trata-se de livro inacabado porque lhe falta resposta, *

reli agora aquela frase do poeta que dizia ‘do lugar onde estou já fui embora’ ** e pensei comigo, muito embaralhadamente e sem conseguir organizar as ideias de modo adequado que sim, que de algum modo já dei as costas a este lugar tão conhecido, que de alguma maneira já estou dedicada a outras coisas, a outras paisagens, a novas possibilidades, e no entanto há algo em mim que permanece, que não se desprende, um apego que não sei identificar a contento, que não aceita palavra e não admite rodeios, apenas existe e me segura pelo colarinho quando acredito que estou livre, e ato contínuo culpei-me pela incapacidade de seguir adiante de fato, liberta de todas as amarras, olhando apenas para a frente, contemplando o horizonte que me seduz ao longe, creia-me, não há por ora algo que deseje mais do que isto, chegar lá a passos largos, contentes e extasiados, minha alma pede por isso, meu coração anseia, aos pulos, quase sangrando, mas há algo em mim, uma coisa qualquer talvez muito pequena mas nem por isso menos importante, que ainda tem o que fazer aqui, que ainda precisa compreender alguns detalhes, limpar alguns cantos onde ficou poeira daquilo que foi, recolher uns pequenos cacos que insistiram em esconder-se por debaixo dos tapetes, então eu fico, de alguma maneira eu permaneço e me dedico ao menos em parte a terminar o que ainda me exige, a construir tão cuidadosamente quanto possível estes pontos finais, ou pontos e vírgulas, já que adiante continuarei escrevendo, acontecendo, existindo, ao menos é essa a minha esperança, de que lá para a frente, lá onde a vista quer tanto alcançar, eu continue, eu me espalhe novamente, e dance com os braços abertos e as saias rodando ao vento, sorrindo de novo, sobretudo isso, por favor, sobretudo isso: sorrindo de novo.

trecho de ‘A hora da Estrela’, de Clarice Lispector / ** frase de Manoel de Barros

diálogo

ei, você.

quem, eu?

é. você.

o que foi?

eu tinha tanta coisa pra te dizer. tinha feito uma lista, sabe. logo eu, que detesto listas.

eu também.

é, eu sei. tinha a ver com isso, o que eu tinha pra te falar.

isso o que?

com o tanto de coisas que eu sei sobre você. com o tanto de coisas que você sente agora e em um dia distante no tempo, tão distante que você acha mesmo que nunca vai existir, eu vou entender e saber do que se trata.

então você é assim, o futuro. seria isso?

mais ou menos. uma possibilidade. um caminho, uma escolha. mas há muitas.

muitas de você?

muitas de você. possíveis.

isso é estranho.

eu que o diga. dependendo de por onde você vá, eu posso nem existir.

então me diz.

o quê?

me diz. pra onde eu devo ir. o que escolher. pra onde olhar. pra chegar aí, onde você está. aí, onde você sabe todas essas coisas que eu nem imagino. eu quero saber essas coisas. eu quero aprender. eu quero crescer.

diz. aponta. me mostra. eu vou, prometo. onde você disser, eu vou.

por favor.

sabe de uma coisa?

o quê?

só vai. segue. confia. você sabe exatamente como chegar até aqui.

será?

sim.

sim.

da vida que ficou em minha vida

fazendaipanema-32quando as nossas impossibilidades se esbarram, é o que lateja em mim. dor aguda, mesmo. tenho vontade de fugir, de desaparecer. de ficar em silêncio. porque quero estender a mão e não consigo. e preciso tanto de um acolhimento que não encontro, de uma compreensão que não acontece. e fico sozinha, tão sozinha. sozinha comigo e com as minhas coisas que você não alcança, sozinha com tudo aquilo que não consigo dizer, sozinha com todo o desejo que me afoga o peito e não encontra palavra exata para ser entendido. sempre achei isso o mais tragicômico da vida, esse desencontro continuado, esse esticar-se para alcançar o outro sem no entando consegui-lo, esse revirar-se para caber em um molde do qual já se sabe antecipadamente que não: não serve, não alcança, não é. o que fazer, então? continuar, penso. rasgar o molde, e fazer a vida acontecer sem etiquetas. exagerar para fora de todos os tamanhos possíveis, para então descobrir uma coisa nova – uma coisa qualquer que não seja eu e não sejas tu e de algum modo, seja algo de mim e algo de ti. um lugar desconhecido onde possamos nos encontrar e rir-nos ruidosamente do que antes não era possível, despidos dos descaminhos anteriores, nutridos de uma esperança teimosa, sorridentes de uma ingenuidade qualquer, da criança desembrulhando o laço do presente na manhã de natal. que sejamos presente: eu, e tu. que sejamos o laço de fita. e a vida. e o que há de mais bonito para ser desembrulhado diante dos olhos. os meus, os teus. os nossos.

