trata-se de livro inacabado porque lhe falta resposta, *

reli agora aquela frase do poeta que dizia ‘do lugar onde estou já fui embora’ ** e pensei comigo, muito embaralhadamente e sem conseguir organizar as ideias de modo adequado que sim, que de algum modo já dei as costas a este lugar tão conhecido, que de alguma maneira já estou dedicada a outras coisas, a outras paisagens, a novas possibilidades, e no entanto há algo em mim que permanece, que não se desprende, um apego que não sei identificar a contento, que não aceita palavra e não admite rodeios, apenas existe e me segura pelo colarinho quando acredito que estou livre, e ato contínuo culpei-me pela incapacidade de seguir adiante de fato, liberta de todas as amarras, olhando apenas para a frente, contemplando o horizonte que me seduz ao longe, creia-me, não há por ora algo que deseje mais do que isto, chegar lá a passos largos, contentes e extasiados, minha alma pede por isso, meu coração anseia, aos pulos, quase sangrando, mas há algo em mim, uma coisa qualquer talvez muito pequena mas nem por isso menos importante, que ainda tem o que fazer aqui, que ainda precisa compreender alguns detalhes, limpar alguns cantos onde ficou poeira daquilo que foi, recolher uns pequenos cacos que insistiram em esconder-se por debaixo dos tapetes, então eu fico, de alguma maneira eu permaneço e me dedico ao menos em parte a terminar o que ainda me exige, a construir tão cuidadosamente quanto possível estes pontos finais, ou pontos e vírgulas, já que adiante continuarei escrevendo, acontecendo, existindo, ao menos é essa a minha esperança, de que lá para a frente, lá onde a vista quer tanto alcançar, eu continue, eu me espalhe novamente, e dance com os braços abertos e as saias rodando ao vento, sorrindo de novo, sobretudo isso, por favor, sobretudo isso: sorrindo de novo.

trecho de ‘A hora da Estrela’, de Clarice Lispector / ** frase de Manoel de Barros

rio e também posso chorar,

ela se achava miúda diante dos outros, diante das coisas, diante da vida e dos sentimentos que eram todos grandes demais, arrebatavam feito onda em mar bravio, derrubando o que havia pela frente, então ela se achava pequena, ela tinha medo e respirava ofegante encolhida no canto, e fechava os olhos apertando com força e repetia para si mesma a oração aprendida com a avó há muito tempo, ensinada para pedir por aquilo que era muito importante e não podia mesmo faltar, e o coração ficava muito acelerado, batia feroz dentro do peito e parecia que ia escapulir pela boca, e ela se sentia assustada, com os pelos do braço arrepiados feito quando a gente sente a presença de alguém que não está ali e nem poderia, ela se sentia frágil, queria colar adesivos do seu lado de fora alertando para quem passasse desavisado que ali havia alguma coisa delicada, algo que ao menor descuido ou manejo desastrado se espatifaria em pedacinhos e não se poderia colar depois, ela sentia vontade de gritar, de gritar bem alto para o mundo todo que não, que não queria mais, que era para parar com aquilo tudo de uma vez, que a brincadeira não tinha mais graça, que ela queria encontrar a saída do labirinto de uma vez por todas, que queria respirar aliviada, enfim ver a luz do lado de fora, ela queria abrir bem os braços e respirar bem fundo como quem alcança a liberdade depois de uma vida inteira de cativeiro, ela queria pisar descalça no chão e nunca mais ter que vestir sapatos, ela queria que o vento lhe bagunçasse os cabelos e lhe soprasse no ouvido um assovio cúmplice, brincalhão, um convite à alegria, um gracejo qualquer. ela queria um espelho, ela precisava olhar e ver. ela queria ser grande por fora, a olhos vistos, do tamanho que ela sabia que era por dentro. ela se achava miúda, grão de milho, poeira carregada no vento, só ela não sabia que de tão grande ela era se via de longe, lá onde ela achava que a vista nem alcançava mas sim, ela podia ver, só faltava ela ver que via.

foto: Renata Penna

depois do salto

rezicaSABESP2-1“Ela diz adeus a tudo o que é familiar e seguro. Não cruza a porta para encontrar outra pessoa a quem se dedicar e que tome conta dela; sai de casa mais insegura do que jamais imaginou que poderia encontrar-se. Mas espera descobrir quem é, e por que é.

