a busca

ipanema-30“não me perder de mim, não me perder em mim”

aqui dentro está escuro, mas lá fora há luz. muita. bonita. convidativa. mas eu fico. permaneço, repouso. escolho ficar. não por medo, não por covardia, ao contrário – por coragem. por valentia de enfrentar-me uma vez mais com os meus abismos mais profundos, com tudo aquilo que me esforço para manter por sob as frestas, os tapetes, os buracos. não há nisso sofrimento: é aqui que desejo estar. neste silêncio, neste breu. aqui, onde os olhos mal enxergam mas posso ver-me com a nitidez dos olhos da alma. não necessito clareza, quero apenas sentir. há tão poucas horas na vida como esta, tão preciosa: o minuto mesmo em que algo de tão profundo em nós se deixa tocar pela ponta dos dedos, dá-se a conhecer, entrelaça-se com os nossos sentires mais assentados e passa então a fazer algum sentido, ainda que não se explique. porque a palavra às vezes não chega para alcançar o que existe em nós sem organização, apenas sendo. hoje, eu não abro a porta. permito-me ficar do lado de dentro, sem acender a luz. porque meus olhos estão cansados, e porque o que desejo abarcar com a vista e o coração e abocanhar de uma vez só é grande demais e nesta escuridão eu percebo coisas que antes não via. porque aqui descanso, repouso, reflito. compreendo coisas minhas que antes ignorava. converso comigo mesma em voz baixa, em um tom acolhedor, porque sei que mereço. ser acolhida. ser compreendida. ser respeitada. aqui, neste escuro em mim e que de mim diz tanta coisa, é que eu quero permanecer. não para sempre. não sem esticar os olhos por vezes até a janela por cujo vão enxergo o som e a fúria que sobrevivem lá fora, apenas para me certificar de que continuam ali. à minha espera. pacientemente. em ebulição, como sempre. sei que sim, e respiro aliviada porque sei que é questão de tempo: hei de desejar novamente. um dia. sim. apenas não hoje.

* foto: Renata Penna

sem fantasia

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uma coisa ou outra coisa, e como é difícil às vezes saber o que se deseja, verdadeiramente e além da superfície. sentir-se capaz de apontar o dedo de maneira resoluta, os olhos fixos a mirar uma direção precisa e dizer em alto e bom som: “sim, é isto, vou por aqui”. e se não for? e se depois, vier a arrepender-se? e se descobrir no final das contas que era a outra coisa e não esta, que era aquilo e não isto, que era assado e não assim, que era acolá e não cá, que era o outro lado da mesma moeda? ufa, que trabalho que dá. examinar-nos atentamente em uma tentativa sempre estabanada de adquirir consciência. compreender-se: uma empreitada para a vida inteira e ainda assim, falta. e as vozes externas, tagarelando infinito enquanto tentamos acomodar as ideias num canto, em fila indiana, para que possamos examinar uma a uma com diligência, sem perder os detalhes, sem deixar passar as nuances mais delicadas, as reentrâncias. concluo: é preciso fazer calar. silenciar o que há do lado de fora, silenciar o que não nos pertence, silenciar o que é alheio e deste remanso fazer nascer uma sabedoria desconhecida, da quietude sorver algo que nos pertença de fato, algo que nos defina.  há em nós tamanha mistura e tanto ruído externo, desde que começamos a nos entender por gente. aceitamo-no, cotidianamente. mas quando se está diante da encruzilhada, quando a vida nos obriga à escolha de maneira irrecusável, é preciso despir-nos. o retorno. regressar ao que nos era primordial: a essência, aquilo que um dia foi semente. mirar-se no espelho: onde me reconheço? perguntar-se assim, sem rodeios, assombra. mas é urgente aceitar a pergunta. deglutir, mastigar. para que das entranhas, nasça a resposta. que não será fácil. será simples, talvez, o que é muito diferente.