te dei meus olhos pra tomares conta

mafaldaflores“desamparada, eu te entrego tudo – para que faças disso uma coisa alegre. por te falar eu te assustarei e te perderei? mas se eu nunca falar eu me perderei, e por me perder eu te perderia.” *

e quero crer que não, que ao falar não perderei coisa alguma, que não haverá em ti nenhum medo, que serás finalmente capaz de abrir para mim os teus braços compridos e fortes para que neles eu faça um ninho onde possa reencontrar alguma paz, a paz possível dentro das nossas tempestades, minhas e tuas, e aquelas nascidas do nosso encontro que apesar de bonito nunca foi silencioso, nem sereno, ao contrário, foi sempre desde o princípio redemoinho, um revolucionar-se da cabeça aos pés, e deste modo aprendemos a estar e a seguir amando, e desejando, e transformando tudo o que pedia em nós para ser transformado, e quero crer que assim será ainda hoje, e amanhã, e por um tempo que não sei contar, porque já estou perdida das horas e dos dias do calendário, porque a minha alma conta os tempos de uma outra maneira, conta nas alegrias que fizeram nascer em nós tantos sorrisos, conta nas dores que choramos juntos afogados um nas lágrimas do outro e também o contrário, conta nas pequenas delicadezas e nos pedacinhos de poesia cotidiana que apontamos com a ponta dos dedos para que o outro visse, conta nas misturas que fizemos entre o que era meu e o que era teu porque queríamos muito dividir e estar no outro como algo que não perece, conta nesta coisa nova que nasceu de nós quando o inteiro de mim encontrou-se com o inteiro de ti e disto se fez um algo para o qual nunca soubemos dar nome e que de nome tampouco careceu para ser de fato e sobreviver apesar dos perigos, e por isso, e por tudo isso quero crer que assim há de ser também hoje, que poderei dizer tudo que de mim transborda querendo existir como verdade posta em palavras e moldada com a ponta dos dedos, quero crer que quando eu terminar de dizê-lo ainda estarás aqui, ainda quererás permanecer, ainda terás esperanças, como eu tenho tantas, às quais encontro-me agora tão agarrada que me dóem os braços pela força que faço, e faço porque sei, de um modo intuitivo e muito comprometido sei, que não posso desistir, que há aí algo tão precioso, um pequeno tesouro, que é preciso crer e querer e desejar muito, e persistir agarrada ao esforço para que sobreviva, porque o que foi ainda é, de alguma maneira desconhecida que ainda precisamos aprender, com afinco e sem medo, mas em suma é isto: o que foi, ainda é.

* Clarice Lispector, in: ‘A Paixão segundo G.H.’

nome próprio

adalbertolandiaP-55e lá se vai um aninho cheio de bicos. de pontas, de reentrâncias. o que ele fez de mim e o que fiz do que foi feito de mim está aqui, posso tocar com as mãos e vejo com detalhes diante do espelho: 2014 me empurrou da beira do precipício, matou-me as certezas e tirou-me da zona de conforto, jogou os meus medos todos bem aos meus pés e obrigou a olhar para eles, apertar entre os dedos, mastigar entre os dentes, engolir e aceitar entre as entranhas, como parte daquilo que eu precisava construir para mim, dali por diante. em 2014 eu cresci. não sei se posso dizer que ‘cresci como nunca’ – outros anos houveram na minha história que me fizeram crescer também um bocado, pela dor e pelo amor. mas 2014 foi impiedoso comigo. não me deixou fazer pausas, parar para respirar, para tomar fôlego. fez-me, dia após dia, de sol a sol seguir adiante, e adiante, e adiante. em 2014 eu mergulhei de cabeça e sem rede de proteção naquilo que era novo, no que vinha me espreitando por trás do muro, na esquina, ali onde eu ainda não havia ainda ousado colocar os pés. em 2014 eu abri mão daquilo que vinha pesando, do que já não fazia mais sentido, daquilo que há muito tinha deixado de ser, de respirar, de existir em mim como coisa viva, mas cuja morte eu ainda não tinha tido coragem suficiente para declarar em voz alta e então com as mãos sujas de terra e o suor escorrendo pela testa, enterrar definitivamente a sete palmos. em 2014 essa coragem se fez presente, e ela veio grande, veio definitiva. cortei os laços que há muito haviam virado nós de marinheiro que me impediam caminhar. disse os nãos que a vida vinha me pedindo para dizer com todas as letras e a recompensa veio na mesma medida: um sim grandioso de portas abertas e janelas também, de sol a se enfiar pelos cantos. e de um caminho bonito para caminhar, com um horizonte convidativo lá adiante. a vida me sorriu esse ano, sorriu sim. à moda dela, arreganhando os dentes e gargalhando com desafino, mas me sorriu e me tirou pra dançar no meio do salão, assim sem preparo, de susto. e eu fui. o coração quase que me sai pela boca, mas eu fui. enfiei o medo no bolso, e fui. fiz troça das minhas vergonhas, fiz pouco dos meus achados de não poder e fui.