Existe nisso uma grande liberdade: o conhecimento que é preciso deixar para trás minha vida atual. Não sei para que. Por mim mesma. Para me tornar algo mais do que sou agora.” *

copiei esse trecho há pouco mais de um ano, e deixei-o colado em um pequeno pedaço de papel ao lado da minha cama. ele dizia muito de quem eu era então, e de tudo aquilo que eu experimentava em um momento de grandes decisões, mudanças e (r)evoluções.

Liv Ullmann, atriz norueguesa muito conhecida pelas – incríveis – atuações nos filmes de Bergmann, fala de Nora, personagem da peça Casa de Bonecas, de Henrik Ibsen. casada, dona de casa e mulher-mãe ‘de família’ impecável (consideremos a época em que a peça foi escrita), Nora decide deixar toda a segurança de uma vida aparentemente perfeita e que funciona dentro dos moldes aceitos e valorizados pela sociedade para trás, em nome da descoberta de quem ela é, diante do vazio, diante do mundo e diante de si.

eu nunca fui uma mulher-mãe de família impecável (ainda bem). nunca me vi sufocada pela vida que escolhi ter, com companheiro, filhas, casa, rotina (que nunca foi muita, mas). ainda assim, há um ano e meio percebi que havia algo ali que era preciso abandonar. sem medo, ou colocando o medo no bolso e caminhando, aceitando o abismo, a possibilidade da queda e da dor.

e eu fui. abri a porta, e fui. para tornar-me algo mais do que eu era então. para acolher de fato, e solitariamente, a pessoa que me esperava do lado de fora, querendo finalmente passar a existir em mim inteiramente. livremente. corajosamente.

um ano e meio depois, que alegria eu sinto ao olhar para trás e perceber quanta coisa descobri, ao olhar-me sem máscaras e atirar-me ao que viria sem redes de segurança, sem garantias, sem proteção. quanto aprendi sobre mim, sobre o meu lugar no mundo, sobre a minha relação com o outro. quanta vida a vida me trouxe. quanto amadurecimento se fez possível, apenas pela simples (simples?) decisão de colocar os pés um diante do outro e caminhar.

se hoje há em mim alguma certeza (e olha, não há muitas), é a certeza de que daqui pra frente eu posso fazer o que quiser – de mãos dadas ou solitariamente, em silêncio ou no meio do maior auê. de que a voz que fala baixinho comigo do meu lado de dentro não silencia mais, aconteça o que acontecer. de que onde quer que eu esteja, estarei porque quero – não porque preciso, ou porque me disseram que era assim que deveria ser, ou porque tenho muito medo de olhar para fora e descobrir o que mais existe.

verdade
liberdade
felicidade

quer eu fique, quer eu vá,
será sempre em nome disso aí.

(*Liv Ullmann, in: ‘Mutações’)

longa jornada noite adentro *

rezicacasamodernista-5o problema, pensava ela, era que nada era tão simples assim. as coisas iam e vinha, ajeitavam-se ordenadamente para no instante seguinte voltarem a acumular-se umas por cima das outras, desordenadamente. nisso matutava, enquanto sacudia os pés ao som da música que tocava ao longe, e de cuja letra ela nunca tinha gostado, mas agora sim. estava mudada. por dentro, e também por fora. ao olhar-se no espelho, de tempos para cá, via em si uma pessoa recém-chegada, transformada, toda cheia de novidades. esta pessoa nova causava-lhe susto, mas também um deleite que não podia disfarçar. e nem queria, pois (re)conhecer-se era bom, era bonito. todavia, no largo espaço fora de si, a mudança causava muita estranheza, especialmente em quem até ali havia estado acostumado a olhar sempre a mesma pessoa. ‘essa pessoa morreu, não existe mais’, pensava ela, toda vez que se sentia alvo de olhares inquisidores, que lhe queriam pegar pelo braço e roçar-lhe os cantos da alma, como a requerer a presença de alguém que ela já não era e – disso tinha certeza – não voltaria mais a ser. e quando desta maneira se impunha, colocando toda a novidade de si para existir e ser vista, percebia nas pessoas uma espécie de luto, seguida de uma indisfarçável revolta, como criança que não quer abrir mão de um brinquedo do qual gostava muito, por mais puído, quebrado ou danificado ele esteja, e ainda que já não possa lhe servir para muita coisa a não ser fazer experimentar aquele conforto desbotado das coisas já bem conhecidas. queriam-lhe de volta como um dia fora, isso era o que ela compreendia daqueles olhares atravessados de insatisfação mal disfarçada. mas embora houvesse neste desencontro alguma dor pontiaguda, ela dava de ombros. e repetia para si mesma que a vida não caminha para trás. passarinho não voa de ré. e que se as coisas não eram tão simples assim, tampouco lhe seriam indecifráveis. aos poucos, peça por peça, ela terminaria por montar todas as peças do quebra-cabeça de si mesma. decifro-me ou me devoro, ou ambas as coisas. ‘a alegria é a prova dos nove’, sempre. disso, ela sabia sem duvidar.