vocativo

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no entanto te peço, sim, que não te demores. que caminhe depressa, que não se distraia com os detalhes curiosos do trajeto, que não se perca nos desvios ao longo da estrada. tome atalhos, se possível. corte caminho, faça o percurso mais apressado. estou angustiada, e não posso esperar. tenho passado aos sobressaltos os meus dias, torço as mãos de maneira aflita enquanto você não chega e vou muitas vezes à janela, olho para os dois lados com alguma esperança a me fazer cócegas na alma que é sempre vã, porque você tarda e ao redor ainda há somente vazios. então, por misericórdia, apresse-se. estou em um ponto em que tudo é urgente, meus silêncios já me consumiram inteiramente e por isso agora engulo em seco algumas vezes por minuto, o que me traz uma sensação muito desagradável e um desconforto que quase me leva a desistir. é solidão, mas não só. se fosse, apenas, seria mais fácil, pois a ela já me acostumei e gosto, sei conviver até com muita alegria, mas o que há agora é outra coisa. uma agonia cadenciada, um desespero apenas latente e por isso ainda mais apavorante. sinto frio, apesar do sol que insiste em brilhar todas as manhãs, como se zombasse da geleira que carrego no peito. fico arrepiada e alerta, estico meus braços ao redor do corpo em busca de alívio, mas não funciona. é preciso outro. é preciso que alguém chegue, diga as palavras corretas, resgate-me daquilo que já não posso suportar, daquilo que me arranha as ideias e revira os sentimentos, daquilo que dói e lateja. é preciso que eu possa somar, acrescer, redesenhar para então dividir. venha, portanto, se for agora. não outro dia, não amanhã, não. eu aceito a pressa, todo o resto será tarde demais.

foto: Renata Penna

um dia eu volto, quem sabe

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mas há esse dia, essa hora, esse instante, esse recorte de tempo em que  a gente cansa, e eu cansei. cansei de fato, cansei inteira e fervorosamente e com cada pedaço meu que ainda respira e suspira e transborda este cansaço que por ora me define e passa a quase ser quem eu sou. olho pela janela, vejo os carros no farol e os passantes apressados, vejo as folhas das árvores dançando ao sabor do vento, vejo o cachorro vira-lata andando em círculos ao redor do poste da esquina, respiro a poluição desta cidade que me viu nascer e tudo o que posso pensar é isso: quero ir embora. sem saber de onde e sem saber para onde, mas há algo aqui que é preciso abandonar. então decido que preciso de uma despedida, de um adeus com ou sem lágrimas, de um abraço apertado, de um bilhete ou um recado qualquer, algo que encerre esta parte da vida como quem encerra um capítulo de livro, escolhendo as palavras corretas e precisas de modo que se prenda o suficiente o leitor para que não abandone a história antes que termine. porque as coisas terminam, têm fim, têm encerramento, e é preciso prestar atenção. não se termina algo importante, simplesmente. encerra-se, com certa solenidade. fechando as pesadas cortinas de veludo, apagando a luz. de qualquer maneira, é preciso fazer algo mais do que simplesmente virar as costas e seguir. disto careço: da despedida. para que então eu possa abrir o vão entre os dedos e desprender-me das coisas que já não são para mim o que um dia foram, já não carregam consigo a alegria como um dia foi. resta-me angariar forças sem saber onde posso buscá-las, porque as minhas sinto mesmo que já se esgotaram e isso me assusta. sim, devo dizer: além de cansada, estou também um tanto assustada. pela inevitabilidade das coisas, e pela forma avassaladora como se apresentam, e como tomam conta de tudo o que há em mim. fico vítima de um certo torpor, uma sensação paralisante de dúvida, um amargor na garganta que se assemelha à angústia do paraquedista no instante exato antes do pulo, quando percebe que já está lá em cima e tudo está preparado e portanto não há mais volta, e não há outro meio de seguir com a vida que não seja pulando, aceitando o risco, aceitando a morte possível, a perda, o nada. ali estou eu, prendendo a respiração. e isso não pode durar muito.

