das certezas que eu nunca tive

maeefilhasmaio15e vocês que vieram a mim cabendo no vão dos meus braços para depois crescer todos os dias diante dos olhos e fazendo-me o coração saltar pela boca de susto, e vocês que fincaram seus pés no mundo desde o primeiro suspiro com tamanha força e tanta delicadeza, e a certeza de querer existir de mãos dadas com tudo aquilo que e inteiro. e vocês, que vieram cantarolando daquilo tudo que eu sabia sem botar reparo. daquilo tudo que era bonito saber assim, desse jeito: apenas sentindo e desligando a razão. desconsiderando a lógica. era, e é tanto. esteve sempre aqui, mas de algum modo eu desconhecia, olhava para o lado e não via, revirava os olhos, negligenciava, não por não dar importância mas apenas por estar distraída, desapercebida ainda das importâncias daquilo tudo que me havia por dentro e era grande, e tão bonito, e tão poesia. aquilo tudo que vocês me trouxeram pelas mãos, por entre os dedos pequenos e sujos de terra, de flor, de vida. aquilo tudo que eu aprendi a encontrar por entre os sorrisos, no meio dos cachinhos amarfanhados, nas bochechas avermelhadas, no olhar encantado de todas as coisas simples e belas e contraditórias do mundo que vocês compreendem talvez melhor do que eu, porque não buscam fazê-lo – apenas acolhem. eis a sabedoria que eu procuro colher dos nossos momentos, esta: do acolhimento. do achar bonito por si só, sem pretender qualquer mudança, porque o que tem de ser é, está, tem força. essa boniteza da existência sem exigir, permitindo ser como é, tendo olhos de ver e o coração desprendido, generoso, presente. e enquanto a vida passa por nós todos os dias sem faltar um, às vezes com muita pressa e outras vezes um pouco mais apaziguada, eu olho e vejo. tudo o que há para ver. em mim, em vocês. no que a gente vive junto, criando raiz umas nas outras de pequenas-grandes coisas que hão de ficar para sempre.

abençoadamente.

 

9 anos, uma vida

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hoje, vocês completam 9 anos de vida.

hoje, já são quase três da manhã do dia de vocês, e eu não consigo dormir. a cabeça se agita, os pensamentos saem batendo as asas, o coração palpita embriagado de emoção. há exatos nove anos, nessa mesma hora da madrugada, eu despertava para não voltar a dormir até que tivesse vocês duas nos braços – eram as primeiras contrações do trabalho de parto, que vinham definitivas, decididas a lançar-me na mais estimulante montanha russa que já experimentei. ainda hoje, sinto que não saí dela – se me distraio, assusto-me com as curvas bruscas, com as descidas vertiginosas. que bom que as montanhas russas sempre foram meus brinquedos favoritos.

vocês, minhas meninas, são duas. tão diferentes, tão iguais, tão misturadas, tão uma e outra. quando chegaram, fizeram-me uma: fiquei mais una, mais presente. não porque antes eu fosse qualquer coisa menos do que uma pessoa inteira, mas porque – e essa é uma boniteza que vocês um dia hão de descobrir, talvez – quando parimos um filho, damos à luz mais do que uma pessoinha nova: parir é também parir-se. é revolução.

de lá pra cá, tem sido nove anos de ser e estar junto. nove anos de mãos dadas, de muito abraço e enrosco para sarar as dores e compartir as alegrias, nove anos de peito colo beijo e pele, muita pele. nove anos de choro dividido, às vezes com estridência e outras vezes de modo silencioso, aos soluços. nove anos de tentativas, de desencontros, de descobertas, de perguntas e respostas que vão parindo novas perguntas. nove anos de um afina-desafina que pode não ser o mais harmonioso de todos, mas é tão nosso, e diz tanto do que sou e do que são vocês e do que somos juntas, e há tanto nele de mim e de vocês, que ser parte disso me emociona todos os dias. não são vocês que fazem de mim uma pessoa feliz – essa é uma responsabilidade que me cabe, solitariamente -, mas sou sem dúvida mais feliz porque vocês estão aqui. do meu lado de fora, do meu lado de dentro.

a você, ana luz, minha menina-princesa-do-vestido-cor-de-rosa, minha pequena-quase-mocinha tão doce, tão atenta para as entranhas do mundo, a você que com tamanha delicadeza me abre os olhos para os mistérios todos que eu tinha esquecido de apontar, e de como eram bonitos, a você que me abraça tanto como se me quisesse conhecer por dentro e me diz as coisas baixinho, com a voz aveludada de tanta ternura. a você, estrela, minha menina-moleca-maluca que me embaça os olhos e bagunça os cabelos, quando me puxa pelas mãos para dentro do teu mundo que é tão teu e onde tudo é tão interessante, a você que me derruba no chão para rir das cócegas que a vida faz quando acolhe a gente com os seus braços longos e misteriosos, a você que faz da vida um jogo de amarelinha, que remexe com as coisas como um jogo de armar, que a gente monta com esforço e divertimento para desmontar em seguida, e logo começar tudo de novo. a vocês duas, eu devo a vida como ela é hoje: bonita, e bonita, e bonita.

diziam pra mim que ter gêmeas era experimentar amor em dobro. não é. o amor é infinito, é multiplicado, é elevado a uma potência que não se calcula – ele escapa pelos poros, e vai colorindo tudo o que há sem pedir licença. não precisa.

eu sou mãe há nove anos. vocês são filhas há nove anos. e a maravilha não dá pra contar nos dedos.

parabéns, minhas duas meninas.

 

mistura

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Fundem-se os corpos. Desconheço os limites – desconhecemos. Estamos sendo, nem eu nem ti mais uma terceira coisa, misteriosa e doce. Já não percebo com precisão onde eu começo e você termina, ou onde você começa e termino eu. Tampouco me importo: não é coisa essencial a ser sabida, porque antes de saber, sinto, e de alguma maneira que não carece de ser explicada sou feliz, porque tateio algo precioso, bonito. Somos alguma coisa misturada, uma miscelânea de gostos, de cheiros, de sensações. Sinto a dor que te afoga o peito, e mais forte ainda a alegria que te ilumina os cantos dos olhos, desenhando nas tuas bochechas rosadas aquele sorriso que é das coisas mais bonitas que já tive a sorte de ver. Somos juntas, caminhamos trançando as pernas. Tua vida é um pouco minha, te empresto meus olhos para que aprendas a ver o mundo, pego a tua curiosidade entre os dedos e a enfio na boca de uma vez e quando percebo estou criança de novo, gostando um pouco mais de todas as coisas que existem. Nossos quereres se bagunçam, e quando você chora meus olhos marejam. Quero estar em ti para acalmar a tristeza, quero plantar em ti uma felicidade que perdure e não te abandone, para que em ti eu também seja sempre feliz. Com alguma surpresa, descubro-me satisfeita com esta dissolução daquilo que sou naquilo que és, e por incrível que pareça não há medo, não há desespero, não há dor, não há coisa alguma. Há um mundo inteiro, apenas, que existe entre o que sou, e o que és. Há o que pulsa, o que palpita, em um e em outro coração, e naquilo que nasce da mistura dos dois. Há o que o tempo não leva. Somos eu e tu, uma coisa só e ainda assim, duas. É infinito. Eu e tu, e tu, e eu, e o indizível que nos espreita, à espera de algo que não precisamos saber. Eu, e tu. Mais do que mar: oceano. *

(*escrito em dezembro de 2010, para a filha que dava os primeiros passos)

foto: Renata Penna