nós que aqui estamos,

porque parece tudo tão estúpido, sabe. quanto mais eu penso, mais eu chego à mesma conclusão: somos ridículos, insignificantes, poeira cósmica em um infinito de espaço e tempo que jamais alcançaremos compreender por inteiro, e todas as coisas que nos parecem tão grandiosas e importantes e definitivas não passam de irrelevância. mas e aí, entende? o que é que muda? porque deveria mudar alguma coisa. essa consciência aguda da nossa insignificância diante do imenso do universo deveria fazer alguma diferença, mudar a nossa maneira de compreender o mundo, de lidar com a vida, sei lá. mas no fim fica tudo do mesmo jeito. e dói igual. sufoca na mesma intensidade, e o aperto no peito continua insuportável. e então. para onde vamos? a mesma solidão de merda, o mesmo vazio debaixo dos pés. o abismo. a falta. os nãos todos com que a vida nos presenteia, rindo-se da nossa incapacidade de dar a volta, simplesmente. seguir por ali e não por aqui. cara, como estou cansada. é tudo muito, sabe? e de repente, aquela vontade. um desejo infantil de viver as coisas sem me importar tanto, sem que tudo signifique. por que diabos tudo tem que significar alguma coisa? por que é que a gente não pode descartar as experiências feito papel de bala, feito semente da fruta, feito espinha do peixe. por que é que tudo tem que continuar doendo tanto e tão agudo, mesmo depois que acabou? e por que é que tudo demora tanto pra acabar? bem, não tudo, é verdade. mas algumas coisas. as mais doloridas. estendem-se infinito, agarrando-se às nossas entranhas, sem querer ir embora. adiam o adeus, e a gente ali. sangrando. chorando. caminhando. sei lá. essa lua, essa noite fria. esse silêncio, a rua vazia. as saudades de tudo. ah, o tempo em que eu era aquela que já não sou mais, ou talvez eu nunca tenha sido. poeira cósmica. que coisa ridícula.

keep walking

fazendaipanema-108há uma tristeza bruta me mastigando por dentro, ela dói, mas não é dor aguda, é dor crônica e insistente, daquela dor que permanece e incomoda o tempo todo sem no entanto incapacitar para a vida de todos os dias, o que ainda não sei se é vantagem ou desvantagem, porque eu não queria, entende, eu não queria acordar todos os dias e lavar os cabelos e calçar os sapatos e engolir um pão dormido aos bocados e sair à rua e cumprir prazos, e chegar no horário, e saciar expectativas que não são minhas, e dar respostas que não sei, e fingir certezas que não tenho, eu não queria acordar todos os dias e viver a vida como se nada tivesse acontecido, porque não, não é verdade, aconteceu algo, aconteceu uma coisa importante, porque há uma tristeza me consumindo por dentro, porque me dóem os ossos, porque me dói o estômago, a cabeça, porque o meu único desejo é enfiar-me bem debaixo dos cobertores com as janelas fechadas e ali, no escuro mais escuro do meu quarto, deixar que se passem as horas, os dias, as semanas, talvez eu envelheça ali, deitada sob as cobertas, de olhos fechados, só com os meus pensamentos, e as minhas querências não atendidas, e as minhas necessidades não satisfeitas, e as minhas queixas não ouvidas, e as minhas feridas não cicatrizadas, e as minhas carências não acolhidas, e as minhas lágrimas não derramadas, eu e tudo aquilo que poderia ter sido e não foi, tudo aquilo de que não dei conta ou de que não deram conta pra mim, eu e tudo aquilo que eu queria ter sido e não deu, tudo aquilo que pensei que seria e não chegou a acontecer, tudo aquilo que sonhei e virou pó na calada da noite, tudo aquilo que tentei construir e se desfez quando pisquei os olhos, eu e toda a minha solidão de estar abraçada a cada uma das minhas impossibilidades, eu e tudo aquilo que me pertence e não posso dividir com ninguém porque a existência humana é ridícula e indizivelmente solitária, apenas eu no escuro do meu quarto à meia noite à meia luz, apenas. mas não. a vida continua, lá fora. debaixo do sol. ela me puxa pelo colarinho, e eu não tenho saída a não ser isso mesmo: continuar.