* título de peça de Eugene O’Neil

se correr o bicho pega

centrao_P-37uma vez, há muitos anos, em uma tarde qualquer tão deslocada de mim na linha do tempo que parece ter quase acontecido em uma outra vida, pediu-me a minha terapeuta que fizesse uma lista. ela gostava disso: listas. pedia-me que fizesse muitas, com os mais variados propósitos. e eu, que para lançar-me a escrever o que quer que fosse que me desafogasse as angústias que sempre se me empoleiravam por dentro não custava muito, cumpria a missão, obediente e aplicada. mas bem, voltemos à lista: esta, especificamente, intitulava-se “eu tenho medo”. deveriam reunir-se ali todas as minhas paúras, das mais risíveis e comezinhas às mais complexas e paralisantes. verborrágica e pouco sucinta que sempre fui, fiz uma lista de duas páginas de caderno, frente e verso. tais eram os medos que me roçavam as entranhas – muitos, inúmeros, quase incontáveis. dia destes, encontrei perdida entre uns papéis, a tal lista. não a reproduzo aqui porque não faria sentido, já que não sou mais aquela de então e meus medos hoje são outros e muitos dos que estão ali, eu mal compreendo. minha primeira reação foi de estranhamento, como se eu de alguma maneira enxergasse naquelas linhas uma pessoa que nunca fui – embora sim, tenha sido, e ela ainda me habite em algum lugar escondido que visito em algumas horas especialmente obscuras. mas logo em seguida, senti-me um pouco satisfeita. por ter saído deste lugar, e não ter hoje mais tanto medo de todas as coisas, sobretudo por não ter mais tanto medo da vida. entretanto, perceba: eu digo tanto, e neste ‘tanto’ reside a grande charada: sim, ele ainda está aqui. mais tímido do que já esteve, mas ainda me habita e vem visitar nas horas mais sorrateiras do dia, quando fico muito distraída. ele se coloca no meu caminho, sem cerimônia, sem tato. enrosca-se por entre os meus pés como um animal rastejante e traiçoeiro e, quando percebo, já dei com a cara no chão. o medo do medo do medo do medo do medo. crescendo em mim, por dentro, como uma trepadeira que se lança a ocupar todos os espaços, até que lhe cortem as raízes. sim, eu caminhei um bocado. fui muito além de onde já estive, mas ainda assim é uma luta de quase todos os dias: atracamo-nos sem pudor algum, disputando as batalhas uma a uma. às vezes ganho eu, às vezes ele me vence – e quando isso acontece, o que me resta é chorar baixinho, encolhida num canto, lambendo as feridas até que virem novas cicatrizes que vêm somar-se às antigas, cada uma com a sua história, e então finalmente começar de novo. tomada por uma teimosia que não sei bem onde é que me nasce – se no coração ou na boca do estômago -, eu me levanto e começo tudo mais uma vez. a luta. a disputa. eu, e o medo que uma dia desses eu findo de vez. ou não. talvez, em um dia sem pretensões e esvaziado de promessas, possamos finalmente nos dar as mãos, carinhosamente, como velhos inimigos que, de tanto estranhar-se ao longo dos tempos, esqueceram-se porque é que haveriam de brigar. talvez esse seja o dia mais bonito de todos. talvez. eu acho que sim.

a existência

BH-20sabe quando a gente descasca a tinta de uma parede descobrindo as cores que estavam por baixo, e se persiste no esforço consegue, finalmente, deixar aparente o tijolo, a origem, a parede como ela nasceu para o mundo, sua verdade por trás das cores que lhe foram forçadas por cima? eu me sinto por ora neste esforço contínuo e paciente, diário: raspar as camadas (muitas) de tintas que me pintaram por cima ao longo dos anos, no correr dos dias, desde quando não consigo me lembrar. libertar-me de tudo aquilo que me puseram nas costas sem ser meu de fato, sem que me pertencesse de modo profundo, verdadeiro, visceral. livrar-me das roupas que me vestiram sem que me coubessem perfeito, recusar-me às máscaras que quase me pegaram à carne. despir-me de todas as palavras, qualidades, defeitos, possibilidades e limitações que me penduraram ao pescoço, como longos colares de contas que me pesam há anos e cada vez mais, causando-me dores crônicas nas costas, nos ossos, na alma. arranquei-os, num gesto largo e definitivo. arrebentaram-se ao vento e cá estou, de peito descoberto, exposto ao vento, ao sol, à chuva e às lágrimas. e ao amor também, do mais profundo que existe: aquele que nasce de mim, em mim, para mim. aquele que carrega consigo aquilo que eu sou, de fato, sem fazeres de conta. estou nua, diante do espelho. assusto-me, mas a um só tempo sorrio, enquanto se me enchem os olhos. tudo ao mesmo tempo agora. esta nudez que me liberta, que me entrega a mim mesma. e se persisto, chegarei ao tijolo. à semente. à essência. àquilo que nasci já sendo, desavisadamente e sem explicação. aquilo que me forma, define e orienta. meu nome próprio. eu. estou muito perto de alcançar meus tijolos – e que bonito é isso.

