diálogo

ei, você.

quem, eu?

é. você.

o que foi?

eu tinha tanta coisa pra te dizer. tinha feito uma lista, sabe. logo eu, que detesto listas.

eu também.

é, eu sei. tinha a ver com isso, o que eu tinha pra te falar.

isso o que?

com o tanto de coisas que eu sei sobre você. com o tanto de coisas que você sente agora e em um dia distante no tempo, tão distante que você acha mesmo que nunca vai existir, eu vou entender e saber do que se trata.

então você é assim, o futuro. seria isso?

mais ou menos. uma possibilidade. um caminho, uma escolha. mas há muitas.

muitas de você?

muitas de você. possíveis.

isso é estranho.

eu que o diga. dependendo de por onde você vá, eu posso nem existir.

então me diz.

o quê?

me diz. pra onde eu devo ir. o que escolher. pra onde olhar. pra chegar aí, onde você está. aí, onde você sabe todas essas coisas que eu nem imagino. eu quero saber essas coisas. eu quero aprender. eu quero crescer.

diz. aponta. me mostra. eu vou, prometo. onde você disser, eu vou.

por favor.

sabe de uma coisa?

o quê?

só vai. segue. confia. você sabe exatamente como chegar até aqui.

será?

sim.

sim.

rio e também posso chorar,

ela se achava miúda diante dos outros, diante das coisas, diante da vida e dos sentimentos que eram todos grandes demais, arrebatavam feito onda em mar bravio, derrubando o que havia pela frente, então ela se achava pequena, ela tinha medo e respirava ofegante encolhida no canto, e fechava os olhos apertando com força e repetia para si mesma a oração aprendida com a avó há muito tempo, ensinada para pedir por aquilo que era muito importante e não podia mesmo faltar, e o coração ficava muito acelerado, batia feroz dentro do peito e parecia que ia escapulir pela boca, e ela se sentia assustada, com os pelos do braço arrepiados feito quando a gente sente a presença de alguém que não está ali e nem poderia, ela se sentia frágil, queria colar adesivos do seu lado de fora alertando para quem passasse desavisado que ali havia alguma coisa delicada, algo que ao menor descuido ou manejo desastrado se espatifaria em pedacinhos e não se poderia colar depois, ela sentia vontade de gritar, de gritar bem alto para o mundo todo que não, que não queria mais, que era para parar com aquilo tudo de uma vez, que a brincadeira não tinha mais graça, que ela queria encontrar a saída do labirinto de uma vez por todas, que queria respirar aliviada, enfim ver a luz do lado de fora, ela queria abrir bem os braços e respirar bem fundo como quem alcança a liberdade depois de uma vida inteira de cativeiro, ela queria pisar descalça no chão e nunca mais ter que vestir sapatos, ela queria que o vento lhe bagunçasse os cabelos e lhe soprasse no ouvido um assovio cúmplice, brincalhão, um convite à alegria, um gracejo qualquer. ela queria um espelho, ela precisava olhar e ver. ela queria ser grande por fora, a olhos vistos, do tamanho que ela sabia que era por dentro. ela se achava miúda, grão de milho, poeira carregada no vento, só ela não sabia que de tão grande ela era se via de longe, lá onde ela achava que a vista nem alcançava mas sim, ela podia ver, só faltava ela ver que via.

