me ensina a dizer adeus

chove‘morrer não dói / mas ir embora nunca é fácil’ *

e essa noite, mais uma vez, eu sonhei com você. e de novo éramos nós: eu menina; você, inteiro. eu te sorria um sorriso branco e tão cheio de pureza, de um jeito inocente que já nem me lembrava mais que se pudesse sorrir. você me estendia as suas mãos, me puxava e saíamos dois, correndo num passo trôpego, todo de brincadeira. e ríamos. ríamos muito. como foi bom ouvir de novo este som já esquecido num passado que insiste em querer se afastar de mim mais do que eu gostaria: a tua risada. desgovernada, inconveniente, ocupando os espaços de um jeito tão contundente que parecia que eu conseguiria tocá-la com a ponta dos dedos. você me pôs a mão nos cabelos, afastando os fios que me escorriam pela testa. e me olhou comprido, com os teus olhos amendoados iguaizinhos aos meus. e eu te sorri. com uma alegria genuína de criança que desconhece a dor de amar para além dos desvios, dos desencontros. e cantamos juntos. uma canção da qual eu, conscientemente, já nem me lembrava. mas que era minha e tua, sem eu saber. e era como se a canção tivesse braços, longos. eu me sentia abraçada. protegida. como se nenhuma coisa no mundo pudesse me fazer algum mal. como quem adormece dentro de uma concha, de um casulo, do cobertorzinho da infância. acordei chorando. com uma saudade que eu não sabia direito de quê: se de você, se daquele tempo em que as coisas eram tão outras que tudo ainda parecia tão possível; se de me sentir protegida, acarinhada, convencida de que tudo era bom, seguro e correto. já faz tanto tempo, que eu já até me esqueci como era sentir desse jeito. esfreguei os olhos cuidadosamente, sem querer afastar o sonho, mas antes que eu pudesse me dar conta de qualquer coisa você se foi. desfez, feito nuvem numa rajada de vento. fiquei com o teu gosto em mim. esse, pelo menos, é meu. e ainda que eu chore um pouquinho toda vez que ele vem visitar, eu prefiro assim do que esquecer de uma vez. ir embora nunca é fácil. ficar também não.

das despedidas

querid@s,

ontem à noite meu pai se despediu de seu corpo, desta vida e deste plano, depois de um longo período de agonia no hospital.

agradeço a todos os amigos que estiveram comigo, oferecendo colo, carinho, escuta e amparo nesses tempos doloridos. agradeço a todos que compartilharam conosco a hora do adeus, numa celebração leve, alegre e feita de amor e amizade, como teria sido da vontade dele. agradeço a todos que, mesmo de longe, não podendo estar fisicamente presentes, mandaram boas energias e palavras de acolhimento. agradeço a todos que, mesmo sem saber exatamente o que estava acontecendo, emanaram boas vibrações de luz e paz, ao perceber que algo não andava bem.

a despedida nunca é fácil, e a gente nunca se prepara o suficiente. é sempre cedo demais.

estou hoje afogada nos meus adeuses, acolhendo a dor e agarrada à esperança de que ela logo há de se transformar em gratidão e saudade. sobretudo, alimento-me agora mais do que nunca do amor por esse cara tão cheio de virtudes, tão cheio de defeitos – como somos todos-, com quem tive uma história conturbada, cheia de idas e vindas, mas sempre marcada pelas tentativas constantes de estar junto da maneira possível, fazendo da mistura de nós dois o melhor que podia ser.

‘e quando a vida dói,
eu procuro me concentrar
num caminho fácil’

pai,

me despedir de você foi a coisa mais difícil que eu já fiz na vida. doeu muito. está doendo muito. e ainda há de doer, por um tempo, e tudo bem. eu aceito, e agradeço por poder sentir.

no último mês, entre visitas ao hospital e expectativas constantes da despedida, sonhei muito com você. nos meus sonhos, éramos sempre quem fomos: você ainda o sujeito de olhar malandro, sorriso largo e riso inconveniente, que se recusava a levar a sério o que quer que fosse; eu, ainda a menina encabulada de dez anos que encostava a cabeça no teu colo e te ouvia cantar gatinha manhosa, fazendo de conta que não sabia que aquela canção não tinha sido escrita pra ela.

essa menina de dez anos te amava com toda a força da sua inocência.

em algum lugar dentro de mim, eu vou ser sempre aquela menina de dez anos. e é nesse lugar que você vai viver comigo pra sempre.