dream on

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“faz-se necessário avançar. mas tudo impede o avanço. e dói.” *

e agora josé, o sonho acabou. pois é. bora juntar os cacos, recolher a sujeira, ajeitar a bagunça da melhor maneira possível tanto quanto se possa, e a partir daí. caminhar. dar o passo, e ir. adiante. tem um caminho longo, sabe. tem muita coisa possível, muita vida querendo acontecer. então é isso, tem que ter coragem de enterrar o defunto. sem carpideira, sem cerimônia, sem marcha fúnebre. é jogar a terra por cima, talvez alguma flor colorida, e então dizer adeus, sem economizar na letra nem no sentimento. e há de doer, e dói. é luto, é despedida. e anda doendo, mas é aí que entra a coragem. e o desprendimento, e o desapego. é aceitar a dor sem dar de ombros, sem ignorar mas com as mãos abertas, deixando escorrer, que seja aos poucos mas de maneira definitiva. e depois, o suspiro. quando acaba, quando termina, quando morre finalmente para não mais. o suspiro. e a determinação de mirar a estrada adiante, ver o que há de bom. é tanto. e a esperança. ah, a esperança, sempre ela. de uma outra coisa, de começar de novo. de ser mais certo. de dar no lugar certo, se é que alguma vez a gente dá em algum lugar ao invés de somente continuar – não era para isso a vida? eu continuo. vou continuando. aqui do meu canto, sem querer desistir. sem querer esmorecer. sem querer desesperar, nem deixar de acreditar. porque eu preciso, entende. não foi agora, mas há de ser. alguma vez. num outro tempo, quem sabe. de um outro jeito. uma coisa nova, que o novo é sempre tão bom e tão bonito. tão fresco. assim há de ser, oxalá.

* do Caio Fernando Abreu / foto: Renata Penna

em palavra

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e por isso, preciso colocar para fora de mim. dizer, alardear. ainda que eu não tenha à mão a palavra exata que eu nem ao menos sei qual é. ainda que não faça sentido aos olhos de quem vê de fora – e tantas vezes tampouco faz a quem vê de dentro. é preciso dizer. moldar com a ponta dos dedos o sentimento, por incompreendido que seja. fazer do verbo a vida e da vida o verbo, numa constante. espiral de entrega, dor, prazer, experiência, tudo junto. é preciso dizer. sem saber, que às vezes – tantas vezes – a gente não sabe. e não saber, isso eu aprendi, pode ser bom. pode ser lindo. perder-se também é caminho, já dizia clarice, amada clarice. então eu me perco, mas não me calo – eu digo. de olhos rasos, eu digo. digo entre soluços, de voz embargada e quase sem conseguir, e desafino, mas digo. e enquanto digo me ouço, que é para entender um tantinho mais do que antes. é assim, de grão em grão, e essa fome que nunca se mata.

foto: Renata Penna

sem desespero sem tédio sem fim

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e não é que eu não gostasse de você, eu apenas não gostava da pessoa que eu era quando estava com você. porque a nossa mistura não deu em algo muito bom. porque você despertou em mim coisas adormecidas que eu preferiria esquecer – e eu imagino que daí, desse lugar onde você está, não tenha sido muito diferente. a verdade é que nós dois simplesmente não fizemos bem um pro outro, e quando acontece assim é melhor admitir de uma vez, encarar de frente, acertar as contas e seguir adiante, cada um no seu caminho. eu sei que o seu vai ser bonito, porque você tem merecimento. você é uma pessoa boa, tem um bom coração. tem muito a dar e dividir com alguém mais certo, mais afinado. e eu, bem. aqui do meu lado, eu acho que tenho o meu merecimento também. de acertar da próxima vez. de olhar em outros olhos, sentir algo bom e ver uma coisa bonita começando, nascendo, principiando. eu vou atrás disso, porque eu quero muito. e preciso também. *

* escrito em outubro de 1998