foto: Renata Penna

november rain

chuvahaja alma para tamanho dilúvio. chove lá fora e aqui, inunda. corre-me por dentro um rio de lágrimas, em corredeira, derrubando barragens pelo caminho, serpenteando por entre as pedras ou por cima delas ou apesar delas, e eu tamborilo nervosamente meus dedos no vidro da janela, querendo aquietar alguma coisa que não sei o que é. tantas urgências. e esse desejo de gritar cada uma delas a plenos pulmões, perder de vez a voz, a vergonha e a covardia. chove lá fora e aqui troveja, relampeia, escurece-me o céu do meu lado de dentro e a alma se me revira em princípios de furacão. não sei o que há de restar. não sei o que de mim sobrevive, ao fim de tudo isso. não sei se haverá um fim, ou se será infinitamente apenas isso mesmo: um revolteio constante de intensidades a atirarem-se umas por cima das outras, em rebeldia, enquanto eu. trato de tentar adormecer entre as tempestades. nas breves calmarias, nos respiros transitórios, nos momentos fugidios em que um tímido arco-íris apenas se insinua em um horizonte que eu desejaria alcançar. chove lá fora e aqui, a vida acontece. incessantemente. impiedosamente. impacientemente. uma irrascibilidade de mim para comigo. perco as rédeas daquilo que sou, se é que algum dia as tive. penso que não. o que me habita por dentro irrompe desgovernadamente, feito veículo com freio avariado, feito animal selvagem sem sela e sem arreio. eis o que sou. divido-me: algo em mim vai, rodopia de mãos dadas com o vento, sem medo de perder-se no vendaval; outra parte repousa, encolhida num canto abraçada aos joelhos, chorando baixinho feito criança perdida da mãe. chove lá fora e aqui eu me misturo a mim mesma. ouso perder-me, para me encontrar.

depois do salto

rezicaSABESP2-1“Ela diz adeus a tudo o que é familiar e seguro. Não cruza a porta para encontrar outra pessoa a quem se dedicar e que tome conta dela; sai de casa mais insegura do que jamais imaginou que poderia encontrar-se. Mas espera descobrir quem é, e por que é.

Existe nisso uma grande liberdade: o conhecimento que é preciso deixar para trás minha vida atual. Não sei para que. Por mim mesma. Para me tornar algo mais do que sou agora.” *

copiei esse trecho há pouco mais de um ano, e deixei-o colado em um pequeno pedaço de papel ao lado da minha cama. ele dizia muito de quem eu era então, e de tudo aquilo que eu experimentava em um momento de grandes decisões, mudanças e (r)evoluções.

Liv Ullmann, atriz norueguesa muito conhecida pelas – incríveis – atuações nos filmes de Bergmann, fala de Nora, personagem da peça Casa de Bonecas, de Henrik Ibsen. casada, dona de casa e mulher-mãe ‘de família’ impecável (consideremos a época em que a peça foi escrita), Nora decide deixar toda a segurança de uma vida aparentemente perfeita e que funciona dentro dos moldes aceitos e valorizados pela sociedade para trás, em nome da descoberta de quem ela é, diante do vazio, diante do mundo e diante de si.

eu nunca fui uma mulher-mãe de família impecável (ainda bem). nunca me vi sufocada pela vida que escolhi ter, com companheiro, filhas, casa, rotina (que nunca foi muita, mas). ainda assim, há um ano e meio percebi que havia algo ali que era preciso abandonar. sem medo, ou colocando o medo no bolso e caminhando, aceitando o abismo, a possibilidade da queda e da dor.

e eu fui. abri a porta, e fui. para tornar-me algo mais do que eu era então. para acolher de fato, e solitariamente, a pessoa que me esperava do lado de fora, querendo finalmente passar a existir em mim inteiramente. livremente. corajosamente.

um ano e meio depois, que alegria eu sinto ao olhar para trás e perceber quanta coisa descobri, ao olhar-me sem máscaras e atirar-me ao que viria sem redes de segurança, sem garantias, sem proteção. quanto aprendi sobre mim, sobre o meu lugar no mundo, sobre a minha relação com o outro. quanta vida a vida me trouxe. quanto amadurecimento se fez possível, apenas pela simples (simples?) decisão de colocar os pés um diante do outro e caminhar.

se hoje há em mim alguma certeza (e olha, não há muitas), é a certeza de que daqui pra frente eu posso fazer o que quiser – de mãos dadas ou solitariamente, em silêncio ou no meio do maior auê. de que a voz que fala baixinho comigo do meu lado de dentro não silencia mais, aconteça o que acontecer. de que onde quer que eu esteja, estarei porque quero – não porque preciso, ou porque me disseram que era assim que deveria ser, ou porque tenho muito medo de olhar para fora e descobrir o que mais existe.

verdade
liberdade
felicidade

quer eu fique, quer eu vá,
será sempre em nome disso aí.

