toda sorte de presente

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e há as vontades. deus, como elas me afogam o peito. vontade disso e daquilo, vontade de um lado e de outro, vontade das coisas contraditórias acontecendo concomitantemente, vontade de tudo e de nada, vontade de engolir o mundo de uma só mordida e sem mastigar, vontade de hipérbole e de redundância, vontade de tudo o que sobra e é em demasia, vontade assim mesmo, somente: von-ta-de, com ênfase em cada sílaba deglutida no estalo da língua no céu da boca, um saboreio com barulho e sem vergonha, assim de peito aberto e cara lavada. eu tenho muita vontade, e ao abrir os olhos pela manhã nascem-me algumas mais, todos os dias sem faltar um, e isso às vezes me cansa um bocado, fico exasperada e empapuçada de tanto rebolado me agitando o coração. nessas horas preciso parar e encontrar um canto silencioso onde eu não deseje, apenas isso: onde eu não queira nem almeje coisa alguma, e meu desejo possa apenas repousar. ressonando baixo, feito criança dormindo no colo da mãe. aquela alegria, aquela paz. a paz do amor serenado, do que apenas é sem querer ser. mas veja você como sou toda contraditória e teimosa: essa paz, eu a desejo, com ardor, com paixão e com loucura. sim, eu sou incorrigível.

foto: retrato pelos olhos da filha caçula

a vida é assim mesmo eu quero mesmo é isso aqui

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‘o medo mora perto das ideias loucas’*, e é pra lá que eu vou. olhar o meu medo com bons olhos, com olhos de ver e de não fugir. vou saborear o meu medo, mastigá-lo entre os dentes, vou sentir-lhe o gosto, saber de que é feito, qual é sua matéria. eu vou pegá-lo por entre os dedos, segurando com cuidado para que não se derrube, para que não se espatife, para que não se faça em pedaços antes que dele eu possa me apropriar. eu vou ficar frente a frente com o meu medo, vou dar-lhe a mão e convidar para que caminhe comigo, para que ajustemos o passo. já que ele existe, e a esta realidade não se pode dar voltas, então eu o aceito. tomo-o como a um amigo querido, alguém que eu acolho com os melhores sentimentos, com os gestos mais carinhosos e as palavras mais doces, para que confie em mim, para que queira abrir-se comigo, entregar-se, render-se. eu não quero vencê-lo – quero apenas que ele tampouco me vença.que ao contrário, ele me ajude. me faça querer ir adiante, ver o que ainda não vi. que me faça saber da coragem que carrego por dentro, aquela de que às vezes me esqueço, vezes sem conta. quero estar afinada e acima de tudo, capaz de caminhar. e de querer, como quis sempre tanto. é meu verbo este, quizá seja sempre: eu quero.

* trecho de ‘Coisas que Eu Sei’, de Danni Carlos / foto: Renata Penna

para o ano bom

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“assim eu quereria meu último poema
que fosse terno dizendo as coisas mais simples e menos intencionais
que fosse ardente como um soluço sem lágrimas
que tivesse a beleza das flores quase sem perfume
a pureza da chama em que se consomem os diamantes mais límpidos
a paixão dos suicidas que se matam sem explicação.” *

é o que eu desejo de 2014, esse ilustre desconhecido. pode vir quente, que eu já estou fervendo.

(* Manuel Bandeira)

a bruta flor

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é que às vezes, especialmente em horas determinadas no dia e em dadas circunstâncias, eu te preciso muito. como quem sente uma fome tão exagerada que chega a fazer doer o estômago e turvar a vista, como quem se vê acometido de uma fraqueza súbita, assim eu te preciso, fisicamente. é uma necessidade real, palpável. eu quase posso pegá-la nas mãos e acariciá-la como se fosse um bicho de estimação. ela, a vontade. a vontade de te sentir o cheiro, o gosto. a vontade de te ouvir a voz sussurrada. a vontade de estar perto, junto, com. a vontade que já não se conforma com pouco e já não se alimenta somente de palavra, a vontade que já não quer a distância e a separação, a vontade que quer desafiar o tempo e o espaço. ela anda rebelde, essa minha vontade. anda querendo subverter a ordem das coisas, perder-se das regras, mandar às favas a prudência, o juízo e os bons costumes. como boa anarquista que é – afinal é minha e a fruta não cai mesmo longe do pé – ela quer e quer do jeito que for mas quer, quer sem explicar coisa alguma, quer sem precisar de justificativa nem de permissão. quer, e quer, e ponto. e eu também quero. temos querido juntas, apertando as mãos uma da outra, aninhadas na mesma urgência ofegante, transbordadora. por ora, penso que só ela me compreende e eu a ela, e por isso estamos juntas, uma bem misturada à outra sem saber onde se começa e onde se termina. queremos. eu quero. e você?

foto: Renata Penna

quantas vidas você tem?