foto: renata penna

duas três dez cem mil lágrimas

centrao_p-65pois certas coisas, certos arranjos, repare, parecem mesmo impossíveis. e a gente permanece, insiste, persiste, dá murro na ponta da faca até quase perder os dedos, e ainda assim. inalcançável. há aquilo que tem força porque precisa acontecer, e do mesmo modo, de outro lado, há tudo aquilo que não se presta aos nossos desejos e manobras, por fortes e sinceros e bem intencionados que sejam. tentamos a muito custo transpor os muros, as barreiras, os obstáculos, mas chegamos do outro lado e há apenas vazio. e dor. e lamento. então choramos, encolhidos num canto, vítimas de um abandono atroz: abandonaram-nos a sorte, a possibilidade, o fiapo de esperança. o que fazer então? com sinceridade digo que ainda não sei, e estou agora a entregar-me à dor, simplesmente. a chorar as perdas, a engolir o luto. mastigar os nãos por entre os dentes. apertar o desamparo por entre os dedos, até sentir que me latejam os ossos. e repito-me cadenciadamente, em uma cantilena um pouco monótona mas muito necessária, que amanhã será um novo dia. não estou muito convencida, mas ainda assim digo a mim mesma uma vez emendada na outra, acreditando que de tanto repetir, quem sabe tornarei a remota possibilidade uma verdade irrevogável. poderei então juntar meus cacos, respirar bem fundo, olhar para frente. recomeçar. espero que sim, embora não tenha certeza. mas a verdade, perceba, é esta: não me resta mais do que esperar. de olhos rasos. feito criança em véspera de natal. esperar. quem sabe. talvez eu mereça o milagre.

em caso de dor ponha gelo

BH-25em prantos, agoniada, agarrada à minha angústia, eu me repito freneticamente a pergunta, em espiral: por quê? por que há de ser assim, tudo tão duro, tudo tão trabalhoso, tudo tirado tão a fórceps dos bolsos da vida? se ao menos eu pudesse respirar. tirar o véu dos olhos, ver com clareza, ver o céu límpido e claro sem fazer perguntas. essa leveza que enxergam em mim, se ao menos eu pudesse tê-la nas mãos, senti-la como coisa efetivamente minha, provar seu gosto, feito bicho sedento que se aproxima do riacho e se farta, contente, com a água tão pura e fresca como ele jamais teria ousado imaginar. estou tão cansada. carrego isso tudo comigo há tempo demais, toda esta bagagem desnecessária – e sim, eu a entendo desnecessária, eu a digo desnecessária, eu a grito desnecessária todos os dias aos quatro cantos e ainda assim, cá está ela, agarrada às minhas mãos, amarrada aos meus passos, fazendo-me doer os ossos e as têmporas. tanto cansaço. às vezes a vida se assemelha desesperadamente a um labirinto, a uma casa de espelhos ou a uma estrutura qualquer da qual não se saia com facilidade, ao contrário, bata-se a cabeça infinitas vezes enquanto se procura em vão a saída, que no mais das vezes estava bem ao lado, ao alcance de alguns poucos passos. estou tão cansada. tantos desvios, tantas voltas que me levam ao mesmo lugar, de onde tenho que começar tudo de novo. sinto-me às vezes tão pequena. um grão de milho, encostado ao canto. esqueceram-se de mim, foram adiante na estrada levantando poeira, e eu me esqueci também de mim, em algum ponto do caminho. talvez seja o avançado da hora. talvez seja o escuro da noite, esse breu impiedoso que não perdoa as dores varridas covardemente para baixo do tapete. talvez seja apenas aquilo que eu sou. talvez amanhã seja, de verdade, um novo dia. é. talvez. quem sabe.

