja letra ela nunca tinha gostado, mas agora sim. estava mudada. por dentro, e também por fora. ao olhar-se no espelho, de tempos para cá, via em si uma pessoa recém-chegada, transformada, toda cheia de novidades. esta pessoa nova causava-lhe susto, mas também um deleite que não podia disfarçar. e nem queria, pois (re)conhecer-se era bom, era bonito. todavia, no largo espaço fora de si, a mudança causava muita estranheza, especialmente em quem até ali havia estado acostumado a olhar sempre a mesma pessoa. ‘essa pessoa morreu, não existe mais’, pensava ela, toda vez que se sentia alvo de olhares inquisidores, que lhe queriam pegar pelo braço e roçar-lhe os cantos da alma, como a requerer a presença de alguém que ela já não era e – disso tinha certeza – não voltaria mais a ser. e quando desta maneira se impunha, colocando toda a novidade de si para existir e ser vista, percebia nas pessoas uma espécie de luto, seguida de uma indisfarçável revolta, como criança que não quer abrir mão de um brinquedo do qual gostava muito, por mais puído, quebrado ou danificado ele esteja, e ainda que já não possa lhe servir para muita coisa a não ser fazer experimentar aquele conforto desbotado das coisas já bem conhecidas. queriam-lhe de volta como um dia fora, isso era o que ela compreendia daqueles olhares atravessados de insatisfação mal disfarçada. mas embora houvesse neste desencontro alguma dor pontiaguda, ela dava de ombros. e repetia para si mesma que a vida não caminha para trás. passarinho não voa de ré. e que se as coisas não eram tão simples assim, tampouco lhe seriam indecifráveis. aos poucos, peça por peça, ela terminaria por montar todas as peças do quebra-cabeça de si mesma. decifro-me ou me devoro, ou ambas as coisas. ‘a alegria é a prova dos nove’, sempre. disso, ela sabia sem duvidar.

* título de peça de Eugene O’Neil

se correr o bicho pega

centrao_P-37uma vez, há muitos anos, em uma tarde qualquer tão deslocada de mim na linha do tempo que parece ter quase acontecido em uma outra vida, pediu-me a minha terapeuta que fizesse uma lista. ela gostava disso: listas. pedia-me que fizesse muitas, com os mais variados propósitos. e eu, que para lançar-me a escrever o que quer que fosse que me desafogasse as angústias que sempre se me empoleiravam por dentro não custava muito, cumpria a missão, obediente e aplicada. mas bem, voltemos à lista: esta, especificamente, intitulava-se “eu tenho medo”. deveriam reunir-se ali todas as minhas paúras, das mais risíveis e comezinhas às mais complexas e paralisantes. verborrágica e pouco sucinta que sempre fui, fiz uma lista de duas páginas de caderno, frente e verso. tais eram os medos que me roçavam as entranhas – muitos, inúmeros, quase incontáveis. dia destes, encontrei perdida entre uns papéis, a tal lista. não a reproduzo aqui porque não faria sentido, já que não sou mais aquela de então e meus medos hoje são outros e muitos dos que estão ali, eu mal compreendo. minha primeira reação foi de estranhamento, como se eu de alguma maneira enxergasse naquelas linhas uma pessoa que nunca fui – embora sim, tenha sido, e ela ainda me habite em algum lugar escondido que visito em algumas horas especialmente obscuras. mas logo em seguida, senti-me um pouco satisfeita. por ter saído deste lugar, e não ter hoje mais tanto medo de todas as coisas, sobretudo por não ter mais tanto medo da vida. entretanto, perceba: eu digo tanto, e neste ‘tanto’ reside a grande charada: sim, ele ainda está aqui. mais tímido do que já esteve, mas ainda me habita e vem visitar nas horas mais sorrateiras do dia, quando fico muito distraída. ele se coloca no meu caminho, sem cerimônia, sem tato. enrosca-se por entre os meus pés como um animal rastejante e traiçoeiro e, quando percebo, já dei com a cara no chão. o medo do medo do medo do medo do medo. crescendo em mim, por dentro, como uma trepadeira que se lança a ocupar todos os espaços, até que lhe cortem as raízes. sim, eu caminhei um bocado. fui muito além de onde já estive, mas ainda assim é uma luta de quase todos os dias: atracamo-nos sem pudor algum, disputando as batalhas uma a uma. às vezes ganho eu, às vezes ele me vence – e quando isso acontece, o que me resta é chorar baixinho, encolhida num canto, lambendo as feridas até que virem novas cicatrizes que vêm somar-se às antigas, cada uma com a sua história, e então finalmente começar de novo. tomada por uma teimosia que não sei bem onde é que me nasce – se no coração ou na boca do estômago -, eu me levanto e começo tudo mais uma vez. a luta. a disputa. eu, e o medo que uma dia desses eu findo de vez. ou não. talvez, em um dia sem pretensões e esvaziado de promessas, possamos finalmente nos dar as mãos, carinhosamente, como velhos inimigos que, de tanto estranhar-se ao longo dos tempos, esqueceram-se porque é que haveriam de brigar. talvez esse seja o dia mais bonito de todos. talvez. eu acho que sim.