a menina submersa

‘quando sinto no pescoço um nó vem o vento e me sopra eu sou pó’ *

eu não devia ter saído de casa

eu não devia ter levantado da cama

eu nem devia ter começado

o que diabos eu estava pensando

inspira. expira. inspira. expira. ponto fixo no teto. aquela mancha ali, de umidade. vai servir. inspira. expira. de um até mil. começa e não para. inspira. expira. não perde o ponto. a cabeça, eu sei. ela quer te dominar. tanta coisa pra pensar. tanta coisa ruim acontecendo. tudo desmoronando. o ponto, cadê? ali, bem ali. não vai sair dali. inspira, expira. em que número estava? oitenta e dois? cento e vinte e um? começa de novo. de um a mil. concentra. é simples. não parece. tá. inspira. expira. dói. eu sei. da cabeça aos pés, todos os lugares. tem lugares novos que só agora você descobriu que existem porque eles doem e pesam de um jeito que não é possível ignorar. o ponto, o ponto. faz um esforço. inspira. expira. breath in, breath out. aquela canção. aquele tempo. essa saudade. quando tudo era simples. ou você achava que era simples. besteira. doía do mesmo jeito. as pequenas coisas. bull shit. o passado, essa entidade santificada. tudo mentira. conto da carochinha. pra boi dormir. duzentos e vinte e quatro? do zero, de novo. é o que tem pra hoje. inspira. expira. lá vem. a taquicardia. a falta de ar. concentra. esse medo filho da puta, eu sei. pára. pensa. o que de pior pode acontecer? se você morrer agora, se parar de respirar, se o coração parar de bater. não sei. talvez seja uma saída fácil. você não teria que mover uma palha, não teria que dar um passo, e ainda assim. ponto final. esquece. não é pra ser fácil. inspira. expira. um café preto, pra começar. se ao menos você tomasse café. um cigarro. uma bebida forte. com tantos sentimentos deve ter algum que sirva. o ponto. sei lá. a vida continua, sabe. lá fora. o sol nasce todos os dias. as folhas ainda caem ao chão porque o outono sempre vem depois do verão, as pessoas acordam de manhã, saem pra trabalhar, pegam os filhos no colo, choram no cinema, dividem uma pizza e voltam pra casa pra começar tudo de novo. é simples, sabe. talvez. pode ser. poderia. só não pra você, mas mesmo assim. que diferença isso faz? uma gota no oceano, lembra. grão de areia. poeira no espaço. dust in the wind. todos nós. do pó, ao pó. concentra nisso aí. talvez seja melhor do que o ponto de umidade no teto. eu acho que sim. esquece o ponto. foca nisso aí. dust in the wind. todos. nós. todos. nós. inspira. expira. um. dois. três. até mil.

 

e há tempos são os jovens que adoecem

pracagastao-60

eu escrevi o texto abaixo (a citação inclusa) aos quinze anos. lá se vão mais de vinte, e é sempre um espanto deparar-me com a menina que eu fui, toda emaranhada em suas caraminholices angustiadas, toda em carne viva, como eu nunca deixaria de ser. o colorido-dolorido, paradoxo perdido na espuma cotidiana dos dias, dualidade que aprendi a saborear. ah, essa menina. há tanto de mim nela, e há tanto dela em mim. ela, que naquele tempo era eu. ou quem eu achava que eu era. puxa. que coisa maluca-assustadora-maravilhosa é o tempo, e a gente enroscada nele.