2014, o ano do mergulho. de cair com a cara no chão, ralar o nariz, esfolar os joelhos. e levantar, botar um band-aid e continuar. em 2014 eu perdi umas inocências que a vida me arrancou sem piedade, jogando na cara a verdade crua, nua, irrecusável. e aí eu tomei a decisão que foi uma das mais difíceis dos últimos tempos: encerrar uma parceria profissional que eu acreditava que fazia parte daquilo que eu era. não fazia. não faz.

com a parceria profissional, lá se foi uma amizade – ou o que eu achava que era uma amizade. não era. e lá se foi, e virou luto pra depois virar nada. poeira na estrada. e eu vi o gosto bom que tinha essa coisa da gente nomear o vazio pelo que ele é: vazio. ele perde a grandeza e vira sopro. desaparece assim, num estalo. como se nunca tivesse sido.

em 2014 eu tirei um peso dos ombros e desamarrei as mãos, soltei as âncoras. e como foi bom estar livre, sentir o vento batendo no rosto e saber que dali pra frente, era comigo e só. não tinha mais muleta nenhuma para me apoiar o braço. e olha, eu andei tão melhor sem as muletas que me perguntei porque foi que eu demorei tanto a querer andar com os meus próprios pés.

olhar-me nos olhos, pelo lado de dentro e dizer em voz alta: é por aqui que eu vou. é aqui que se encontra aquilo em que eu acredito. e eu acredito. e o que a gente acredita, a gente não vende, nem troca, nem passa recibo. vida não é matéria da gente barganhar.

em 2014 teve muita paixão. teve luta. teve bandeira erguida por cima dos ombros, teve bloco na rua, palavra de ordem, coração latejando de esperança, teve grito de vitória por entre as lágrimas e o exagero de querer e acreditar e ter fé.

em 2014 teve amor, muito amor. e delicadeza também. e silêncio de olhar o outro, de acarinhar os cabelos, teve cafuné e cançãozinha de ninar com a voz embargada, daquele querer bem que transborda do peito e toma conta de tudo.

2014 me sacolejou, sacudiu pelos ombros e me colocou diante do espelho como quem diz: ‘entrega e confia, tu é grande’. e eu juntei a coragem que encontrei pelos meus cantos, fingi aquela que eu ainda não tinha, e fui ser grande. gente grande, de alma grande, de grandes sonhos, de desejo infinito e vontade teimosa e caminho comprido diante dos pés. e eu ainda estou caminhando. e cantando.

2014 me trouxe aqui assim: com nome próprio.

viver, amar, valeu.

2015: que seja doce.