‘vai com os anjos, vai em paz’

te amo.

wellin_cris_re

eu canto meu blues

transarqui-37e dói, sabe. a dor insiste, e não quer se ir embora. adia a despedida, vai fincando raízes, vai fazendo morada como quem deseja permanecer por um tempo sem conta. há dias em que ela se espalha, feito leite derramado. há dias em que ela dói mais do que nos outros, e hoje, bem. hoje é um destes dias, lamentavelmente. um desses dias em que as peças se desencaixam, em que só o que há é o desencontro. por todos os lados. um destes dias em que eu tento, com toda a força que me resta, inspirar bem fundo e devagar, mas o ar insiste em não me preencher os pulmões, e tudo falta. um destes dias em que eu quero gritar, esbravejar, praguejar, atirar coisas na parede, quebrar vidros em pedacinhos, chorar aos soluços e me descabelar atirada ao chão, feito criança a quem se negou um doce. porque é assim que eu sinto, por ora: a vida insiste em me negar o doce. o lamber dos beiços. o prazer sem medida. a alegria extasiada e livre do prazer infantil de quem desconhece as consequências, os perigos, o abismo sempre à espreita diante do próximo passo, talvez. e nestes dias o que resta em mim, o que permanece, o que persiste, é o vazio. um espaço oco, solitário e frio, bem no meio do peito. e um desejo constante de ir embora. de quê, você me pergunta, e eu também não sei. de tudo. de nada. de qualquer coisa. de mim.

pois foi por água baixo aquele nosso plano infalível

transarqui-41eu imaginei que hoje seria melhor, sabe. sei lá porque. eu imaginei que hoje o dia ia estar mais ensolarado e a brisa ia estar mais fresca e as pessoas iam cruzar comigo na rua um pouco mais felizes e mais dispostas a sorrir para que eu pudesse então sorrir de volta sem me sentir uma completa idiota, eu imaginei que hoje dizer sim seria mais fácil, aceitar, acolher, compreender. eu imaginei que hoje as coisas fariam mais sentido, deixariam de se parecer com um quebra-cabeças mal encaixado, com uma pintura surrealista ou uma cena de um filme de quinta categoria, daqueles que passam em sessão no meio da tarde com ingresso quase dado de graça. eu imaginei que hoje eu teria mais forças, que os meus pés não doeriam mais, que a cabeça não me pesaria tanto sobre os ombros e eu conseguiria respirar bem fundo, enchendo os pulmões de ar e quem sabe, se não fosse pedir demais, de esperança também. eu imaginei que tudo poderia ser diferente, apenas isso, e tão bobo isso, ser diferente, apenas, ser. diferente. eu imaginei que as coisas poderiam de novo ser boas por um dia inteiro, da primeira hora do amanhecer até o último minuto da noite antes de botar a cabeça no travesseiro e dormir pesado um sono desprovido de sonhos, daqueles que se parecem com uma quase morte. porque houve um tempo, veja, eu ainda me lembro, houve um tempo em que as coisas eram, sabe. boas. apenas. assim, simplesmente. houve mesmo esse tempo. ou, será. houve mesmo esse tempo?

título: da letra de paulinho moska

sede assim de qualquer coisa

imig-2como no poema de cecília meirelles: no escuro que silencia ao final de cada dia, um camelo que mastiga a sua solidão, um pássaro que procura pelo fim do mundo, um boi que caminha para a morte, e eu. eu. puxando o ar com empenho querendo encher os pulmões, a ver se me deixa de faltar o ar com tanta frequência. sem acolhimento na poesia, sem refúgio possível neste vasto celeiro de desencontros que tem se tornado a existência, nestes tempos áridos. estendo as mãos o tempo todo, sedenta. meus olhos vagueiam de um lado a outro, perdidos entre esta e aquela possibilidade, logo a tornar-se mais uma a dar-me adeus acenando de longe, sem atender a aquilo que necessito. esforço-me para não perder as esperanças. grito até perder a voz, porque quem sabe. na última hora da noite, quando a última estrela desiste de brilhar no céu, resignada diante da escuridão, quem sabe. alguém me ouça, vire-se para o lado e perceba. que há alguém ali, bem ao lado, ao alcance, pedinte. alguém com o coração emaranhado, a ruminar sentimentos revoltosos que se atiram uns por cima dos outros, como em protesto, e não se calam nem mesmo nas horas mais quietas da madrugada. até agora, meus gritos têm se perdido no vazio. batem-se nas paredes do nada, fazendo eco. eu falo da dor, e a dor me volta para os ouvidos, inteira, como saiu de mim. tenho um compromisso comigo mesma, que é não desesperar. reafirmo este propósito todos os dias, quando os ponteiros do relógio me vêm avisar que é hora de começar novamente: colocar os pés para fora da cama, respirar bem fundo, dar corda às costas da vida, dar conta das coisas do dia, porque o tempo, já dizia o poeta, não pára. tampouco espera. apenas nos faz companhia, enquanto tropeçamos ao longo das horas. já é alguma coisa.

