little children

captura-de-tela-2016-11-12-as-17-03-13o que se passa é que às vezes eu chego muito perto de perder as esperanças, entende? perigosamente perto. e fico acreditando mesmo que é isso, que não se pode ter tudo, que há que se deixar escorrer pelas mãos, ainda que doa, sangre e deixe uma ferida que – sabemos – não há de cicatrizar tão já. e o que posso dizer? queria fugir. como Pessoa, ‘ir ser selvagem entre árvores e esquecimentos’, abraçar todos os vazios que a vida tem me salpicado pelo caminho, como se o sentido de tudo fosse apenas vivê-los até a última consequência, apesar do cansaço, apesar de tanta lágrima, apesar do desejo infantil de que tudo se transformasse num piscar de olhos, num toque da varinha mágica. eu venho dedicando tudo o que tenho ao esforço de não desistir. entende? seguir acreditando. sorrir todos os dias, quando o sol invade o meu quarto pela janela me convidando a sair da cama e viver um dia inteiro. desafios diários de uma existência um tanto ridícula, um pouco risível. e eu faço o quê? eu me esforço, entende. eu meto o medo no bolso, amasso o desencanto numa bolinha bem apertada e varro pra baixo do tapete, faço de conta que não é bem assim, que pode ser outra coisa, que uma mentira repetida mil vezes acaba virando verdade, evito o espelho para não dar de cara com os meus olhos que têm estado sempre rasos, e vou. batendo a porta atrás de mim, empinando o nariz para dar conta do mundo lá fora. fingir a coragem que não tenho tido (auto-ajuda de livreto de bolso, eu sei), mas está difícil, sabe. a cada dia, fica um pouco mais difícil. e eu tenho medo, vou dizer com todas as letras, eu tenho medo do dia em que eu não vou conseguir me levantar da cama. apesar do sol brilhando lá fora, apesar da vida esperando ser vivida, apesar de tudo o que de bonito talvez me espere na próxima esquina, aquela que eu ainda não dobrei. eu preciso tirar forças de algum lugar, entende. de uma coisa boa qualquer. de uma esperançazinha, por pequenina e desbotada que seja. mas todas elas têm se escondido de mim, e eu nunca fui boa no pique-esconde. pequenas tragédias cotidianas.

duas três dez cem mil lágrimas

centrao_p-65pois certas coisas, certos arranjos, repare, parecem mesmo impossíveis. e a gente permanece, insiste, persiste, dá murro na ponta da faca até quase perder os dedos, e ainda assim. inalcançável. há aquilo que tem força porque precisa acontecer, e do mesmo modo, de outro lado, há tudo aquilo que não se presta aos nossos desejos e manobras, por fortes e sinceros e bem intencionados que sejam. tentamos a muito custo transpor os muros, as barreiras, os obstáculos, mas chegamos do outro lado e há apenas vazio. e dor. e lamento. então choramos, encolhidos num canto, vítimas de um abandono atroz: abandonaram-nos a sorte, a possibilidade, o fiapo de esperança. o que fazer então? com sinceridade digo que ainda não sei, e estou agora a entregar-me à dor, simplesmente. a chorar as perdas, a engolir o luto. mastigar os nãos por entre os dentes. apertar o desamparo por entre os dedos, até sentir que me latejam os ossos. e repito-me cadenciadamente, em uma cantilena um pouco monótona mas muito necessária, que amanhã será um novo dia. não estou muito convencida, mas ainda assim digo a mim mesma uma vez emendada na outra, acreditando que de tanto repetir, quem sabe tornarei a remota possibilidade uma verdade irrevogável. poderei então juntar meus cacos, respirar bem fundo, olhar para frente. recomeçar. espero que sim, embora não tenha certeza. mas a verdade, perceba, é esta: não me resta mais do que esperar. de olhos rasos. feito criança em véspera de natal. esperar. quem sabe. talvez eu mereça o milagre.

depois do salto

rezicaSABESP2-1“Ela diz adeus a tudo o que é familiar e seguro. Não cruza a porta para encontrar outra pessoa a quem se dedicar e que tome conta dela; sai de casa mais insegura do que jamais imaginou que poderia encontrar-se. Mas espera descobrir quem é, e por que é.