na volta que o mundo dá

dia9guarameaipeecastanheiras-22“não é saudade, porque para mim a vida é dinâmica e nunca lamento o que se perdeu – mas é sem dúvida uma sensação muito clara de que a vida escorre talvez rápida demais e, a cada momento, tudo se perde.” *

e porque eu ando sentindo isso com fisgadas diárias que me entortam as ideias e me botam na boca um gosto amargo de qualquer coisa mal mastigada, que vai ficando esquecida por entre os dentes. e porque o tempo que passa, não simplesmente passa, em calmaria – ele dói. lateja. roça. embrulha e desembrulha. feito caldo de onda forte vinda de repente, no susto. que embola a gente pelo meio das águas barrentas, faz ralar os joelhos, faz engolir água salgada, faz virar do avesso. é isso: eu ando meio virada do avesso. de um jeito tão intenso, que tudo o que me roça na pele me faz embrulhar o estômago, e cada som por delicado que seja me dói nos ouvidos – como se eu precisasse de uma solidão absoluta e silenciosa, esvaziada de qualquer presença humana que me seja alheia, para deglutir a passagem das horas, dos dias, dos meses, dos anos. tenho me sentido atropelada. aturdida. confusa. há uma parte em mim que sonha futuros e deseja muito, quer o que há de novo, quer dar passos à frente, quer desbravar. mas há outra. que chora em silêncio, soluçando baixinho, amedrontada. que se agarra ao que já se foi, em desespero. que quer olhar para trás, apegar-se ao que já não é mas um dia foi, e foi bonito, e foi bom. estou agora assim: no meio do caminho. não sei se vou ou se fico, não sei se fico ou se vou. e enquanto eu me encolho pedindo paciência e calma, mais amor por favor, a vida continua aos trancos. empurrando-me aos barrancos. em demasia, como sempre foi. eu tapo os ouvidos, os olhos e a boca. recuso-me. enquanto eu puder, eu vou me demorar. às vezes é preciso. às vezes, eu preciso.

* caio fernando abreu

o meu louco querer

dia10aquamaniaP-65

Talvez você não saiba, talvez até ande duvidando. Os tempos andam difíceis, e talvez você tenha perdido as suas certezas, talvez esteja cansado e tateando no escuro em busca de uma resposta qualquer, alguma coisa a que se agarrar afinal de contas, um abrigo silencioso, um descanso, um canto onde se possa recostar, suspirar, adormecer. Talvez você esteja a ponto de desistir, talvez. Mas eu ainda te gosto um bocado, um tanto que me ocupa um espaço por dentro que onde quer que eu me vire, para onde quer que eu mire, eu ainda encontro você. E isso de alguma forma me acalma, me acalenta. É um fiapinho de esperança que na verdade nem é tão ‘inho’ assim. É feito um novelo de lã bem bagunçado, e de vez em quando eu me perco da ponta e fico à procura com os dedos apressados, atropelando-se uns aos outros na ânsia de reencontrar aquele lugar onde tudo começou: onde as coisas eram simples, lisinhas, boas. Onde as respostas encaixavam-se bem direitinho às perguntas, onde havia uma ordem, onde a gente sabia os porquês. Eu às vezes penso que encontrei, fico feliz e abro um sorriso daqueles, aí vejo que não: era mais uma porta. E lá dentro, tinha uma outra pergunta. E um outro emaranhado, pra gente desfazer. Será sorte ou revés?

foto: Renata Penna

a queda, a dança

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tinha uma pedra no meio do caminho, mas também tinha uma chance de ir além – além da pedra, além da dor. havia ali um presente, uma dádiva. carecia atenção e cuidado para ver, mas havia. era a possibilidade do salto, da queda transmutada em passo de dança. o desvio que se faz caminho, e com ele se chega a um lugar onde a tristeza sabe ficar menor, onde é possível um respiro bem fundo a encher o peito de ar e alimentar o corpo pelo lado de dentro, preparando o terreno para uma delicadeza que há de vir. a vida vai abrindo portas. ou janelas. ou pequenas frestas por onde se pode ver a luz e antecipar alguma beleza, alguma poesia. alguma coisa, percebo, sempre se abre. tudo é caminho. há que se lidar com o que se perde, com o que se vai, e embora em algum momento haja o desespero pelo que não se sabe e pela dor que invade quando dizemos adeus, há que se ter as mãos vazias para que haja espaço onde acomodar o que de bonito ainda virá. há que se chorar o luto aos soluços, sem se negar ao latejamento que o padecimento traz, sem economizar-se de alma, doando o que se tem. porque depois do luto, há de vir a vida. depois da noite, há de vir o dia. depois do escuro, do breu, do abismo vazio que amedronta e faz sentir pequenino feito grão de milho, vem alguma coisa de grande, iluminada e bonita. chama-se esperança. e nasce nos cantinhos mais escondidos, onde não se esperava que nascesse coisa nenhuma. e cresce viçosa, teimosa, petulante. e se a gente permite, se sabe acolher e dar de si quanto ela pede, ela fica bonita, formosa, faceira. puxa pela mão e leva para dançar, celebrando a manhã que acabou de nascer. porque sabe, ela sempre nasce. às vezes demora, que até cansa esperar, fatiga de um jeito que quase se desiste. mas se a gente persiste e faz por onde sobreviver e não perder a fé, ela nasce. e a gente também – de novo, de novo.

