salve linda canção sem esperança

levanto da cama. vagarosamente. em silêncio, mal querendo abrir os olhos. a luz me agride e cega, me cansa e desencoraja. sinto cansaço. muito cansaço. dóem-me os ossos. dói-me a alma. carrego comigo uma tristeza que não sei definir ao certo de onde vem, se vem de fato de algum lugar, ou se apenas se mistura comigo como parte da essência do que tenho para oferecer ao mundo, por ora. esforço-me para encontrar em mim alguma lembrança de como era a vida, antes. anteriormente, quando havia em mim outra coisa que não esse desânimo galopante, essa estafa generalizada, esse desejo obstinado de que tudo seja diferente do que de fato é. é inútil. já não me lembro, não há em mim qualquer reminiscência do que fui antes de me encontrar neste lugar onde estou agora: uma ilha de desalento cercada de fadiga por todos os lados. é como se antes disso, não tivesse mesmo havido coisa alguma. é como se antes de me tornar esse amontoado de abatimentos eu nem ao menos tivesse alguma vez existido. sei que preciso estender a mão. sei que há muito a minha espera. sei que é essencial que eu me reconstrua, que encontre milagrosamente em mim algum resquício de vontade, de coragem, de força motriz. sei que me preciso colocar de pé. encher novamente os pulmões com o ar mais puro que possa encontrar, alimentar-me de alguma esperança e antecipação de melhores tempos, não sei. algo. uma insignificância, uma bobagem qualquer. por minúsculo e risível que possa parecer, como tem me parecido tudo o que se apresenta como possibilidade. sei bem do que preciso. sei bem. só não sei como consegui-lo. por ora, levanto da cama. mal querendo abrir os olhos. aceito a luz e a dor que ela me causa, como aceito todas as outras, porque não há outro caminho senão este. escovo os dentes. tomo banho. dou conta do agora. não penso no depois. apenas o segundo seguinte, e pronto. o resto, depois se vê. a respiração seguinte é o que importa. e depois dela, que haja mais uma. é a que me tenho dedicado, sentindo, da maneira mais sincera e profunda que se pode sentir alguma coisa, que estou fazendo o melhor que posso.

que eu não me esqueça disso: estou fazendo o melhor que posso.

a menina submersa

‘quando sinto no pescoço um nó vem o vento e me sopra eu sou pó’ *

eu não devia ter saído de casa

eu não devia ter levantado da cama

eu nem devia ter começado

o que diabos eu estava pensando

inspira. expira. inspira. expira. ponto fixo no teto. aquela mancha ali, de umidade. vai servir. inspira. expira. de um até mil. começa e não para. inspira. expira. não perde o ponto. a cabeça, eu sei. ela quer te dominar. tanta coisa pra pensar. tanta coisa ruim acontecendo. tudo desmoronando. o ponto, cadê? ali, bem ali. não vai sair dali. inspira, expira. em que número estava? oitenta e dois? cento e vinte e um? começa de novo. de um a mil. concentra. é simples. não parece. tá. inspira. expira. dói. eu sei. da cabeça aos pés, todos os lugares. tem lugares novos que só agora você descobriu que existem porque eles doem e pesam de um jeito que não é possível ignorar. o ponto, o ponto. faz um esforço. inspira. expira. breath in, breath out. aquela canção. aquele tempo. essa saudade. quando tudo era simples. ou você achava que era simples. besteira. doía do mesmo jeito. as pequenas coisas. bull shit. o passado, essa entidade santificada. tudo mentira. conto da carochinha. pra boi dormir. duzentos e vinte e quatro? do zero, de novo. é o que tem pra hoje. inspira. expira. lá vem. a taquicardia. a falta de ar. concentra. esse medo filho da puta, eu sei. pára. pensa. o que de pior pode acontecer? se você morrer agora, se parar de respirar, se o coração parar de bater. não sei. talvez seja uma saída fácil. você não teria que mover uma palha, não teria que dar um passo, e ainda assim. ponto final. esquece. não é pra ser fácil. inspira. expira. um café preto, pra começar. se ao menos você tomasse café. um cigarro. uma bebida forte. com tantos sentimentos deve ter algum que sirva. o ponto. sei lá. a vida continua, sabe. lá fora. o sol nasce todos os dias. as folhas ainda caem ao chão porque o outono sempre vem depois do verão, as pessoas acordam de manhã, saem pra trabalhar, pegam os filhos no colo, choram no cinema, dividem uma pizza e voltam pra casa pra começar tudo de novo. é simples, sabe. talvez. pode ser. poderia. só não pra você, mas mesmo assim. que diferença isso faz? uma gota no oceano, lembra. grão de areia. poeira no espaço. dust in the wind. todos nós. do pó, ao pó. concentra nisso aí. talvez seja melhor do que o ponto de umidade no teto. eu acho que sim. esquece o ponto. foca nisso aí. dust in the wind. todos. nós. todos. nós. inspira. expira. um. dois. três. até mil.