‘parece cocaína mas é só tristeza’ *

eu sei que as coisas às vezes parecem maiores do que são na verdade, e eu sei que tudo parece pior num dia cinza em que o sol não aparece, e eu sei que eu estou cansada e dormi mal ontem à noite e quando eu durmo mal a vida parece um emaranhado bem mais insuportável do que talvez seja, eu sei sim eu sei, mas eu não consigo evitar, eu me pergunto se há de ser sempre assim, entende? tão solitário, tão vazio. as palavras ditas na frente do espelho. as mãos frias. o sinal da esquina trocando as cores, o tic tac do relógio, as horas passando, mais um dia chegando ao fim, a noite silenciosa e no meio de tudo, eu. uma ilha, cercada de silêncio por todos os lados. às vezes me bate um desespero, sabe. uma vontade de gritar, bem alto. sem medo, sem vergonha. escandalosamente, mesmo. mas no segundo seguinte já me sinto ridícula, porque sei que é inútil. não há ninguém – ninguém ouve, ninguém vê, ninguém entende e ninguém virá. um oceano de distância, toda uma vida. eu escrevo. escrevo muito. furiosamente, até começarem a me doer os dedos e eu sentir a vista cansada e as palavras começarem a se embaralhar e eu não aguentar mais e então eu me jogo na cama, fico olhando para o teto. esperando sem saber o quê. eu acho muito, esse cansaço todo para os meus quinze anos. sei lá. de algum jeito, não parece ser certo. dizem que as coisas mudam, dizem que tudo melhora, dizem que é só uma fase difícil. eu não sei. eu quero acreditar, sabe. preciso muito acreditar. e me agarro a essa possibilidade como se fosse uma tábua de salvação, mas lá no fundo, o medo persiste, igualzinho, sem tirar nem por. o medo de que seja assim para sempre. para sempre – tão definitivo, isso. o medo de que o amanhã seja sempre igual ao hoje. as mesmas palavras que eu não digo. o mesmo abismo entre eu e os outros. o mesmo arrepio de desânimo na base da nuca. o mesmo sorriso amarelo escondendo a vontade de enfiar a cabeça na terra feito avestruz. a mesma falta de vontade de sair de casa. a mesma lágrima escorrendo silenciosa. o mesmo buraco no peito. tudo assim, tão eu. eu mesma. porque é isso, mudam os dias, passam as horas, as coisas se reorganizam do lado de fora, mas eu. eu sou sempre eu mesma, eu não consigo me evitar. e às vezes eu penso que isso deve ser o mais bonito de tudo, que eu seja sempre eu mesma, igual a ninguém, e que isso é o que vai valer a pena no fim das contas, mas esse fim não chega, esse fim demora. e até lá, eu não sei o que fazer de mim. eu-não-sei. **

* Renato Russo, em ‘Há tempos’/ ** outubro de 1993

keep walking

fazendaipanema-108há uma tristeza bruta me mastigando por dentro, ela dói, mas não é dor aguda, é dor crônica e insistente, daquela dor que permanece e incomoda o tempo todo sem no entanto incapacitar para a vida de todos os dias, o que ainda não sei se é vantagem ou desvantagem, porque eu não queria, entende, eu não queria acordar todos os dias e lavar os cabelos e calçar os sapatos e engolir um pão dormido aos bocados e sair à rua e cumprir prazos, e chegar no horário, e saciar expectativas que não são minhas, e dar respostas que não sei, e fingir certezas que não tenho, eu não queria acordar todos os dias e viver a vida como se nada tivesse acontecido, porque não, não é verdade, aconteceu algo, aconteceu uma coisa importante, porque há uma tristeza me consumindo por dentro, porque me dóem os ossos, porque me dói o estômago, a cabeça, porque o meu único desejo é enfiar-me bem debaixo dos cobertores com as janelas fechadas e ali, no escuro mais escuro do meu quarto, deixar que se passem as horas, os dias, as semanas, talvez eu envelheça ali, deitada sob as cobertas, de olhos fechados, só com os meus pensamentos, e as minhas querências não atendidas, e as minhas necessidades não satisfeitas, e as minhas queixas não ouvidas, e as minhas feridas não cicatrizadas, e as minhas carências não acolhidas, e as minhas lágrimas não derramadas, eu e tudo aquilo que poderia ter sido e não foi, tudo aquilo de que não dei conta ou de que não deram conta pra mim, eu e tudo aquilo que eu queria ter sido e não deu, tudo aquilo que pensei que seria e não chegou a acontecer, tudo aquilo que sonhei e virou pó na calada da noite, tudo aquilo que tentei construir e se desfez quando pisquei os olhos, eu e toda a minha solidão de estar abraçada a cada uma das minhas impossibilidades, eu e tudo aquilo que me pertence e não posso dividir com ninguém porque a existência humana é ridícula e indizivelmente solitária, apenas eu no escuro do meu quarto à meia noite à meia luz, apenas. mas não. a vida continua, lá fora. debaixo do sol. ela me puxa pelo colarinho, e eu não tenho saída a não ser isso mesmo: continuar.