paúra

finHC-46‘ele, o medo. vem me comendo pelas beiradas, feito prato de sopa que a gente espera esfriar. acontece quando eu fico distraída, assoviando, perdida nas minhas urgências e nos meus delírios e não olho para o chão, aí não vejo a pedra. quando percebo, já estou com a cara no asfalto, tudo o que há ao redor está se rindo de mim e ele, sem apiedar-se da minha pequena tragédia, já tomou conta: o medo. esfria-me por dentro. corrói-me os ossos. enruga-me a alma. mareja-me os olhos. embota-me as vontades, os desejos, as iniciativas, os pensamentos. fica tudo apequenadinho, encovardado, encolhido no canto, afunilado. fica tudo impossível, já não alcanço mais nada. meu tamanho já não permite que eu seja coisa alguma, de tudo aquilo o que planejava ser. de repente é tudo tão rarefeito que mal posso respirar, o ar me falta, desafia-me a força dos músculos e a força da alma (esta talvez mais do que aquela) e por mais que me esforçe e inspire com todo esforço concentrado de que me reconheço capaz, não consigo encher os pulmões. então me largo e abandono, entrego-me. rendo-me. os braços ao longo do corpo, o olhar perdido, o coração calejado. as coisas andam difíceis. é bem verdade que não sou iniciante ou inexperiente, aprendi a ter um pouco de medo ao longo dos dias e com ele, somente, já não me importo tanto. o que me assusta e entristece é a covardia. ela, que nem sempre vem junto, mas quando vem é sorrateira e sem avisar, não bate à porta nem limpa os pés no carpete da entrada, apenas invade. difícil não deixar entrar. quando eu percebo, apoderou-se de tudo aquilo que eu sou. amarra-me as mãos uma na outra, fica a meio do caminho e me impede caminhar. o que eu faço nesta hora, é o que ainda estou a dedicar-me a saber. por ora, eu a estou apertando entre os dedos e ela me fere como se tivesse espinhos. e tem.’ *

( * dez/2014)

aqui dentro do lado de fora

grimmagresteP-20do que eu aprendi: que às vezes é necessário, sim, fechar algumas portas. sem trancar à chave, mas sem dar ao acaso qualquer possibilidade de abri-las. segurando com um calço, para que não se balancem ao sabor do vento. é preciso que se escolha, que se saiba. é que carece da gente ser capaz de conhecer a valia das coisas, saber dos compensamentos por carregá-las ao longo da vida, pesando nos ombros. a vida não traz somente os abismos bonitos e cheios de mistério pra gente mergulhar. na vida também tem muito buraco. e buraco é isso: vazio e só, sem possibilidade. não diz coisa alguma, em seu silêncio oco, sem eco. nos abismos a gente pula e não pára de escorregar por cantos desconhecidos, tateando belezas novas que antes não adivinhava. mas nos buracos, nesses a gente só esfola os joelhos e os cotovelos, sem ter nada em troca. nem beleza, nem poesia, nem possibilidade, nem nada. só o escuro rarefeito, esvaziado de tudo que seja bonito. e lá dentro, a gente choraminga comprido, de uma solidão demasiada. não daquela que alimenta, mas daquele outro tipo: a que esvazia. aquela que mata o que havia de esperança, de delicadeza. no buraco não cresce coisa nenhuma, não floresce o que vale a pena: só multiplica o que é daninho, o que deixa a gente carcomido por dentro, enrugado feito fruta seca esquecida no sol a pino por dias a fio. eu ando muito decidida sobre isso: não quero mais. já experimentei buracos suficientes para saber que eles não me servem, e que neles eu não cresço. então, se vier um buraco se fazendo de abismo, eu desconfio e percebo, e digo logo: estou de portas fechadas.