 

e sem nós dois o que resta sou eu

captura-de-tela-2017-01-12-as-21-25-38já não sei bem o que é. se é dor, saudade, tristeza ou uma mistura irreconhecível de cada uma dessas coisas que ao final de cada dia se me acomodam no peito e impedem respirar adequadamente. puxo o ar com dificuldade e inspiro curtas quantidades, como se meus pulmões fossem incapazes de suportar o exagero de uma respiração profunda, corajosa e destemida. não me sinto destemida. ao contrário, tenho me sentido ridiculamente encolhida diante da vida, ao menos nas horas mais avançadas da noite, quando o silêncio toma conta de tudo. tem havido muito disto, dentro e fora de mim: silêncio. mas não o silêncio amigável de mãos dadas com as minhas intensidades a dizer-me em sua quietude exato o que preciso escutar, não o silêncio que tive por companheiro desde a mais afastada meninice e que me permite uma inteireza que poucas vezes consigo quando não está e não estamos, não. este silêncio de agora é outro, a enfiar-se por todos os cantos, provocativo, a cutucar-me as entranhas. estico-lhe as mãos e me ponho a investigá-lo com as pontas dos dedos, ele é áspero e suas pontas me ferem, fazendo pequenos cortes que sangram aos poucos e demoram muito a cicatrizar. estamos sós, eu e ele. ele, que também me pertence. ele, que sem palavra e sorrateiramente diz tanto sobre quem eu sou e quem tenho sido. ele que me desvenda, sem piedade, rindo-se sadicamente das minhas lágrimas. penso: uma coisa de cada vez. concentro-me em aceitá-lo apenas hoje sem tanta paúra: se conseguir fazê-lo, ao findar o dia terei alcançado uma grande vitória, um passo gigantesco nesta caminhada que está longe do fim, bem sei. quero abraçar este silêncio e também acarinhá-lo como um amigo querido, coisa que todos os silêncios que me visitam têm sido sempre, desde quando já nem me lembro. se estamos e estaremos juntos, que seja isso também uma coisa bonita, leve, mãos dadas e tudo, como estou acostumada, a leveza mesmo na dor. daquele amor que a gente recupera, para além do véu das agonias excruciantes. quero um silêncio bonito e doce de novo. sim, isso: que seja doce. de novo.