Existe nisso uma grande liberdade: o conhecimento que é preciso deixar para trás minha vida atual. Não sei para que. Por mim mesma. Para me tornar algo mais do que sou agora.” *

copiei esse trecho há pouco mais de um ano, e deixei-o colado em um pequeno pedaço de papel ao lado da minha cama. ele dizia muito de quem eu era então, e de tudo aquilo que eu experimentava em um momento de grandes decisões, mudanças e (r)evoluções.

Liv Ullmann, atriz norueguesa muito conhecida pelas – incríveis – atuações nos filmes de Bergmann, fala de Nora, personagem da peça Casa de Bonecas, de Henrik Ibsen. casada, dona de casa e mulher-mãe ‘de família’ impecável (consideremos a época em que a peça foi escrita), Nora decide deixar toda a segurança de uma vida aparentemente perfeita e que funciona dentro dos moldes aceitos e valorizados pela sociedade para trás, em nome da descoberta de quem ela é, diante do vazio, diante do mundo e diante de si.

eu nunca fui uma mulher-mãe de família impecável (ainda bem). nunca me vi sufocada pela vida que escolhi ter, com companheiro, filhas, casa, rotina (que nunca foi muita, mas). ainda assim, há um ano e meio percebi que havia algo ali que era preciso abandonar. sem medo, ou colocando o medo no bolso e caminhando, aceitando o abismo, a possibilidade da queda e da dor.

e eu fui. abri a porta, e fui. para tornar-me algo mais do que eu era então. para acolher de fato, e solitariamente, a pessoa que me esperava do lado de fora, querendo finalmente passar a existir em mim inteiramente. livremente. corajosamente.

um ano e meio depois, que alegria eu sinto ao olhar para trás e perceber quanta coisa descobri, ao olhar-me sem máscaras e atirar-me ao que viria sem redes de segurança, sem garantias, sem proteção. quanto aprendi sobre mim, sobre o meu lugar no mundo, sobre a minha relação com o outro. quanta vida a vida me trouxe. quanto amadurecimento se fez possível, apenas pela simples (simples?) decisão de colocar os pés um diante do outro e caminhar.

se hoje há em mim alguma certeza (e olha, não há muitas), é a certeza de que daqui pra frente eu posso fazer o que quiser – de mãos dadas ou solitariamente, em silêncio ou no meio do maior auê. de que a voz que fala baixinho comigo do meu lado de dentro não silencia mais, aconteça o que acontecer. de que onde quer que eu esteja, estarei porque quero – não porque preciso, ou porque me disseram que era assim que deveria ser, ou porque tenho muito medo de olhar para fora e descobrir o que mais existe.

verdade
liberdade
felicidade

quer eu fique, quer eu vá,
será sempre em nome disso aí.

(*Liv Ullmann, in: ‘Mutações’)