como insetos em volta da lâmpada

diasP-8
fotomamifera.com.br

“o ridículo das pequenas limitações humanas, é o que mais me choca. a maldadezinha cotidiana, que se esconde pelas frestas dos dias da semana, pateticamente. os pequenos gestos de malvadeza efetuados com as pontas dos dedos, como se não tivessem importância. pois têm. pois ferem, machucam, magoam. pois espalham a desesperança e o desencanto, e isso é feio e devia ser motivo de vergonha. ah, o humano. há dias em que acordo especialmente desolada e descrente dele, o humano. não por suas limitações ou desvios, porque esses todos temos sem escapar um, mas pelo que é feito de maneira proposital, com o único intento de colocar o pé à frente do outro para que tropece, para que dê com a cara no chão e para que sinta dor, quanto mais melhor. isso é o que desisto de tentar compreender, porque minha mente realmente não alcança – e não porque eu seja melhor ou maior do que ninguém, não porque eu seja a encarnação da bondade ou da generosidade ou o que seja, mas apenas porque sou gente. e como gente, esforço-me todos os dias para existir sem ferir o outro propositadamente, sem dizer qualquer coisa que não tenha por objetivo mais do que magoar a quem quer que seja. e sei que tantas vezes isso acontece, mas ao menos posso dizer sinceramente que não foi descaso, não foi rancor e não foi egoísmo, no máximo atrapalhamento ou distração. eu prefiro assim. ao menos recosto a cabeça no travesseiro todos os dias, sem peso. isso vale muito pra mim. e talvez um dia, depois de tantos calejamentos, eu aprenda a esperar menos, a confiar menos – ou a amar menos, quem sabe.

bem, talvez não. talvez eu não queira, apesar de tudo. é, apesar. talvez eu viva para sempre tão boba e perdida, mastigando as minhas pequenas esperanças no canto da boca. para sempre. talvez.”

a pesar

grimmagresteP-14vê: essa é minha tristeza, a minha melancolia. sente seu peso, segura ela nos braços, pega com cuidado nas tuas mãos com os dedos bem fechados, para que não escorra. ela é preciosa, apesar de tudo, e me importa muito. ela também sou eu. uma parte minha nem sempre reconhecida ou aceita, e por isso mesmo mais calejada. então acolhe, respira com suavidade para que ela não desperte cedo demais, e deixa que ela repouse silenciosa em teu colo, que é sempre tão generoso. eu preciso disso. é com você que eu conto para fazer isso enquanto eu não posso, enquanto a dor é tanta e me pesa sobremaneira e por isso eu me encolho, deixo-me ficar em um canto onde eu possa digerir o susto e esperar que a valentia se apresente, nasça mais uma vez enfeitada de cores vibrantes e me venha acalmar os soluços. enquanto isso, te dou nas mãos essa parte preciosa daquilo que sou eu, e te peço com humildade e muita esperança: faz o que for preciso, mas guarda ela pra mim. protege a minha tristeza, esconde em um lugar silencioso e bem quieto, permite que ela se aninhe. assim que eu puder, eu hei de voltar. e hei de querer pegá-la nos braços novamente, e engolir de uma vez só por entre os dentes, com a boca bem aberta. e que ela então se acomode em mim como costuma fazer, aquietando-se nos meus cantos mais escondidos, aqueles onde a vida só consegue chegar de vez em quando, num sopro, num desvio, num distraimento da minha inteligência.