é assim como uma fisgada,

captura-de-tela-2017-01-08-as-08-30-07Não sei dizer, quando penso desse jeito, enumero proposições como: a ser uma pessoa menos banal, a ser mais forte, mais segura, mais serena, mais feliz, a navegar com um mínimo de dor. Essas coisas todas que decidimos fazer ou nos tornar quando algo que supúnhamos grande acaba, e não há nada a ser feito a não ser continuar vivendo. *

esforço-me, reviro-me por dentro para encontrar forças, chego a pisotear meus princípios, ir na contramão de mim mesma e fazer listas de prioridades, longas listas onde eu possa assinalar alternativas, coisas a fazer, pequenas atividades cotidianas, distrações mais ou menos temporárias que me afastem da dor. de nada adianta, devo dizer. ocupo-me por algum tempo mas ao final do dia largo-me no sofá diante dessa inenarrável bagunça: os cacos do que se quebrou espalhados pelo chão, ameaçadores, prontos a me fazer cortar os pés, sangrar infinitamente, chorar de novo. sim, não há nada a ser feito a não ser continuar vivendo. ajeitar o relógio antes de dormir, beber um copo d’água ao acordar, cumprir os horários, encher o tanque do carro, ir ao supermercado, colocar a roupa na máquina, esvaziar a pia da louça que se acumula há dias, é preciso continuar vivendo. será mesmo? agradaria-me mais fechar as portas, colocar uma placa do meu lado de fora: ‘deixe-me ir, preciso andar’. mas onde vou, eles vão comigo: os cacos. incontáveis pedaços daquilo que parecia tão forte, tão sólido. tão inatingível. nada é (talvez eu agora aprenda a lição). fiz o possível, coloquei na prateleira mais alta bem longe de mãos curiosas, tirava-lhe o pó todos os dias ou ao menos sempre que me lembrava e certamente com mais frequência do que seria esperado que fizesse, cuidava para que não ficasse exposto ao sol nem à chuva, para que não pegasse vento, esperava mesmo estar fazendo um bom trabalho, e enfim. um gesto estabanado e lá se foi, ao chão. espatifou-se com barulho e estardalhaço, os cacos voaram para longe, por todos os cantos, vários me acertaram em cheio e os que não, apenas me aguardam, pacientes. sabem que não tenho para onde ir porque me conhecem, sabem de mim até o que eu gostaria que não soubessem. falhei também neste propósito: escancarei-me além do limite aceitável. mostrei todos os meus subterfúgios, dei a conhecer cada uma das minhas rotas de fuga e agora, resta-me apenas o silêncio. e a lágrima, essa que ninguém me tira.

* Caio Fernando Abreu

adeus também foi feito pra se dizer,

captura-de-tela-2017-01-04-as-19-30-11saí hoje de casa com um vestido listrado todo soltinho, os cabelos molhados e a sapatilha colorida que ganhei ontem, botei o pé na rua me sentindo tão bem, tão leve, alegre e feliz com o sol brilhando no céu e o vento fresco me acarinhando o rosto nas horas mais distraídas, mas aí aconteceu e pronto, o vestido virou apenas um vestido, a sapatilha virou apenas uma sapatilha e o vento só me bagunçava os cabelos, engraçada essa mania que a vida tem de fazer pouco do que a gente tem de mais bonito quando a gente descuida, de repente eu era apenas uma pessoa qualquer com um vestido amassado na barra e nas mangas e um sapato com um abacaxi na parte de cima, uma coisa esquisita que naquela hora parecia que não combinava com nada, eu era então apenas uma pessoa toda ridícula, deslocada no tempo e no espaço, e o que antes era poesia virou apenas lamento e eu ali em pedaços, murchando, miúda, querendo mais do que qualquer outra coisa fechar a porta atrás de mim, qualquer porta, e sozinha chorar até me esvaziar por dentro, e agora eu estou aqui, jogada na cama olhando para o teto esperando as horas passarem e sem saber o que fazer de mim, e desse sentimento remoído aqui dentro do peito, dessa vontade de ir embora ou de atirar alguma coisa na parede só para sentir a tímida alegria de ver a coisa se estilhaçando em pedaços, só para ver do lado de fora a representação imagética do meu lado de dentro que agora está assim, partido em incontáveis pedacinhos espalhados por todos os cantos que parece nem que eu tenha o resto da vida para dedicar a isso vou conseguir juntar novamente e mesmo que o faça, e cole de novo um pedaço no outro será apenas um remendo e já dizia a canção, ‘os remendos pegam mal’, talvez seja essa a lição que eu devia ter aprendido para não chegar aqui, a isso, agora: os remendos pegam mal. e como.