em caso de dor ponha gelo

BH-25em prantos, agoniada, agarrada à minha angústia, eu me repito freneticamente a pergunta, em espiral: por quê? por que há de ser assim, tudo tão duro, tudo tão trabalhoso, tudo tirado tão a fórceps dos bolsos da vida? se ao menos eu pudesse respirar. tirar o véu dos olhos, ver com clareza, ver o céu límpido e claro sem fazer perguntas. essa leveza que enxergam em mim, se ao menos eu pudesse tê-la nas mãos, senti-la como coisa efetivamente minha, provar seu gosto, feito bicho sedento que se aproxima do riacho e se farta, contente, com a água tão pura e fresca como ele jamais teria ousado imaginar. estou tão cansada. carrego isso tudo comigo há tempo demais, toda esta bagagem desnecessária – e sim, eu a entendo desnecessária, eu a digo desnecessária, eu a grito desnecessária todos os dias aos quatro cantos e ainda assim, cá está ela, agarrada às minhas mãos, amarrada aos meus passos, fazendo-me doer os ossos e as têmporas. tanto cansaço. às vezes a vida se assemelha desesperadamente a um labirinto, a uma casa de espelhos ou a uma estrutura qualquer da qual não se saia com facilidade, ao contrário, bata-se a cabeça infinitas vezes enquanto se procura em vão a saída, que no mais das vezes estava bem ao lado, ao alcance de alguns poucos passos. estou tão cansada. tantos desvios, tantas voltas que me levam ao mesmo lugar, de onde tenho que começar tudo de novo. sinto-me às vezes tão pequena. um grão de milho, encostado ao canto. esqueceram-se de mim, foram adiante na estrada levantando poeira, e eu me esqueci também de mim, em algum ponto do caminho. talvez seja o avançado da hora. talvez seja o escuro da noite, esse breu impiedoso que não perdoa as dores varridas covardemente para baixo do tapete. talvez seja apenas aquilo que eu sou. talvez amanhã seja, de verdade, um novo dia. é. talvez. quem sabe.

pois foi por água baixo aquele nosso plano infalível

transarqui-41eu imaginei que hoje seria melhor, sabe. sei lá porque. eu imaginei que hoje o dia ia estar mais ensolarado e a brisa ia estar mais fresca e as pessoas iam cruzar comigo na rua um pouco mais felizes e mais dispostas a sorrir para que eu pudesse então sorrir de volta sem me sentir uma completa idiota, eu imaginei que hoje dizer sim seria mais fácil, aceitar, acolher, compreender. eu imaginei que hoje as coisas fariam mais sentido, deixariam de se parecer com um quebra-cabeças mal encaixado, com uma pintura surrealista ou uma cena de um filme de quinta categoria, daqueles que passam em sessão no meio da tarde com ingresso quase dado de graça. eu imaginei que hoje eu teria mais forças, que os meus pés não doeriam mais, que a cabeça não me pesaria tanto sobre os ombros e eu conseguiria respirar bem fundo, enchendo os pulmões de ar e quem sabe, se não fosse pedir demais, de esperança também. eu imaginei que tudo poderia ser diferente, apenas isso, e tão bobo isso, ser diferente, apenas, ser. diferente. eu imaginei que as coisas poderiam de novo ser boas por um dia inteiro, da primeira hora do amanhecer até o último minuto da noite antes de botar a cabeça no travesseiro e dormir pesado um sono desprovido de sonhos, daqueles que se parecem com uma quase morte. porque houve um tempo, veja, eu ainda me lembro, houve um tempo em que as coisas eram, sabe. boas. apenas. assim, simplesmente. houve mesmo esse tempo. ou, será. houve mesmo esse tempo?

título: da letra de paulinho moska

sem fantasia

grimmagresteP-18
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uma coisa ou outra coisa, e como é difícil às vezes saber o que se deseja, verdadeiramente e além da superfície. sentir-se capaz de apontar o dedo de maneira resoluta, os olhos fixos a mirar uma direção precisa e dizer em alto e bom som: “sim, é isto, vou por aqui”. e se não for? e se depois, vier a arrepender-se? e se descobrir no final das contas que era a outra coisa e não esta, que era aquilo e não isto, que era assado e não assim, que era acolá e não cá, que era o outro lado da mesma moeda? ufa, que trabalho que dá. examinar-nos atentamente em uma tentativa sempre estabanada de adquirir consciência. compreender-se: uma empreitada para a vida inteira e ainda assim, falta. e as vozes externas, tagarelando infinito enquanto tentamos acomodar as ideias num canto, em fila indiana, para que possamos examinar uma a uma com diligência, sem perder os detalhes, sem deixar passar as nuances mais delicadas, as reentrâncias. concluo: é preciso fazer calar. silenciar o que há do lado de fora, silenciar o que não nos pertence, silenciar o que é alheio e deste remanso fazer nascer uma sabedoria desconhecida, da quietude sorver algo que nos pertença de fato, algo que nos defina.  há em nós tamanha mistura e tanto ruído externo, desde que começamos a nos entender por gente. aceitamo-no, cotidianamente. mas quando se está diante da encruzilhada, quando a vida nos obriga à escolha de maneira irrecusável, é preciso despir-nos. o retorno. regressar ao que nos era primordial: a essência, aquilo que um dia foi semente. mirar-se no espelho: onde me reconheço? perguntar-se assim, sem rodeios, assombra. mas é urgente aceitar a pergunta. deglutir, mastigar. para que das entranhas, nasça a resposta. que não será fácil. será simples, talvez, o que é muito diferente.