(*Liv Ullmann, in: ‘Mutações’)

a nossa casa é onde a gente está

Captura de Tela 2016-06-26 às 23.05.24miseravelmente sozinha. afogada em todas as coisas somente minhas. abastada das minhas idiossincrasias, de tudo aquilo que do meu lado de fora não se pode fazer entender. se grito, é no abismo que minha voz se perde, sem eco, sem nada. por ora, posso contar apenas comigo. estender-me a mão, acolher a mim mesma e ser o colo de que tanto careço. alimentar-me por meus próprios meios e sobreviver sem ajuda, é do que se trata. e devo conseguir. de algum modo que ainda desconheço mas me dedico comprometidamente a descobrir, devo alcançar esta autossuficiência. este existir em mim. ‘tornar-se um mundo para si’. tenho descoberto em mim uma grandeza que desconhecia, um desenrolar-se de múltiplas possibilidades, todas muito interessantes, e diante disso estou fascinada como uma criança que gira avidamente um caleidoscópio, sem tirar os olhos da lente nem por um instante, para evitar o susto de perder um agrupamento único de cores e formas, uma pequena explosão de beleza que não se repetirá jamais, não do mesmo jeito, não exato como acabou de ser. sozinha. inexoravelmente sozinha. de uma solidão inevitável, inalienável. eu disse, no início: miseravelmente sozinha, mas não. corrijo-me, agora. não há nada de miserável em encontrar-me assim, diante de um espelho em que nada mais se reflete além daquilo que é meu. ao contrário: é puro regalo que a vida oferece, por sorte, quase por milagre. e eu lambo os dedos, para sentir-me bem o gosto. experimentar-me sem dividi-lo com quem quer que seja tem sido para mim uma explosão de tudo aquilo que há de mais genuíno na vida: alegria amor susto dor desejo e as outras coisas que não têm nome. seja como for, tudo me transborda. e tudo me cabe. *

(* junho de 2015)

(título: da letra de Arnaldo Antunes)

longa jornada noite adentro *

rezicacasamodernista-5o problema, pensava ela, era que nada era tão simples assim. as coisas iam e vinha, ajeitavam-se ordenadamente para no instante seguinte voltarem a acumular-se umas por cima das outras, desordenadamente. nisso matutava, enquanto sacudia os pés ao som da música que tocava ao longe, e de cuja letra ela nunca tinha gostado, mas agora sim. estava mudada. por dentro, e também por fora. ao olhar-se no espelho, de tempos para cá, via em si uma pessoa recém-chegada, transformada, toda cheia de novidades. esta pessoa nova causava-lhe susto, mas também um deleite que não podia disfarçar. e nem queria, pois (re)conhecer-se era bom, era bonito. todavia, no largo espaço fora de si, a mudança causava muita estranheza, especialmente em quem até ali havia estado acostumado a olhar sempre a mesma pessoa. ‘essa pessoa morreu, não existe mais’, pensava ela, toda vez que se sentia alvo de olhares inquisidores, que lhe queriam pegar pelo braço e roçar-lhe os cantos da alma, como a requerer a presença de alguém que ela já não era e – disso tinha certeza – não voltaria mais a ser. e quando desta maneira se impunha, colocando toda a novidade de si para existir e ser vista, percebia nas pessoas uma espécie de luto, seguida de uma indisfarçável revolta, como criança que não quer abrir mão de um brinquedo do qual gostava muito, por mais puído, quebrado ou danificado ele esteja, e ainda que já não possa lhe servir para muita coisa a não ser fazer experimentar aquele conforto desbotado das coisas já bem conhecidas. queriam-lhe de volta como um dia fora, isso era o que ela compreendia daqueles olhares atravessados de insatisfação mal disfarçada. mas embora houvesse neste desencontro alguma dor pontiaguda, ela dava de ombros. e repetia para si mesma que a vida não caminha para trás. passarinho não voa de ré. e que se as coisas não eram tão simples assim, tampouco lhe seriam indecifráveis. aos poucos, peça por peça, ela terminaria por montar todas as peças do quebra-cabeça de si mesma. decifro-me ou me devoro, ou ambas as coisas. ‘a alegria é a prova dos nove’, sempre. disso, ela sabia sem duvidar.