e há tempos são os jovens que adoecem

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eu escrevi o texto abaixo (a citação inclusa) aos quinze anos. lá se vão mais de vinte, e é sempre um espanto deparar-me com a menina que eu fui, toda emaranhada em suas caraminholices angustiadas, toda em carne viva, como eu nunca deixaria de ser. o colorido-dolorido, paradoxo perdido na espuma cotidiana dos dias, dualidade que aprendi a saborear. ah, essa menina. há tanto de mim nela, e há tanto dela em mim. ela, que naquele tempo era eu. ou quem eu achava que eu era. puxa. que coisa maluca-assustadora-maravilhosa é o tempo, e a gente enroscada nele.

‘parece cocaína mas é só tristeza’ *

eu sei que as coisas às vezes parecem maiores do que são na verdade, e eu sei que tudo parece pior num dia cinza em que o sol não aparece, e eu sei que eu estou cansada e dormi mal ontem à noite e quando eu durmo mal a vida parece um emaranhado bem mais insuportável do que talvez seja, eu sei sim eu sei, mas eu não consigo evitar, eu me pergunto se há de ser sempre assim, entende? tão solitário, tão vazio. as palavras ditas na frente do espelho. as mãos frias. o sinal da esquina trocando as cores, o tic tac do relógio, as horas passando, mais um dia chegando ao fim, a noite silenciosa e no meio de tudo, eu. uma ilha, cercada de silêncio por todos os lados. às vezes me bate um desespero, sabe. uma vontade de gritar, bem alto. sem medo, sem vergonha. escandalosamente, mesmo. mas no segundo seguinte já me sinto ridícula, porque sei que é inútil. não há ninguém – ninguém ouve, ninguém vê, ninguém entende e ninguém virá. um oceano de distância, toda uma vida. eu escrevo. escrevo muito. furiosamente, até começarem a me doer os dedos e eu sentir a vista cansada e as palavras começarem a se embaralhar e eu não aguentar mais e então eu me jogo na cama, fico olhando para o teto. esperando sem saber o quê. eu acho muito, esse cansaço todo para os meus quinze anos. sei lá. de algum jeito, não parece ser certo. dizem que as coisas mudam, dizem que tudo melhora, dizem que é só uma fase difícil. eu não sei. eu quero acreditar, sabe. preciso muito acreditar. e me agarro a essa possibilidade como se fosse uma tábua de salvação, mas lá no fundo, o medo persiste, igualzinho, sem tirar nem por. o medo de que seja assim para sempre. para sempre – tão definitivo, isso. o medo de que o amanhã seja sempre igual ao hoje. as mesmas palavras que eu não digo. o mesmo abismo entre eu e os outros. o mesmo arrepio de desânimo na base da nuca. o mesmo sorriso amarelo escondendo a vontade de enfiar a cabeça na terra feito avestruz. a mesma falta de vontade de sair de casa. a mesma lágrima escorrendo silenciosa. o mesmo buraco no peito. tudo assim, tão eu. eu mesma. porque é isso, mudam os dias, passam as horas, as coisas se reorganizam do lado de fora, mas eu. eu sou sempre eu mesma, eu não consigo me evitar. e às vezes eu penso que isso deve ser o mais bonito de tudo, que eu seja sempre eu mesma, igual a ninguém, e que isso é o que vai valer a pena no fim das contas, mas esse fim não chega, esse fim demora. e até lá, eu não sei o que fazer de mim. eu-não-sei. **

