ata-me

grimmagresteP-40
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e sobrevive em mim a pergunta, sussurrada ao pé do ouvido em voz rouca sem que eu saiba ao certo dita por quem: depois de nós, eu seria o que? quando as coisas serenassem e secassem as lágrimas e estivéssemos apartados, cada um com a sua vida e as suas dores enfiadas no bolso, e então eu abrisse os olhos de manhã e o sol invadisse o quarto e o despertador me chamasse a começar o dia, eu seria o que? quando a nossa primeira pessoa do plural se desfizesse em duas partes absolutamente separadas uma da outra, um mundo cortado ao meio e feito em dois pedaços, o que restaria em mim de definitivo? que palavras sobreviveriam à despedida, que coisas eu acharia bonitas, que alegrias me arrancariam um sorriso escancarado, eu choraria por quê, quais seriam os medos a me visitar muito tarde da noite, no escuro do quarto vazio onde eu dormiria só? quase sinto nascida no peito a vontade marota de descobri-lo, em um ímpeto investigativo que me mete medo ao mesmo tempo que me faz cócegas nas ideias, com marotice. é a vida brincando comigo, puxando sorrateira o tapete acomodado sob os meus pés, querendo zombar das certezas que nunca o foram de fato, porque a única certeza que a vida permite é o incerto em si, o transitório, a impermanência. sorrio para ela, como criança que desconhece os perigos e por isso arrisca aquilo que não sabe ainda que pode perder, nem quanto dói perdê-lo. ela me pisca, de canto de olho. muito convidativa. sedutora. perigosa. sinto um arrepio percorrer-me a espinha de cima a baixo, até espalhar-se pelos meus cabelos, agarrado às minhas ideias mais inconsequentes. depois de nós, haveria o quê? depois de nós, seria quem? a pedrinha atirada no lago de águas antes paradas e cristalinas, a pedrinha atirada em desafio, a desenhar círculos concêntricos de indisciplina, por pura rebeldia. a pedrinha atirada no lago. o lago. tudo isso que também sou eu.

trampolim

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quem foi que disse que não se pode ter tudo? por que é que a gente aceita de cabeça baixa esta verdade tacanha e pobrinha: de que é preciso escolher. de que é preciso separar com a ponta dos dedos, de que é preciso deixar ir ainda que seja importante, ainda que possa ser bonito. como se amar grande e sem divisória, sem carecer de etiqueta, fosse coisa feia, coisa que fere, que ofende. como se amar inteiro de coração aberto fosse algo para se ter vergonha, para encolher num canto e guardar no armário, no escuro, no limbo. como se amar fosse coisa para se fazer com economia, discrição, em silêncio, por trás da porta. não é. amar é a capacidade mais bonita que o coração da gente tem. é dádiva. é privilégio. e quanto mais a gente ama, mais lindo fica. amar inteiro de braços abertos, sem qualquer traço de medo, devia ser motivo de orgulho. coisa para se espalhar por aí, ufanando. um coração destemido e intrépido que ama sem grudar etiqueta, sem dividir em escaninho e sem fechar portas, é coisa pra gente ficar feliz de ter. ah, esse mundo é besta, tão besta. tão errado. nele a gente aprende a envergonhar e enrubescer pelo que devia ser erguido bem alto pra mostrar pro mundo, porque é conquista. nele a gente aprende a apertar bem os dedos das mãos e cerrar os dentes num esforço bestial de guardar só pra si o que devia ganhar mundo, devia ser pássaro solto no vento, devia ser vôo, devia ser pipa perdida do fio das mãos do menino dançando bonito bem lá no alto, em rebeldia. amar bonito é assim, não dá pra segurar entre os dedos. amar bonito transborda, exagera, transcende. é. assim faz sentido, assim é doce e suave e ao mesmo tempo furacão. amar é desse jeito, ao menos pra mim. e penso que se pode aprender. quem quiser, se quiser. e se não, bem. é continuar aceitando o cabresto, é deixar o coração embotar amando pequeno, amando dentro da caixa, amando esse amor quadrado que carece de nome e compromisso. esse amor rasteirinho que não pode voar. que é feito pássaro preso na gaiola incapaz de cantar porque já não sabe, porque já não pode, porque lá do lado de fora da grade é que ficou o que era bom: o gosto, o gozo e a alegria. quanto a mim, eu tenho asas de boa envergadura e é no meio do vôo que o meu canto fica mais bonito, o amor é o meu trampolim.

quantas vidas você tem?

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e não é que de vez em quando a gente tem que fazer uma coisa assim sem razão, uma maluquice qualquer, algo que só se justifica porque se quer muito e não tem nenhum outro motivo para acontecer? é, é sim. é exercício. de tempos em tempos há que se abrir os braços para o inteiro da vida que apenas se intui e não se sabe dizer o que é, nem se pode dizer com nenhuma certeza se será de rir ou se será de chorar, mas que lindo é a gente se libertar. de tempos em tempos precisa a gente fazer aquilo de que tem medo mas tem mais ainda vontade e curiosidade, precisa a gente experimentar uma coisa nova que não dê qualquer garantia, precisa a gente se arriscar e por a vida em movimento estendendo a mão e atiçando os perigos ao redor. que não faça sentido, que não seja o momento ideal e que não seja a coisa mais sensata a se fazer, nada disso tem importância. precisa apenas a gente querer e se dar o direito: eu me permito, eu vou. porque a vida é curta e só se vive uma vez, porque a gente só sabe das coisas que experimenta, porque é tentando e sentindo o gosto de cada coisa que a gente cresce e aprende e muda e reinventa o que carecia ser reinventado. e porque às vezes é simples, muito simples, e só o que a gente precisa é ter entre os dedos alguma coisa que seja apenas bonita, sem precisão. pra gente ver saltar do rosto um sorriso de cara lavada, mostrando os dentes, exibindo a alegria mais pura. isso é muito.

foto: Renata Penna