* título de peça de Eugene O’Neil

por um segundo mais feliz

reibirapit-1abro a porta e coloco os pés para fora, um de cada vez. ouso encarar o silêncio e a escuridão. ao longe, o horizonte. um breu impenetrável. pouco ou nada se vê, apenas algumas luzes espaçadas, em uma infrutífera tentativa de agregar vida ao emaranhado de montanhas adormecidas. inspiro profundamente, e ato contínuo meu peito se preenche de saudades de algo que não sei o que é, mas não dói. ‘e por falar em saudade, onde anda você’, assalta-me a memória a canção que vem casar-se perfeitamente ao instante que me escorre por entre os dedos vagarosamente, sem nenhuma pressa. onde andará? rio, sozinha, ao me dar conta que mal sei por onde ando eu, entre tantos descaminhos, reviravoltas e entreatos com os quais a vida tem se divertido às minhas custas – como poderia eu saber de você? andamos à vida, certamente, os dois. às voltas com as próprias escuridões, trabalhando arduamente, todos os dias, em carne viva, para levar ali algum pequeno-grande feixe de luz. do meu canto tenho conseguido algum progresso, a pequenos passos, tão obstinada como uma formiga trabalhadeira. desistir, jamais. desesperar – bem, às vezes, temporariamente e sem perder a coragem. sei bem que tens feito o mesmo, conheço de ti o bastante para sabê-lo sem duvidar. permito-me orgulhar-me de nós, de ambos igualmente. temos sido fortes sem negar-nos àquele desamparo tão necessário diante das coisas grandes demais. temos nos dado à vida de olhos bem abertos. temos respirado tão fundo. temos aprendido tanto. temos dado até mesmo aquilo que não acreditávamos ter para dar, e quanto de bonito se revela bem aí. de susto, a alegria. aqui, mergulhada em silêncios. longe de tudo. longe de ti. a alegria de estar, enfim, compreendendo algo que não carece nomear, porque apenas existe, é, acontece, de modo inteiro e definitivo. tocando humildemente, com a ponta dos dedos, uma existência mais consciente, menos equivocada, mais lúcida, sem tantas confusões emocionais advindas da necessidade infantil de projetar no outro aquilo que é meu, e poderia apenas ser meu. ser feliz é responsabilidade minha. está tudo aqui, ao alcance. assim como para si, também. dois mundos inteiros. duas pessoas. um mais um, igual a infinito.

* para ler ouvindo: https://www.youtube.com/watch?v=-LprqBP0JTw

é que ela queria tudo

nasceTheodora_logo-7separar-se. fragmentar-se. reunir-se.

sentir a distância. conhecer a ausência e saber-lhe o gosto, descobrir o que causa em mim, que rastros me deixa nas entranhas doloridas. experimentar a falta. fechar os olhos. mastigar saudades, cuspir lembranças. saborear o silêncio. a não presença, o não toque. o vazio. interno-externo, e revirado. o avesso. o meu, e o do outro que não está, e que não estando me causa um algo que ainda não sei bem o que é. repartir as coisas entre aquilo que me pertence e aquilo que me é alheio, saber reconhecer o que me nasce por dentro e perceber o que vem de fora, como mistura. conhecer-me mais do que sabia até agora. aceitar meus abismos, todos, sem escolher. abraçar, acolher, aceitar. verbos reflexivos. me, mim, comigo. ‘numa dualidade de eu, para mim’. diante do espelho, o encontro marcado. o ponteiro do relógio. o tempo, ‘faço um acordo contigo’. o alinhavo. os círculos, que se fecham para recomeçar ali adiante. novas possibilidades. novos traçados. novos desenhos. novas cores. o móbile, no furacão. non-stop. o caminho, ao caminhar. sem descanso. o suspiro, o grito. o gozo, o susto. o desconhecido. o mistério. que açoita e afaga, de uma só vez. um pé diante do outro, o passo de dança, a queda, a dança. a dor, o êxtase. mãos dadas. tudo o que é inteiro. tudo o que é bonito. tudo o que está vivo. tudo o que me significa. mosaico. uma colagem do que me resta, recortado com tesoura em mãos delicadas. combinado de cores inesperadas. todas as do arco-íris, descombinando.  o descompasso. o desafino. também sou eu.

