a ostra e o vento

mulherfoi quando eu dei o último passo, saí e fechei a porta atrás de mim. assim, de uma vez só. certas coisas necessárias da vida são como arrancar um band-aid da ferida que ainda lateja: ainda que haja medo é melhor fazer de uma vez só, sem piedade. foi assim que eu fui, sem olhar para trás. saí andando a passos mais ou menos apressados, mais ou menos decididos – talvez bem menos do que mais, mas era o possível daquele momento e por isso teria que bastar. e estava tão frio lá fora, muito frio. um dia triste de um vento cortante que veio me bagunçar os cabelos e embaçar os olhos e quando eu vi já estava chorando, um nó apertando a garganta e arranhando o peito mas ainda assim eu não olhei para trás nem pensei duas vezes, não quis dar uma nova chance ou tentar de novo, nada nada nada. era o fim e eu sabia: era o fim. e doía. sabe, doía muito. nossa, como doía. doeu por algum tempo ainda, depois daquele dia. foi como um luto demorado, um velório comprido demais, enterrar um defunto que ficou por aqui até mais tempo do que deveria. mas finalmente eu joguei a última pá de terra, deixei cair por cima a derradeira lágrima e ficou tudo por lá: o que era nosso, sete palmos abaixo. muito depois talvez tenha nascido por cima uma flor, talvez uma flor colorida, eu gostaria de acreditar que sim mas não posso dizer com certeza porque não voltei mais lá. eu joguei tudo fora, deixei que tudo virasse adubo para os novos tempos, e comecei uma história nova. uma história feita de alegria, de portas e janelas abertas e sol brilhando lá fora. e agora é de novo verão aqui dentro e eu já não sinto mais frio. e isso é tanto, e como eu gostaria que você soubesse, como eu gostaria de te contar: eu já não sinto mais frio.

título: do (lindo) filme de Walter Lima Jr.

foto: Renata Penna

por (des)encanto

bancovllbuma vez acreditei mas já faz muito tempo, é coisa tão alijada de mim na linha dos acontecimentos que sinto mesmo como se tivesse sido em outra existência. hoje já não reconheço o gosto desta fé desmedida e desta crença inabalável nas coisas boas e corretas como devem ser, hoje sei apenas o gosto que tem o medo, este medo tão grande que poderia mesmo se chamar pavor, o pavor do inesperado, pavor do susto ao dobrar a esquina, pavor do desconhecido que vem ameaçar a ordem estabelecida das coisas. já não gosto de mudanças, há muito perdi o apreço que um dia tive pelas novidades – descobri com algum espanto não há nada de ruim no que já é conhecido, no que oferece segurança e estabilidade, no que se reveste de tédio. aprendi que o novidadoso é desnecessariamente supervalorizado e o que traz felicidade mesmo não é isso, trata-se ao contrário de uma outra coisa, algo que propicia segurança, é um chão firme no qual se pise com firmeza, sem outros receios.  é isto o que estimo hoje verdadeiramente, após uma sucessão de malfadados acontecimentos surpreendentes: já não desejo mais do que um porto seguro, um canto silencioso onde tudo seja previsível e onde as coisas aconteçam de acordo com o que se espera delas. apenas isso – e é tanto, meu deus, tanto. isso hoje me bastaria, e percebam que não exijo muito: quero apenas descansar.

foto: Renata Penna