do amor táctil

as-ondasli “As ondas” quando tinha dezoito anos. nunca tinha lido Virginia Woolf, pra dizer a verdade nem sabia quem era, só conhecia o nome. cheguei a ele por acaso e até hoje tenho loucura por esse livro. depois li Orlando, Mrs Dalloway, Flush, Rumo ao farol e Os anos, nessa ordem, mas nenhum deles me arrebatou como aquela primeira leitura. um dos livros da minha vida.

eu tinha emprestado sem saber a quem, alguns anos atrás. me contorcia de saudades toda vez que por algum motivo lembrava do livro, querendo folhear de novo as páginas amareladas (comprei em sebo, numa portinhola da Liberdade), rever os trechos sublinhados (sou dessas), reler umas partes sem respeitar a ordem das páginas (adoro).

ontem troquei umas mensagens com uma amiga que há tempos não via, entre umas e outras ela me solta “tô com uma coisa tua, amanhã vou pelo centro, te deixo aí, passa o endereço”.

cheguei da rua hoje, pense numa alegria. embrulhadinho em papel colorido. como se fosse presente. e era.

‘livros são objetos transcedentes
nós podemos amá-los do amor táctil’ *

sim.

(*do Caetano)

dum beijo azul

dia7maiotartarugaP-61

o céu tem estado azul, mais azul do que eu conseguia me lembrar que podia ser. isso é bom. traz consigo uma ideia boa, positiva, de que as coisas podem ser melhores do que a gente esperava, de que um sonho por bonito que seja ainda pode ser menos interessante do que a realidade, esta que é cheia de nuances e poréns e que tais. e eu agora olho pela janela, vejo o céu tão azul e as poucas nuvens que formam desenhos que eu antes não via – eles já estavam lá e eu não via -, e sinto uma alegria leve e brincalhona. alegria de criança. engraçado isso, que a gente caminhe uma vida e cresça e mude e aprenda para no final isso, voltar a ter uma coisa de criança, uma coisa boa e suave que só mesmo com inocência é que a gente consegue ter. eu já não sou mais aquela menina que colava o nariz no vidro e com o peito afogado de angústia via os outros se divertirem do lado de fora, eu cresci e não houve outro jeito, eu aprendi, eu quebrei o vidro cortando as mãos porque era caso de urgência pessoal, e então eu pulei para o lado de fora sem perguntar se podia ser, sem pedir licença nem perdão por coisa nenhuma, entrei na roda para olhá-la por dentro e saber o que havia ali pra mim, eu me atirei. e depois de muita luta e de muita poesia, de tanta reviravolta e dúvida e certeza e tanta delicadeza e tanta dor e tanta coisa bonita vivida até a última consequência, eu estou aqui. bem aqui, onde era pra ser. largada sobre a cama, de mãos dadas com os meus pensamentos embaralhados e de algum jeito que só eu entendo sorridentes, o peito afogado de uma alegria inocente que não carece explicação e só faz sentido pra mim, olhando pela janela, e o céu azul lá fora me convidando a brincar, brincar, brincar. a roda não para de girar, e a gente não cessa de existir. só se quiser.

foto: Renata Penna