foto: renata penna

a busca

ipanema-30“não me perder de mim, não me perder em mim”

aqui dentro está escuro, mas lá fora há luz. muita. bonita. convidativa. mas eu fico. permaneço, repouso. escolho ficar. não por medo, não por covardia, ao contrário – por coragem. por valentia de enfrentar-me uma vez mais com os meus abismos mais profundos, com tudo aquilo que me esforço para manter por sob as frestas, os tapetes, os buracos. não há nisso sofrimento: é aqui que desejo estar. neste silêncio, neste breu. aqui, onde os olhos mal enxergam mas posso ver-me com a nitidez dos olhos da alma. não necessito clareza, quero apenas sentir. há tão poucas horas na vida como esta, tão preciosa: o minuto mesmo em que algo de tão profundo em nós se deixa tocar pela ponta dos dedos, dá-se a conhecer, entrelaça-se com os nossos sentires mais assentados e passa então a fazer algum sentido, ainda que não se explique. porque a palavra às vezes não chega para alcançar o que existe em nós sem organização, apenas sendo. hoje, eu não abro a porta. permito-me ficar do lado de dentro, sem acender a luz. porque meus olhos estão cansados, e porque o que desejo abarcar com a vista e o coração e abocanhar de uma vez só é grande demais e nesta escuridão eu percebo coisas que antes não via. porque aqui descanso, repouso, reflito. compreendo coisas minhas que antes ignorava. converso comigo mesma em voz baixa, em um tom acolhedor, porque sei que mereço. ser acolhida. ser compreendida. ser respeitada. aqui, neste escuro em mim e que de mim diz tanta coisa, é que eu quero permanecer. não para sempre. não sem esticar os olhos por vezes até a janela por cujo vão enxergo o som e a fúria que sobrevivem lá fora, apenas para me certificar de que continuam ali. à minha espera. pacientemente. em ebulição, como sempre. sei que sim, e respiro aliviada porque sei que é questão de tempo: hei de desejar novamente. um dia. sim. apenas não hoje.

* foto: Renata Penna

a nossa casa é onde a gente está

Captura de Tela 2016-06-26 às 23.05.24miseravelmente sozinha. afogada em todas as coisas somente minhas. abastada das minhas idiossincrasias, de tudo aquilo que do meu lado de fora não se pode fazer entender. se grito, é no abismo que minha voz se perde, sem eco, sem nada. por ora, posso contar apenas comigo. estender-me a mão, acolher a mim mesma e ser o colo de que tanto careço. alimentar-me por meus próprios meios e sobreviver sem ajuda, é do que se trata. e devo conseguir. de algum modo que ainda desconheço mas me dedico comprometidamente a descobrir, devo alcançar esta autossuficiência. este existir em mim. ‘tornar-se um mundo para si’. tenho descoberto em mim uma grandeza que desconhecia, um desenrolar-se de múltiplas possibilidades, todas muito interessantes, e diante disso estou fascinada como uma criança que gira avidamente um caleidoscópio, sem tirar os olhos da lente nem por um instante, para evitar o susto de perder um agrupamento único de cores e formas, uma pequena explosão de beleza que não se repetirá jamais, não do mesmo jeito, não exato como acabou de ser. sozinha. inexoravelmente sozinha. de uma solidão inevitável, inalienável. eu disse, no início: miseravelmente sozinha, mas não. corrijo-me, agora. não há nada de miserável em encontrar-me assim, diante de um espelho em que nada mais se reflete além daquilo que é meu. ao contrário: é puro regalo que a vida oferece, por sorte, quase por milagre. e eu lambo os dedos, para sentir-me bem o gosto. experimentar-me sem dividi-lo com quem quer que seja tem sido para mim uma explosão de tudo aquilo que há de mais genuíno na vida: alegria amor susto dor desejo e as outras coisas que não têm nome. seja como for, tudo me transborda. e tudo me cabe. *

(* junho de 2015)