paralisia

ccbbteatro2P-12porque a gente inventa, veja você que ironia, tantas maneiras de fugir, de dar voltas, de escapar aos sinais que a vida nos dá e fazer de conta que não, que não é bem isso, que não se está vendo, que não percebeu. por mais que em algum lugar bem escondido a gente saiba muito bem da precisança, do imperativo da alma suplicando pela mudança que a vida avisa que está pra chegar, rondando, esperando no dobrar da esquina, no primeiro descuido. mas a gente mente, sabe. descaradamente. assoviando e revirando os olhos. tamborilando os dedos no tampo da mesa. a gente mente fazendo de conta que está tudo bem, que dá pra deixar pra depois, que é possível adiar mais um pouco, aguardar, esperar, tardar, mais adiante quem sabe, num ponto mais avançado no tempo, talvez numa outra vida. e não era isso, no fundo a gente sabe, era aqui, era agora. era a hora. era já. era sem demora. era o instante exato, preciso, mas a gente mente. sussurra uma desculpa inventada, e torce pra mentira vingar. torce pra gente mesmo cair na armadilha, acreditar no engano e botar a cabeça no travesseiro por mais uma noite, duas, por mais uma vida inteira. ainda que a gente não caiba mais no que está, ainda que a gente anseie em silêncio e de mãos amarradas por uma coisa diferente, nem sempre é possível vencer o medo – essa é a verdade comezinha e ridícula que a gente tem que engolir. nem sempre é possível driblar as próprias angústias, aquelas mais encruadas. nem sempre a gente consegue dar um nó na própria covardia. às vezes, ela sobrevive. fazendo troça da coragem que a gente queria ter, mas não veio. a coragem de olhar o susto com as pálpebras bem sustentadas, de encarar o abismo, de permitir a vida desconhecida, aquela apenas possível.

bem que se quis

ccbbteatro2P-14e de repente me dei conta disto, não sem susto: que eu ia te devorando assim aos bocados, como quem mastiga uma fruta suculenta cujo néctar lhe escorre pelos dedos, pelos punhos e ao longo dos braços. eu te mastigava todos os dias, desde quando acordávamos de manhã e eu estendia as mãos para tocar o teu corpo ainda sonolento, quente, convidativo. e era como se eu arrancasse um pedaço de ti para ir então me alimentando dele aos poucos ao longo do dia, para recuperar-me da tua não presença quando você me dava as costas e ia ao mundo, às coisas somente tuas, a tudo aquilo que em ti me excluía, a toda a tua existência da qual eu transbordava, num derramamento inútil de leite que foi para além da borda da xícara e então se espalha na mesa, desperdiçado. eu tinha de ti uma fome, uma fome muito urgente, uma fome que me ameaçava a sobrevivência. era como se quisesse te aprisionar comigo, devorar-te de fato, em um gesto desesperado de antropofagia, eu te queria comigo além das separações, além dos apartamentos, além dos adeuses. porque eles me doíam, sempre. ficavam doendo por horas, às vezes por dias, quando você se demorava demasiado – e você sempre se demorava demasiado. a consciência desta realidade risível entre nós atingiu-me de modo fulminante, como um raio sobre a árvore em dia de tempestade, e então tive a súbita certeza de que já não podia suportar, que estava além das minhas forças, que não era mesmo justo. era preciso abandonar aquele círculo vicioso, de alguma forma. foi quando cortei o mal pela raiz: cortei os pulsos, de uma vez só. como se fosse possível, e correto, e lógico, que junto com o meu sangue você se esvaísse, mas apenas eu mesma me escapei de mim. você permaneceu. você permanece.