(ps: escrevi esse texto meses atrás. no último sábado, num encontro incrível sobre maternidade, vida e tudo aquilo que pulsa em nós que tive a (linda) oportunidade de fotografar, participei de uma roda de tarô e tirei a carta da existência. das sintonias. do que é bonito. tudo está bem, quando caminha bem.)

por um segundo mais feliz

reibirapit-1abro a porta e coloco os pés para fora, um de cada vez. ouso encarar o silêncio e a escuridão. ao longe, o horizonte. um breu impenetrável. pouco ou nada se vê, apenas algumas luzes espaçadas, em uma infrutífera tentativa de agregar vida ao emaranhado de montanhas adormecidas. inspiro profundamente, e ato contínuo meu peito se preenche de saudades de algo que não sei o que é, mas não dói. ‘e por falar em saudade, onde anda você’, assalta-me a memória a canção que vem casar-se perfeitamente ao instante que me escorre por entre os dedos vagarosamente, sem nenhuma pressa. onde andará? rio, sozinha, ao me dar conta que mal sei por onde ando eu, entre tantos descaminhos, reviravoltas e entreatos com os quais a vida tem se divertido às minhas custas – como poderia eu saber de você? andamos à vida, certamente, os dois. às voltas com as próprias escuridões, trabalhando arduamente, todos os dias, em carne viva, para levar ali algum pequeno-grande feixe de luz. do meu canto tenho conseguido algum progresso, a pequenos passos, tão obstinada como uma formiga trabalhadeira. desistir, jamais. desesperar – bem, às vezes, temporariamente e sem perder a coragem. sei bem que tens feito o mesmo, conheço de ti o bastante para sabê-lo sem duvidar. permito-me orgulhar-me de nós, de ambos igualmente. temos sido fortes sem negar-nos àquele desamparo tão necessário diante das coisas grandes demais. temos nos dado à vida de olhos bem abertos. temos respirado tão fundo. temos aprendido tanto. temos dado até mesmo aquilo que não acreditávamos ter para dar, e quanto de bonito se revela bem aí. de susto, a alegria. aqui, mergulhada em silêncios. longe de tudo. longe de ti. a alegria de estar, enfim, compreendendo algo que não carece nomear, porque apenas existe, é, acontece, de modo inteiro e definitivo. tocando humildemente, com a ponta dos dedos, uma existência mais consciente, menos equivocada, mais lúcida, sem tantas confusões emocionais advindas da necessidade infantil de projetar no outro aquilo que é meu, e poderia apenas ser meu. ser feliz é responsabilidade minha. está tudo aqui, ao alcance. assim como para si, também. dois mundos inteiros. duas pessoas. um mais um, igual a infinito.

* para ler ouvindo: https://www.youtube.com/watch?v=-LprqBP0JTw

da minha carne triste quase feliz

CIVITA_P-43“é que fui uma adolescente confusa e perplexa que tinha uma pergunta muda e intensa: ‘como é o mundo? e por que esse mundo?’. fui depois aprendendo muita coisa. mas a pergunta da adolescente continuou muda e insistente.” *