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e não é que de vez em quando a gente tem que fazer uma coisa assim sem razão, uma maluquice qualquer, algo que só se justifica porque se quer muito e não tem nenhum outro motivo para acontecer? é, é sim. é exercício. de tempos em tempos há que se abrir os braços para o inteiro da vida que apenas se intui e não se sabe dizer o que é, nem se pode dizer com nenhuma certeza se será de rir ou se será de chorar, mas que lindo é a gente se libertar. de tempos em tempos precisa a gente fazer aquilo de que tem medo mas tem mais ainda vontade e curiosidade, precisa a gente experimentar uma coisa nova que não dê qualquer garantia, precisa a gente se arriscar e por a vida em movimento estendendo a mão e atiçando os perigos ao redor. que não faça sentido, que não seja o momento ideal e que não seja a coisa mais sensata a se fazer, nada disso tem importância. precisa apenas a gente querer e se dar o direito: eu me permito, eu vou. porque a vida é curta e só se vive uma vez, porque a gente só sabe das coisas que experimenta, porque é tentando e sentindo o gosto de cada coisa que a gente cresce e aprende e muda e reinventa o que carecia ser reinventado. e porque às vezes é simples, muito simples, e só o que a gente precisa é ter entre os dedos alguma coisa que seja apenas bonita, sem precisão. pra gente ver saltar do rosto um sorriso de cara lavada, mostrando os dentes, exibindo a alegria mais pura. isso é muito.

foto: Renata Penna

permiso

reileao

deixa eu te amar desse jeito que eu posso, eu te peço: deixa. permite que eu fique, que eu permaneça. deixa que eu dê o melhor que eu consigo, deixa que eu esteja do jeito que me é possível por ora, por hoje. deixa-me ser o que eu posso. eu sei que não parece muito e talvez não seja o que você esperava, talvez não seja suficiente, talvez falte porque todos faltamos vez ou outra. e talvez eu não te dê aquilo de que você precisa, mas ainda assim. repousa a tua cabeça no meu colo, aceita meu silêncio. olha-me, apenas isso: olha-me. e me alcança. aceita isso que eu sou, que não é perfeito mas é inteiro, e sincero. aceita o que eu tenho para dar, deixa que eu seja assim de verdade. eu poderia fazer de outro jeito, é bem verdade, mas seria vazio, porque não eu. então seria falseio, seria uma coisa desbotada, sem graça e sem gosto e não te faria feliz, eu sei. porque eu te conheço por dentro e conheço esse teu amor, e você ama em mim o que é inteiro, o que pulsa, e o que pulsa em mim é este desejo por tudo o que há dentro e fora de mim, e dentro e fora de nós.

foto: Renata Penna

(re)torno

maoanaluzeu quero de volta uma simplicidade que eu tive e sei que me define, uma coisa de olhar encantado para a vida sem cobrar o que seja. tudo andou bem complicado de uns tempos pra cá e no fim eu fui ficando embotada, demais para dentro. não é necessariamente ruim mas eu para mim gosto de ter esse equilíbrio que é importante: para dentro e para fora. ficar imersa naquilo que me pertence somente e não carece que outro venha compreender e depois abrir os olhos, e os braços. doar. eu sou tão feita para isso. é para mim alimento, traz força, traz alegria. eu quero isso de volta e estou procurando, estou fazendo mesmo um esforço todo comprometido, de alma e de corpo, e eu sinto que estou conseguindo alguma coisa bem aos poucos, talvez com demasiada vagarosidade para a minha pressa mas é o tempo preciso e então eu procuro aceitar. e fico sorrindo, tento sorrir o mais que posso. e respirar bem fundo. são coisas que ajudam, o coração fica mais apaziguado e as querências também. eu estou voltando, não é às pressas e não tem correria nem tem atropelo mas é isso, eu estou voltando. e nem precisa de mais água pro feijão, o que tiver para mim basta porque eu já venho satisfeita. eu tô voltando de mim. eu tô voltando pra mim.