na volta que o mundo dá

dia9guarameaipeecastanheiras-22“não é saudade, porque para mim a vida é dinâmica e nunca lamento o que se perdeu – mas é sem dúvida uma sensação muito clara de que a vida escorre talvez rápida demais e, a cada momento, tudo se perde.” *

e porque eu ando sentindo isso com fisgadas diárias que me entortam as ideias e me botam na boca um gosto amargo de qualquer coisa mal mastigada, que vai ficando esquecida por entre os dentes. e porque o tempo que passa, não simplesmente passa, em calmaria – ele dói. lateja. roça. embrulha e desembrulha. feito caldo de onda forte vinda de repente, no susto. que embola a gente pelo meio das águas barrentas, faz ralar os joelhos, faz engolir água salgada, faz virar do avesso. é isso: eu ando meio virada do avesso. de um jeito tão intenso, que tudo o que me roça na pele me faz embrulhar o estômago, e cada som por delicado que seja me dói nos ouvidos – como se eu precisasse de uma solidão absoluta e silenciosa, esvaziada de qualquer presença humana que me seja alheia, para deglutir a passagem das horas, dos dias, dos meses, dos anos. tenho me sentido atropelada. aturdida. confusa. há uma parte em mim que sonha futuros e deseja muito, quer o que há de novo, quer dar passos à frente, quer desbravar. mas há outra. que chora em silêncio, soluçando baixinho, amedrontada. que se agarra ao que já se foi, em desespero. que quer olhar para trás, apegar-se ao que já não é mas um dia foi, e foi bonito, e foi bom. estou agora assim: no meio do caminho. não sei se vou ou se fico, não sei se fico ou se vou. e enquanto eu me encolho pedindo paciência e calma, mais amor por favor, a vida continua aos trancos. empurrando-me aos barrancos. em demasia, como sempre foi. eu tapo os ouvidos, os olhos e a boca. recuso-me. enquanto eu puder, eu vou me demorar. às vezes é preciso. às vezes, eu preciso.

* caio fernando abreu

dos embaralhamentos

grimmagresteP-15e depois de tudo tenho cá sentido este embaraço, um nó no peito e na boca do estômago, um embrulho nas ideias e um atrapalhamento constante dos pensamentos que se atiram uns por cima dos outros, brincando de misturar-se e desafiar as minhas coerências, fazer troça das minhas certezas. os meus lábios ficam às vezes felizes e querem dizer coisas bonitas, coisas de alegria, querem cantarolar delicadezas, detalhes, poesias que encontro escondidas nos cantos, nas quinas, por trás dos armários, sob a sombra das árvores. mas então eu novamente anoiteço, os olhos embaçam, as ideias escurecem e o coração suspira, à procura. em busca. de quê, eu me pergunto e não encontro resposta, porque há ainda tamanho mistério e tanto que apenas se insinua, que meus olhos apenas adivinham e a alma deseja, ardentemente. há uma outra que também sou eu ali, dobrando a esquina. ela me estende as mãos e aguarda, paciente, que eu seja capaz de alcançá-las. e a hora vem chegando, avizinha-se, colorida, sedutora. sei que será bonito. e também sei que não adianta pressa, porque tudo tem sua hora. as coisas vêm a seu tempo, que é nosso e também não é. então há uma parte em mim que é espera simplesmente, mas a outra é trabalho árduo e cuidadoso, é mãos à obra, na massa. moldando. querendo. fazendo ser.  acreditando de olhos fechados e mãos unidas como em oração, aos soluços. mas sem deixar de empunhar o facão com valentia e abrir picada. é assim: fé em deus e pé na tábua.

foto: Renata Penna