(título: da letra de Arnaldo Antunes)

mas dá pra se ser feliz

rezicateatrosombra-1então é isso mesmo, e assim caminhamos: sós. solitariamente. porque há uma parcela da vida que não se partilha, que não permite mistura, que foge aos conjuntos e acontece assim, unidade. há quem se ressinta dessa impossibilidade da dissolução total e irrestrita no outro que amamos, mas eu ao contrário: admiro-me, e fico contente. alegro-me desta possibilidade, de que algo em mim seja apenas meu, e não permita mistura. importa-me preservar esta solidão tão preciosa, este respiro desacompanhado, esta solitude caleidoscópica que me aquece por dentro e me torna uma pessoa mais inteira e mais disposta à vida. tenho preguiça de estar com as pessoas, muitas vezes. não, não tenho vocação de eremita, longe disso. o convívio me enternece, e aprendo coisas singulares e muito bonitas ao tocar e ser tocada, as pessoas não me exasperam, gosto delas, gosto do toque, de sentir-lhes o gosto e saber das coisas que lhes vão no mais fundo da alma, gosto de conversar, de rir junto fazendo barulho, de compartilhar filosofias estúpidas em uma madrugada gelada, numa esquina qualquer, gosto de conhecer e gosto de dar-me a conhecer. gosto de conviver. mas preciso, de tempos em tempos, estar apenas comigo. preciso dizer coisas em voz alta e saber que ninguém há de ouvir. preciso rir e chorar em total liberdade, uma coisa apegada à outra, ato contínuo, sem explicações. preciso olhar a cidade à noite pela janela, sentir o vento a bater-me no rosto, recostar a cabeça para trás e agradecer por isto: estar viva, ser aquilo que sou e não precisar que alguém me valide a existência. estar só entristece algumas pessoas, a mim por outra: alegra-me, e me faz mais capaz de ser agradável no instante seguinte, quando de novo estiver em meio a todas as gentes, estendendo a mão para alcançar o outro, olhando nos olhos, abraçando e sendo abraçada, escutando e sendo escutada. estar só, inteiramente só, longe do alcance de quem quer que seja, é para mim como um recarregar de baterias, uma refeição reforçada, um gole de água fresca ao final de um dia de muito calor. solidão é sobrevivência, e não há dor. solidão é quando eu me alimento de mim mesma.

em caso de dor ponha gelo

BH-25em prantos, agoniada, agarrada à minha angústia, eu me repito freneticamente a pergunta, em espiral: por quê? por que há de ser assim, tudo tão duro, tudo tão trabalhoso, tudo tirado tão a fórceps dos bolsos da vida? se ao menos eu pudesse respirar. tirar o véu dos olhos, ver com clareza, ver o céu límpido e claro sem fazer perguntas. essa leveza que enxergam em mim, se ao menos eu pudesse tê-la nas mãos, senti-la como coisa efetivamente minha, provar seu gosto, feito bicho sedento que se aproxima do riacho e se farta, contente, com a água tão pura e fresca como ele jamais teria ousado imaginar. estou tão cansada. carrego isso tudo comigo há tempo demais, toda esta bagagem desnecessária – e sim, eu a entendo desnecessária, eu a digo desnecessária, eu a grito desnecessária todos os dias aos quatro cantos e ainda assim, cá está ela, agarrada às minhas mãos, amarrada aos meus passos, fazendo-me doer os ossos e as têmporas. tanto cansaço. às vezes a vida se assemelha desesperadamente a um labirinto, a uma casa de espelhos ou a uma estrutura qualquer da qual não se saia com facilidade, ao contrário, bata-se a cabeça infinitas vezes enquanto se procura em vão a saída, que no mais das vezes estava bem ao lado, ao alcance de alguns poucos passos. estou tão cansada. tantos desvios, tantas voltas que me levam ao mesmo lugar, de onde tenho que começar tudo de novo. sinto-me às vezes tão pequena. um grão de milho, encostado ao canto. esqueceram-se de mim, foram adiante na estrada levantando poeira, e eu me esqueci também de mim, em algum ponto do caminho. talvez seja o avançado da hora. talvez seja o escuro da noite, esse breu impiedoso que não perdoa as dores varridas covardemente para baixo do tapete. talvez seja apenas aquilo que eu sou. talvez amanhã seja, de verdade, um novo dia. é. talvez. quem sabe.