foto: Renata Penna

vocativo

horaciosabinomais-20

no entanto te peço, sim, que não te demores. que caminhe depressa, que não se distraia com os detalhes curiosos do trajeto, que não se perca nos desvios ao longo da estrada. tome atalhos, se possível. corte caminho, faça o percurso mais apressado. estou angustiada, e não posso esperar. tenho passado aos sobressaltos os meus dias, torço as mãos de maneira aflita enquanto você não chega e vou muitas vezes à janela, olho para os dois lados com alguma esperança a me fazer cócegas na alma que é sempre vã, porque você tarda e ao redor ainda há somente vazios. então, por misericórdia, apresse-se. estou em um ponto em que tudo é urgente, meus silêncios já me consumiram inteiramente e por isso agora engulo em seco algumas vezes por minuto, o que me traz uma sensação muito desagradável e um desconforto que quase me leva a desistir. é solidão, mas não só. se fosse, apenas, seria mais fácil, pois a ela já me acostumei e gosto, sei conviver até com muita alegria, mas o que há agora é outra coisa. uma agonia cadenciada, um desespero apenas latente e por isso ainda mais apavorante. sinto frio, apesar do sol que insiste em brilhar todas as manhãs, como se zombasse da geleira que carrego no peito. fico arrepiada e alerta, estico meus braços ao redor do corpo em busca de alívio, mas não funciona. é preciso outro. é preciso que alguém chegue, diga as palavras corretas, resgate-me daquilo que já não posso suportar, daquilo que me arranha as ideias e revira os sentimentos, daquilo que dói e lateja. é preciso que eu possa somar, acrescer, redesenhar para então dividir. venha, portanto, se for agora. não outro dia, não amanhã, não. eu aceito a pressa, todo o resto será tarde demais.

foto: Renata Penna

do emaranhado

bzgeribatartarugajfernandesP-189

era a angústia primordial do labirinto. as respostas fugidias, ariscas, impossíveis. o olhar perdido, em busca, aflito, exausto. para todos os lados, e ainda assim, desencontrando. o lamento miúdo, quebradiço, agoniado, sem a esperança que já se foi. os pés calejados, doloridos, à beira da desistência. o bater de cabeça infinito e o repetido tormento de acreditar outra vez que sim, por fim, que agora se encontra a saída e se põe um ponto final à comédia de erros e quando se vê, era apenas mais um engano para somar-se a todos os outros, passados, presentes, futuros. e o que foi, afinal? quando aconteceu? como se deu o desenrolar da tragédia – seria cômico se não fosse comigo, quem sabe -, ela nem sabe dizer. não saberia contar a história, detalhar o encadeamento dos fatos, pois para si foi como acordar de repente de um sonho bom e descobrir-se expulsa do paraíso. qual teria sido o pecado, o erro, o crime? alguma palavra dita, talvez. algum gesto desastrado, alguma escolha mal feita, algum passo em falso. alguma intenção megalomaníaca de tornar maior e melhor o que já era bom, o que já merecia ser chamado de felicidade. ou o engano original, no princípio de tudo: a ingenuidade de acreditar em algo apenas bom, bonito, limpo, significativo por si. a pureza irresponsável de permitir-se imaginar que seria isso, o suficiente. algo a encerrar-se em si mesmo e recomeçar, continuamente. a inocência exagerada de abrir-se sem reservas ao que não trazia qualquer garantia. a a boa fé pueril, o olhar bondoso de criança que não desconfia, ao contrário: entrega o que tem. talvez fosse isso, lá no início, talvez tivesse sido esse o deslize: doar-se, sem possibilidade de tomar de volta o que era dado, sem rota de fuga para o momento do desengano, sem um coração de reserva para substituir aquele que se despedaçasse, como quiçá aconteça sempre. talvez fosse isso, o imperdoável. o inaceitável. o impossível de corrigir. talvez fosse, talvez. e se, então, para onde ir? ah, se ao menos esta resposta, ao menos esta, por misericórdia, estivesse ao alcance da mão.