* Renato Russo, em ‘Há tempos’/ ** outubro de 1993

keep walking

fazendaipanema-108há uma tristeza bruta me mastigando por dentro, ela dói, mas não é dor aguda, é dor crônica e insistente, daquela dor que permanece e incomoda o tempo todo sem no entanto incapacitar para a vida de todos os dias, o que ainda não sei se é vantagem ou desvantagem, porque eu não queria, entende, eu não queria acordar todos os dias e lavar os cabelos e calçar os sapatos e engolir um pão dormido aos bocados e sair à rua e cumprir prazos, e chegar no horário, e saciar expectativas que não são minhas, e dar respostas que não sei, e fingir certezas que não tenho, eu não queria acordar todos os dias e viver a vida como se nada tivesse acontecido, porque não, não é verdade, aconteceu algo, aconteceu uma coisa importante, porque há uma tristeza me consumindo por dentro, porque me dóem os ossos, porque me dói o estômago, a cabeça, porque o meu único desejo é enfiar-me bem debaixo dos cobertores com as janelas fechadas e ali, no escuro mais escuro do meu quarto, deixar que se passem as horas, os dias, as semanas, talvez eu envelheça ali, deitada sob as cobertas, de olhos fechados, só com os meus pensamentos, e as minhas querências não atendidas, e as minhas necessidades não satisfeitas, e as minhas queixas não ouvidas, e as minhas feridas não cicatrizadas, e as minhas carências não acolhidas, e as minhas lágrimas não derramadas, eu e tudo aquilo que poderia ter sido e não foi, tudo aquilo de que não dei conta ou de que não deram conta pra mim, eu e tudo aquilo que eu queria ter sido e não deu, tudo aquilo que pensei que seria e não chegou a acontecer, tudo aquilo que sonhei e virou pó na calada da noite, tudo aquilo que tentei construir e se desfez quando pisquei os olhos, eu e toda a minha solidão de estar abraçada a cada uma das minhas impossibilidades, eu e tudo aquilo que me pertence e não posso dividir com ninguém porque a existência humana é ridícula e indizivelmente solitária, apenas eu no escuro do meu quarto à meia noite à meia luz, apenas. mas não. a vida continua, lá fora. debaixo do sol. ela me puxa pelo colarinho, e eu não tenho saída a não ser isso mesmo: continuar.

foto: renata penna

a casa onde eu sempre morei

fazendaipanema-287porque eu também sou, em alguma medida, fruto desta dor. em meio dela, eu nasci. e fui existindo da maneira possível, estendendo pelos cantos as minhas mãos desastradas, aprendendo a amar de modo estabanado, por entre os espinhos, por entre as impossibilidades, tateando as belezas que, sim, também existiram e não foram poucas, ou eu não estaria hoje aqui, inteira, com força suficiente para olhar essa história em seus detalhes mais escondidos, buscar compreender o que fomos, e o que fui eu e o que sou. e esta dor, que é e sempre foi minha sem sê-lo, numa misturança de sentires e mundos que caminharam entrelaçados desde o início dos nossos tempos, nas entranhas de uma história escrita estabanadamente, rabiscada e rasurada por entre caminhos e descaminhos, compreendo talvez pela primeira vez: não posso largá-la a meio caminho. não posso virar-lhe as costas como se não me dissesse respeito, não posso abandoná-la como se fosse um saco inútil de bagagem desnecessária, porque não o é: ela também me forma. dela também sou feita, ela repousa em cada molécula daquilo que me coloca de pé, e finalmente o reconheço sem pudor e sem paúra. não porque seja fácil – não é. mas é o que há. é a irrefutável realidade que a vida, ela mesma, despida de subterfúgios, atira-nos ao rosto em desafio: nada se faz sem o seu oposto, nada existe apenas por si sem seu contrário por mais indesejável, e em tudo há mais de um lado. não há alegria sem dor e não há, sem ela, lugar para o amor. eis o que me tem sido fundamental e inevitável acolher como verdade irrecusável: que amar necessariamente dói – não que haja necessariamente a obrigação do sofrimento, mas a dor, ela sim, crua, está e permanece como companheira natural do ato de amar quem quer que seja. porque amamos necessariamente o imperfeito, porque o somos todos, por essência. para além das superficialidades do gostar comezinho que se disfarça como se fosse algo mais sem no entanto sê-lo, amar por inteiro significa abrir-se para a falha do outro, aceitar a falta, a mão estendida sem serventia, a impossibilidade mais absoluta naquele que seria o momento da comunhão, o vazio e o sopro gelado do abandono na hora mais triste. e se falo disso é porque sei bem do que se trata este abandono. sei como é experimentá-lo, sei bem do que nos causa por dentro e das muitas marcas que permanecem, a despeito do tempo, a despeito das distâncias, a despeito das inúmeras e desesperadas tentativas de embrulhar o que já foi e abandonar pelo caminho. mas sei bem também que, da vida que me resta nas mãos, eu decido o que faço. é meu livre arbítrio. minha derradeira libertação. e é isso o que eu escolho fazer: eu amo sem pensar duas vezes. sem pedir desculpas. e sem olhar para trás.