é que ela queria tudo

nasceTheodora_logo-7separar-se. fragmentar-se. reunir-se.

sentir a distância. conhecer a ausência e saber-lhe o gosto, descobrir o que causa em mim, que rastros me deixa nas entranhas doloridas. experimentar a falta. fechar os olhos. mastigar saudades, cuspir lembranças. saborear o silêncio. a não presença, o não toque. o vazio. interno-externo, e revirado. o avesso. o meu, e o do outro que não está, e que não estando me causa um algo que ainda não sei bem o que é. repartir as coisas entre aquilo que me pertence e aquilo que me é alheio, saber reconhecer o que me nasce por dentro e perceber o que vem de fora, como mistura. conhecer-me mais do que sabia até agora. aceitar meus abismos, todos, sem escolher. abraçar, acolher, aceitar. verbos reflexivos. me, mim, comigo. ‘numa dualidade de eu, para mim’. diante do espelho, o encontro marcado. o ponteiro do relógio. o tempo, ‘faço um acordo contigo’. o alinhavo. os círculos, que se fecham para recomeçar ali adiante. novas possibilidades. novos traçados. novos desenhos. novas cores. o móbile, no furacão. non-stop. o caminho, ao caminhar. sem descanso. o suspiro, o grito. o gozo, o susto. o desconhecido. o mistério. que açoita e afaga, de uma só vez. um pé diante do outro, o passo de dança, a queda, a dança. a dor, o êxtase. mãos dadas. tudo o que é inteiro. tudo o que é bonito. tudo o que está vivo. tudo o que me significa. mosaico. uma colagem do que me resta, recortado com tesoura em mãos delicadas. combinado de cores inesperadas. todas as do arco-íris, descombinando.  o descompasso. o desafino. também sou eu.

aqui dentro do lado de fora

grimmagresteP-20do que eu aprendi: que às vezes é necessário, sim, fechar algumas portas. sem trancar à chave, mas sem dar ao acaso qualquer possibilidade de abri-las. segurando com um calço, para que não se balancem ao sabor do vento. é preciso que se escolha, que se saiba. é que carece da gente ser capaz de conhecer a valia das coisas, saber dos compensamentos por carregá-las ao longo da vida, pesando nos ombros. a vida não traz somente os abismos bonitos e cheios de mistério pra gente mergulhar. na vida também tem muito buraco. e buraco é isso: vazio e só, sem possibilidade. não diz coisa alguma, em seu silêncio oco, sem eco. nos abismos a gente pula e não pára de escorregar por cantos desconhecidos, tateando belezas novas que antes não adivinhava. mas nos buracos, nesses a gente só esfola os joelhos e os cotovelos, sem ter nada em troca. nem beleza, nem poesia, nem possibilidade, nem nada. só o escuro rarefeito, esvaziado de tudo que seja bonito. e lá dentro, a gente choraminga comprido, de uma solidão demasiada. não daquela que alimenta, mas daquele outro tipo: a que esvazia. aquela que mata o que havia de esperança, de delicadeza. no buraco não cresce coisa nenhuma, não floresce o que vale a pena: só multiplica o que é daninho, o que deixa a gente carcomido por dentro, enrugado feito fruta seca esquecida no sol a pino por dias a fio. eu ando muito decidida sobre isso: não quero mais. já experimentei buracos suficientes para saber que eles não me servem, e que neles eu não cresço. então, se vier um buraco se fazendo de abismo, eu desconfio e percebo, e digo logo: estou de portas fechadas.