sede assim de qualquer coisa

imig-2como no poema de cecília meirelles: no escuro que silencia ao final de cada dia, um camelo que mastiga a sua solidão, um pássaro que procura pelo fim do mundo, um boi que caminha para a morte, e eu. eu. puxando o ar com empenho querendo encher os pulmões, a ver se me deixa de faltar o ar com tanta frequência. sem acolhimento na poesia, sem refúgio possível neste vasto celeiro de desencontros que tem se tornado a existência, nestes tempos áridos. estendo as mãos o tempo todo, sedenta. meus olhos vagueiam de um lado a outro, perdidos entre esta e aquela possibilidade, logo a tornar-se mais uma a dar-me adeus acenando de longe, sem atender a aquilo que necessito. esforço-me para não perder as esperanças. grito até perder a voz, porque quem sabe. na última hora da noite, quando a última estrela desiste de brilhar no céu, resignada diante da escuridão, quem sabe. alguém me ouça, vire-se para o lado e perceba. que há alguém ali, bem ao lado, ao alcance, pedinte. alguém com o coração emaranhado, a ruminar sentimentos revoltosos que se atiram uns por cima dos outros, como em protesto, e não se calam nem mesmo nas horas mais quietas da madrugada. até agora, meus gritos têm se perdido no vazio. batem-se nas paredes do nada, fazendo eco. eu falo da dor, e a dor me volta para os ouvidos, inteira, como saiu de mim. tenho um compromisso comigo mesma, que é não desesperar. reafirmo este propósito todos os dias, quando os ponteiros do relógio me vêm avisar que é hora de começar novamente: colocar os pés para fora da cama, respirar bem fundo, dar corda às costas da vida, dar conta das coisas do dia, porque o tempo, já dizia o poeta, não pára. tampouco espera. apenas nos faz companhia, enquanto tropeçamos ao longo das horas. já é alguma coisa.

o inferno são os outros

aguabca-15há em mim uma solidão constante e definitiva que não se mistura nem se submete a coisa alguma que me seja alheia, em última instância ela sou eu. a minha solidão me habita em definitivo, de maneira irreversível. ela corre pelas minhas veias e ocupa todos os espaços do meu corpo, eu a inspiro e expiro continuamente todos os minutos de todos os dias, ela repousa na minha medula e é, em parte, o que me põe de pé. sou antes de tudo isso, uma solitária. falo sozinha. tenho longos diálogos comigo mesma, e digo coisas que qualquer outro que não eu mesma seria incapaz de compreender. é meu encontro diário com o que me define, com tudo aquilo que nomeio como sendo parte necessária à minha sobrevivência, com tudo o que me forma e me torna exatamente quem sou. olho-me no espelho todos os dias e me reconheço, sinto-me em casa. de algum modo isso é bom, embora doa. ser solitário às vezes é frio. porque há em mim um infinito que nenhum outro alcança e sobre ele não posso trocar ideias, fazer conjecturas ou compartilhar impressões. é MEU, com maiúsculas. isso é bonito, daquele bonito que roça por dentro e embrulha o estômago e faz ter vontade de dar pulos. eu tenho vontade de dar pulos, todos os dias. em silêncio povoado, solitária. entre as minhas quatro paredes.

bem que se quis

ccbbteatro2P-14e de repente me dei conta disto, não sem susto: que eu ia te devorando assim aos bocados, como quem mastiga uma fruta suculenta cujo néctar lhe escorre pelos dedos, pelos punhos e ao longo dos braços. eu te mastigava todos os dias, desde quando acordávamos de manhã e eu estendia as mãos para tocar o teu corpo ainda sonolento, quente, convidativo. e era como se eu arrancasse um pedaço de ti para ir então me alimentando dele aos poucos ao longo do dia, para recuperar-me da tua não presença quando você me dava as costas e ia ao mundo, às coisas somente tuas, a tudo aquilo que em ti me excluía, a toda a tua existência da qual eu transbordava, num derramamento inútil de leite que foi para além da borda da xícara e então se espalha na mesa, desperdiçado. eu tinha de ti uma fome, uma fome muito urgente, uma fome que me ameaçava a sobrevivência. era como se quisesse te aprisionar comigo, devorar-te de fato, em um gesto desesperado de antropofagia, eu te queria comigo além das separações, além dos apartamentos, além dos adeuses. porque eles me doíam, sempre. ficavam doendo por horas, às vezes por dias, quando você se demorava demasiado – e você sempre se demorava demasiado. a consciência desta realidade risível entre nós atingiu-me de modo fulminante, como um raio sobre a árvore em dia de tempestade, e então tive a súbita certeza de que já não podia suportar, que estava além das minhas forças, que não era mesmo justo. era preciso abandonar aquele círculo vicioso, de alguma forma. foi quando cortei o mal pela raiz: cortei os pulsos, de uma vez só. como se fosse possível, e correto, e lógico, que junto com o meu sangue você se esvaísse, mas apenas eu mesma me escapei de mim. você permaneceu. você permanece.