porque hoje, eu fui morada da saudade. uma nostalgia a invadir-me de susto, a contaminar-me os pensamentos e todos os sentires acomodados no peito. uma dorzinha fina, aguda e insistente, a latejar-me no lado esquerdo do peito. uma falta. meu deus, quanta falta. e um vazio, paradoxalmente a ocupar-me por inteiro, todos os espaços que tenho por dentro. pensei comigo que há momentos em que não sei direito o que fazer de mim – daquilo que penso, daquilo que sou, do imenso que quero, do abismo que se me coloca diante dos pés, das dores acumuladas nos cantos da alma, do cansaço que me repousa nos ossos, da inenarrável preguiça que me contém os passos, da imensurável querência por tudo aquilo que me falta, da escandalosa alegria diante de tudo o que é bonito. tudo isso se me bagunça por dentro, chega a me fazer faltar o ar por alguns instantes, e sinto uma nostalgia quase infantil por aquele tempo, lá, distante, onde as coisas eram mais simples, onde eu mesma sabia menos sem disso me dar conta, onde entre o preto e o branco havia menos tons de cinza, onde as coisas eram mais explicáveis, compreensíveis, digestas. talvez não fossem, de fato. talvez eu apenas não me importasse tanto, mergulhada nas minhas inocências, nas minhas ingenuidades de menina a correr atrás do vento, todos os dias, um após o outro. hoje, o vento virou furacão. e quase sempre há uma tempestade à espreita, ameaçando com trovões, relâmpagos e uma boa quantia de escuridão. o bonito disto é que, por enquanto, e da melhor maneira possível diante daquilo que tenho para dar, eu tenho sobrevivido. empapuçada das minhas intensidades, embolada nas nas minhas contradições, emaranhada das minhas idiossincrasias. e sempre, sempre, agarrada à esperança do arco-íris depois da chuva. talvez aquela menina ainda corra atrás do vento, todos os dias, um após o outro. por aqui, em algum lugar, que eu visito em silêncio e em segredo de vez em quando. é, talvez.

 * clarice lispector / foto: renata penna

sobre ostras, e pérolas, e a vida acontecendo

fotomamifera.com.br
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o que é feito da gente, senão isso? o que tem de ser, é. a vida acontece à nossa revelia. resta viver. entregar o que se tem, abrir bem os braços, arregalar os olhos e o coração, e arreganhar os dentes chamando: que venha. o que tiver de vir, que venha; o que tiver de ser, que seja; o que tiver de existir, que exista e faça morada em mim se assim estiver escrito – destino, acaso, ou tenha o nome que tiver (não estou para discussões semânticas). sim, há o medo. ele se enfia sorrateiro pelos nossos buracos, arranhando-nos por dentro, fazendo sangrar. mas o bonito da vida, é isso: as coisas não são apenas as coisas em si, elas têm o seu outro lado. e o outro lado do medo, é a possibilidade. a porta, entreaberta. deixando ver uma fresta de algo que apenas se adivinha, que vem fazer cócegas nos cantinhos da alma, puxando pela mão e convidando a entrar na roda. a vida pulsa. é líquida. corre nas veias, não sabe parar. bonito é isso. lindeza de carregar todas as coisas debaixo do braço: dor alegria saudade tristeza gozo paúra desejo coragem e tudo aquilo que a gente não nomeia porque não carece palavrear – sentir basta, sacia. quem abre a boca para engolir a vida aos bocados não escolhe, não pode escolher. não tem barganha, não é jogo de azar. seja o que for, é sorte. é sim, ainda que a gente demore de se aperceber.

o fluxo

Enrico3_FM-296“liberdade? é o meu último refúgio, forcei-me à liberdade e agüento-a não como um dom mas com heroísmo: sou heroicamente livre. e quero o fluxo.” *

caminho adiante, por entre as pedras. sinto correr o fio de água gelada por entre meus dedos, aprecio a sensação suave e definitiva de estar, finalmente, entregue. sem saber a quê, sem querer respostas. a vida corre, a vida jamais estaciona, há que deixar-se correr. fluir-se, como as águas. sem paradeza, tampouco com pressa. o que acontece tem força, e tem seu tempo. caminho adiante e não volto a cabeça para trás, não há coisa morta que valha a pena: o que brilha e tem boniteza está sempre ao redor, existindo, sendo, presente. estico as mãos para alcançar o que me desperta os sentidos, neste bonito instante que é tudo o que há. a vida é um constante chamamento sem saber a quê. e eu, assim é que sou feliz, a meu modo: afogada em mistérios, rodopiando por entre interrogações e pedaços desconhecidos daquilo que também sou eu. tenho poucas respostas e muitas perguntas, tenho em mim uma sede que não se sacia nunca, uma aflição constante, uma necessidade perene de algo maior, algo que não enxergo a não ser com os olhos da alma e entretanto cobiço como se soubesse do que se trata. de algum modo sei, sem carecer de explicar organizando de modo que se possa entender. não se presta ao palavreamento, apenas é. está. existe. sobrevive. em mim.

sou uma criança, não entendo nada, e ser livre é a minha maior travessura.

* Clarice Lispector