na volta que o mundo dá

dia9guarameaipeecastanheiras-22“não é saudade, porque para mim a vida é dinâmica e nunca lamento o que se perdeu – mas é sem dúvida uma sensação muito clara de que a vida escorre talvez rápida demais e, a cada momento, tudo se perde.” *

e porque eu ando sentindo isso com fisgadas diárias que me entortam as ideias e me botam na boca um gosto amargo de qualquer coisa mal mastigada, que vai ficando esquecida por entre os dentes. e porque o tempo que passa, não simplesmente passa, em calmaria – ele dói. lateja. roça. embrulha e desembrulha. feito caldo de onda forte vinda de repente, no susto. que embola a gente pelo meio das águas barrentas, faz ralar os joelhos, faz engolir água salgada, faz virar do avesso. é isso: eu ando meio virada do avesso. de um jeito tão intenso, que tudo o que me roça na pele me faz embrulhar o estômago, e cada som por delicado que seja me dói nos ouvidos – como se eu precisasse de uma solidão absoluta e silenciosa, esvaziada de qualquer presença humana que me seja alheia, para deglutir a passagem das horas, dos dias, dos meses, dos anos. tenho me sentido atropelada. aturdida. confusa. há uma parte em mim que sonha futuros e deseja muito, quer o que há de novo, quer dar passos à frente, quer desbravar. mas há outra. que chora em silêncio, soluçando baixinho, amedrontada. que se agarra ao que já se foi, em desespero. que quer olhar para trás, apegar-se ao que já não é mas um dia foi, e foi bonito, e foi bom. estou agora assim: no meio do caminho. não sei se vou ou se fico, não sei se fico ou se vou. e enquanto eu me encolho pedindo paciência e calma, mais amor por favor, a vida continua aos trancos. empurrando-me aos barrancos. em demasia, como sempre foi. eu tapo os ouvidos, os olhos e a boca. recuso-me. enquanto eu puder, eu vou me demorar. às vezes é preciso. às vezes, eu preciso.

* caio fernando abreu

paralisia

ccbbteatro2P-12porque a gente inventa, veja você que ironia, tantas maneiras de fugir, de dar voltas, de escapar aos sinais que a vida nos dá e fazer de conta que não, que não é bem isso, que não se está vendo, que não percebeu. por mais que em algum lugar bem escondido a gente saiba muito bem da precisança, do imperativo da alma suplicando pela mudança que a vida avisa que está pra chegar, rondando, esperando no dobrar da esquina, no primeiro descuido. mas a gente mente, sabe. descaradamente. assoviando e revirando os olhos. tamborilando os dedos no tampo da mesa. a gente mente fazendo de conta que está tudo bem, que dá pra deixar pra depois, que é possível adiar mais um pouco, aguardar, esperar, tardar, mais adiante quem sabe, num ponto mais avançado no tempo, talvez numa outra vida. e não era isso, no fundo a gente sabe, era aqui, era agora. era a hora. era já. era sem demora. era o instante exato, preciso, mas a gente mente. sussurra uma desculpa inventada, e torce pra mentira vingar. torce pra gente mesmo cair na armadilha, acreditar no engano e botar a cabeça no travesseiro por mais uma noite, duas, por mais uma vida inteira. ainda que a gente não caiba mais no que está, ainda que a gente anseie em silêncio e de mãos amarradas por uma coisa diferente, nem sempre é possível vencer o medo – essa é a verdade comezinha e ridícula que a gente tem que engolir. nem sempre é possível driblar as próprias angústias, aquelas mais encruadas. nem sempre a gente consegue dar um nó na própria covardia. às vezes, ela sobrevive. fazendo troça da coragem que a gente queria ter, mas não veio. a coragem de olhar o susto com as pálpebras bem sustentadas, de encarar o abismo, de permitir a vida desconhecida, aquela apenas possível.