mas a vida é real e de viés

dia13azedinhae14rasaP-81

eu não sou essa, entenda. de certo modo me custa dizê-lo em voz alta e engolir essa verdade que me deixa fiapo nos dentes e repousa atravessada na garganta, mas de qualquer forma isto não é algo que se possa fazer de conta, já sei disso, não duvido mais, apenas aceito. por isso digo, e preciso que você me escute: eu não sou essa pessoa que você espera ver, quando me olha. ela é uma, e eu sou outra. em algumas coisas até nos parecemos, temos pontos em comum e falamos em uníssono uma vez ou outra, quase tão harmônicas quanto um coro bem ensaiado, mas isso é pouco, raramente acontece e não perdura, porque no mais das vezes somos muito diversas, opostas até, irreconciliáveis. talvez seja esta a origem primeira deste desencontro que nos tem visitado dolorosamente mais vezes do que gostaríamos: você espera que eu diga e seja e faça aquilo que ela diz e é e faz. mas, perceba: nisso não lhe posso atender, sob pena de desfazer-me em algo que não sou eu e que nada diz a meu respeito. porque nada disso corresponde à verdade – a minha verdade. e não posso fazer de conta, não posso alimentar este engano, porque não sei mentir. bem, se eu o desejasse de fato quiçá o conseguisse por algumas horas, por um dia, por um mês, por um ano, talvez até por uma vida inteira. não ignoro que há quem o faça, sei até que não são poucos. mas confesso-te agora, em um rasgo de sinceridade suicida: não quero. e por não querer é que a magia não acontece (e concluo que felizmente ela não acontece, e penso que nisto você há de concordar comigo ainda que não o faça de imediato, mas se tiver paciência e olhar com cuidado isto que te digo). por isso nos resta, a mim e a você, apenas a verdade. estamos ambos condenados a ela. sentemos-nos os três, pois. façamo-lo sem demora e tão corajosamente quanto possível, para nós dois. é o que te peço, desejando que seja capaz de fazê-lo: olha-me e vê. despe-te das fantasias e enxerga-me pelo que sou, porque é o único que tenho para dar. e caso lhe seja possível amar esta que tem por ora diante dos olhos, esta que não mente e não finge, esta que não lhe diz nada além do que há em si para ser dito, esta que lhe entrega corajosa e humildemente cada detalhe seu, cada cicatriz presenteada pelos entreveros com a vida, cada limitação nascida consigo ou adquirida em curso, cada impossibilidade lamentável ou não, cada delicadeza construída a duras penas ou milagrosamente descoberta sem esforço, caso descubra que há em si amor por essa criatura nua que se revela a seus olhos sem qualquer máscara e sem esconder-se por trás de nenhuma meia verdade, em um gesto derradeiro e inocente de confiança, então dá-me sua mão. e segue comigo sem saber para onde, porque eu também não sei.

foto: Renata Penna

do emaranhado

bzgeribatartarugajfernandesP-189

era a angústia primordial do labirinto. as respostas fugidias, ariscas, impossíveis. o olhar perdido, em busca, aflito, exausto. para todos os lados, e ainda assim, desencontrando. o lamento miúdo, quebradiço, agoniado, sem a esperança que já se foi. os pés calejados, doloridos, à beira da desistência. o bater de cabeça infinito e o repetido tormento de acreditar outra vez que sim, por fim, que agora se encontra a saída e se põe um ponto final à comédia de erros e quando se vê, era apenas mais um engano para somar-se a todos os outros, passados, presentes, futuros. e o que foi, afinal? quando aconteceu? como se deu o desenrolar da tragédia – seria cômico se não fosse comigo, quem sabe -, ela nem sabe dizer. não saberia contar a história, detalhar o encadeamento dos fatos, pois para si foi como acordar de repente de um sonho bom e descobrir-se expulsa do paraíso. qual teria sido o pecado, o erro, o crime? alguma palavra dita, talvez. algum gesto desastrado, alguma escolha mal feita, algum passo em falso. alguma intenção megalomaníaca de tornar maior e melhor o que já era bom, o que já merecia ser chamado de felicidade. ou o engano original, no princípio de tudo: a ingenuidade de acreditar em algo apenas bom, bonito, limpo, significativo por si. a pureza irresponsável de permitir-se imaginar que seria isso, o suficiente. algo a encerrar-se em si mesmo e recomeçar, continuamente. a inocência exagerada de abrir-se sem reservas ao que não trazia qualquer garantia. a a boa fé pueril, o olhar bondoso de criança que não desconfia, ao contrário: entrega o que tem. talvez fosse isso, lá no início, talvez tivesse sido esse o deslize: doar-se, sem possibilidade de tomar de volta o que era dado, sem rota de fuga para o momento do desengano, sem um coração de reserva para substituir aquele que se despedaçasse, como quiçá aconteça sempre. talvez fosse isso, o imperdoável. o inaceitável. o impossível de corrigir. talvez fosse, talvez. e se, então, para onde ir? ah, se ao menos esta resposta, ao menos esta, por misericórdia, estivesse ao alcance da mão.