365 dias

fazendaIpanema-245‘deixei que tudo desaparecesse / e perto do fim, não pude mais encontrar / o amor ainda estava lá’ *

sonhei com você essa noite. com você vivo, com você bem. sorrindo. cantando. a última vez fazia tempo. deve ser a proximidade da data – já vai fazer um ano. nessa época, há 365 dias, eu estava às voltas com uma porção de despedidas e últimas chances, à espera do dia em que finalmente eu te diria unilateralmente adeus, de uma vez por todas. era muita coisa junta me atropelando no correr dos dias, era uma dor excruciante como poucas que eu senti na vida – talvez mesmo nenhuma – e eu respirava com muita dificuldade. eu voltava do hospital todos os dias aos prantos, em meio ao trânsito infernal da cidade eu ouvia canções que me lembravam de você, de nós, de tanta coisa. a música sempre foi um elo inquebrantável entre nós dois. a música, que entre a gente dizia tanto. desde muito tempo, numa época em que só nos comunicávamos pelas palavras escritas em papéis amassados que chegavam pelo correio, você gostava de assinar as tuas cartas com trechos das tuas canções favoritas, e eu contigo adquiri o hábito de fazer o mesmo – até hoje, ainda faço.  não escrevo mais cartas, mas mantenho intocado o costume de dedicar trechos de música às pessoas que mais gosto. é uma, das muitas coisas tuas que permaneceram em mim. mas eu falava daqueles dias, em que eu ia e voltava do hospital entre memórias mais ou menos organizadas, saudades difusas e dores quase fatais. aqueles dias em que o peito me doía a cada novo sopro de vida a me encher os pulmões enquanto a sua ia escorrendo pelos dedos, dia após dia, hora após hora, em uma longa e desolada caminhada rumo ao inevitável. todas as noites, lá pelo começo da madrugada, eu abria a janela do apartamento silencioso, onde além de mim todos dormiam, e me sentava no parapeito. puxava bem fundo o ar gelado, de inverno, impiedoso. e ali, numa solidão de dar dó – porque sempre são solitárias as grandes dores, como as grandes alegrias – , eu esgotava as lágrimas do dia. e bem sabia que dali a algumas horas o sol ia aparecer de novo, lá no canto do horizonte. em desafio. e eu ia começar tudo outra vez – aquela montanha-russa de sentimentos e lembranças e culpas e dores e saudades e muito amor. houve dias em que achei que nunca mais ia conseguir parar de chorar. achei mesmo que esse passaria a ser um ritual meu, muito particular, de todas as madrugadas: encostar-me no parapeito da janela, respirar bem fundo, chorar soluçando. mas, sabe. muita coisa aconteceu. enquanto eu segurava na tua mão, nas longas horas que se arrastavam naquele quarto de hospital, entre apitos de aparelhos eletrônicos, vai e vem de enfermeiras e médicos e desenganos de toda sorte, aconteceu quase uma vida inteira. entre as memórias que eu resgatava sozinha, falando contigo sem receber resposta. eu percebi tanta coisa. eu aprendi tanto. sobretudo, aprendi a esquecer. não tudo: aprendi a escolher. a olhar e ver, a saber o que merecia ficar e o que não. a soltar os nós que me prendiam a tantos vazios, a tantas faltas, a tantos desencontros, e deixar ir. e aprendi a lembrar, também. sem medo. a me agarrar sem qualquer pudor às coisas bonitas. que eram tantas. são tantas. um dia você me disse que tinha medo que eu me esquecesse das coisas boas. pois hoje, quando já faz quase um ano que você se despediu dessa vida, abrindo atrás de ti de maneira irreversível a porteira do esquecimento, eu posso te dizer sem gaguejar: eu não me esqueci. eu não vou me esquecer. as coisas boas, as coisas bonitas, as coisas preciosas, todas elas, estão gravadas em mim. na pele. no corpo. na alma. sinto delas o gosto, o cheiro, o toque. eu carrego comigo. eu te carrego comigo. o que havia de ruim, creia-me: dissolveu-se. transmutou-se. será para sempre de algum modo parte daquilo que eu sou e de como cheguei aqui, mas já não há nisso nada que tire a grandeza da experiência, que é linda em suas infinitas nuances, imperfeições, possibilidades. ao fim, fizemos algo importante de tudo o que nos foi dado, e o fizemos da melhor maneira possível. da nossa melhor maneira possível. eu me orgulho disso. eu me orgulho de nós, no final das contas. e hoje, quando me tateio por dentro em busca do que ainda permanece, tenho uma única certeza: o amor ainda está aqui. de tudo, apesar de tudo. dando sentido a tudo. o amor ainda está aqui. e há de ficar, ressoando sempre, teimosamente. como uma velha canção – uma canção pra você viver mais.

( * trecho de ‘Canção pra você viver mais’, de John Ulhoa) 

em caso de dor ponha gelo

BH-25em prantos, agoniada, agarrada à minha angústia, eu me repito freneticamente a pergunta, em espiral: por quê? por que há de ser assim, tudo tão duro, tudo tão trabalhoso, tudo tirado tão a fórceps dos bolsos da vida? se ao menos eu pudesse respirar. tirar o véu dos olhos, ver com clareza, ver o céu límpido e claro sem fazer perguntas. essa leveza que enxergam em mim, se ao menos eu pudesse tê-la nas mãos, senti-la como coisa efetivamente minha, provar seu gosto, feito bicho sedento que se aproxima do riacho e se farta, contente, com a água tão pura e fresca como ele jamais teria ousado imaginar. estou tão cansada. carrego isso tudo comigo há tempo demais, toda esta bagagem desnecessária – e sim, eu a entendo desnecessária, eu a digo desnecessária, eu a grito desnecessária todos os dias aos quatro cantos e ainda assim, cá está ela, agarrada às minhas mãos, amarrada aos meus passos, fazendo-me doer os ossos e as têmporas. tanto cansaço. às vezes a vida se assemelha desesperadamente a um labirinto, a uma casa de espelhos ou a uma estrutura qualquer da qual não se saia com facilidade, ao contrário, bata-se a cabeça infinitas vezes enquanto se procura em vão a saída, que no mais das vezes estava bem ao lado, ao alcance de alguns poucos passos. estou tão cansada. tantos desvios, tantas voltas que me levam ao mesmo lugar, de onde tenho que começar tudo de novo. sinto-me às vezes tão pequena. um grão de milho, encostado ao canto. esqueceram-se de mim, foram adiante na estrada levantando poeira, e eu me esqueci também de mim, em algum ponto do caminho. talvez seja o avançado da hora. talvez seja o escuro da noite, esse breu impiedoso que não perdoa as dores varridas covardemente para baixo do tapete. talvez seja apenas aquilo que eu sou. talvez amanhã seja, de verdade, um novo dia. é. talvez. quem sabe.