é que eu acabo de me distrair, e não sei quanto dura.

foto: Renata Penna

‘txai’

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‘txai’ é a palavra indígena usada por uma tribo do amazonas para referir-se a alguém a quem se quer muito. mais do que amigo, mais do que irmão, o ‘txai’ é alguém que, de tanta importância, passou a existir dentro de você e vice-versa. seria algo como “a metade de você que me habita é a metade de mim que habita você”. um estar no outro e o outro no um, um misturar-se e deixar-se transformar, por dentro. eu acho que isso é uma das coisas mais bonitas da vida.

abrir-se para o outro, deixar-se tocar, olhar, conhecer, não é coisa fácil. porque gente é bicho que sente medo. gente é bicho que quer garantia e que não quer se ferir. e abrir-se é arriscar-se. porque há sempre à espreita a possibilidade do engano, a possibilidade do tombo, a possibilidade da dor. porque amar alguém é aceitar que um dia pode-se não amar mais, é aceitar que o outro pode não merecer o amor que se tem para dar, é aceitar que o outro pode não ser quem a gente pensava que fosse. amar alguém é aceitar que o outro pode ser menor do que a gente enxergava e não alcançar o tamanho do amor que a gente tem pra dar, que o outro pode não caber na querência que a gente oferece. é aceitar que o outro pode não saber ser digno do amor que a gente dedica – porque nem todo mundo é. e nesse caso pode-se até aprender a ser, mas é preciso que se queira e nem sempre se quer.

mas eu digo, acreditando de mãos juntas e com os olhos rasos de querer não perder a fé, ainda assim vale a pena. ainda assim compensa ser desse tipo de gente que abre os braços, que baixa a guarda, desse tipo de gente que ama seja como for, sem promessa, sem ter certeza, arriscando o erro e o vazio que podem vir depois, se o que era pra ser não for. desse tipo de gnete que vê o outro pelo bonito que tem dentro de si – e às vezes escolhe o espelho errado, aquele que reflete torto, que reflete desfigurado, que reflete o equívoco que nem era nosso, mas acaba doendo na gente como se fosse.

e mesmo assim, mesmo com dor, eu ainda prefiro ser do tipo de gente que deixa o outro existir do seu lado de dentro. ainda que esse outro escolhido tão a dedo mas às vezes ingenuamente, nem sempre mereça o espaço que se lhe deu. ainda que esse outro fuja, escape, passe rasteira, e num belo dia se vá dando de ombros e assoviando despreocupado, deixando vazio o espaço que era para ter preenchido com um pouco de beleza.

porque cada ‘txai’ que fica morando aqui dentro – e eu sei que quando é bonito, é pra vida inteira – faz valer todos os outros. e preenche de uma vez só de amor e alegria o vazio de todos aqueles que deviam ter sido e não foram, porque não tinham em si o que preenchesse o espaço que não sabiam merecer. e porque querer bem é sempre melhor do que querer mal.

sei lá. mas eu penso que a vida, no fundo, é bem camarada. e se encarrega de levar para longe quem não é pra ficar.

ps: para ler ouvindo isso aqui.

foto: Renata Penna

morredouro

raul1anoxP-333

“(…) não tem importância que você não compreenda isso, porque estou acostumado com a incompreensão alheia, com a minha própria incompreensão, mais do que tudo.” *

e a essa altura dos acontecimentos, é tão minguado aquilo que ainda faz algum sentido. perco-me, tateio no escuro e tropeço em minhas impossibilidades e limitações enquanto procuro explicações para o que teima em fugir à lógica, para o que insiste em não se submeter aos caprichos da mente, para o que turra em carecer da inteligência para ser compreendido, para o que zomba da razão cartesiana que organiza os fatos da vida em escaninhos etiquetados, empilhados ordeiramente, uns por cima dos outros. tenho me sentido miseravelmente só. impiedosamente desamparada, como filhote cuja mãe morre ao lhe dar a vida, e daí por diante se vê abandonado no cerne do mundo sem que haja para si uma mão estendida, ou um colo para repousar. e esta solidão, por ser vazia, cinzenta e incômoda, em nada se assemelha àquela que me habituei a valorar,  aprendizado cultivado com diligência ao longo de toda a vida, ou ao que entendo por ela até aqui, já que não tenho perspectiva de sua completude porque sou finita e presente, como me coube. esta solidão que por ora me assombra não é uma solidão povoada, movimentada pelos festejos internos de uma alma que se alegra constantemente diante dos rebuliços da vida que tanto têm a ensinar – não, esta solidão é outra, uma solidão deserta. mergulhada nela, indefesa, vítima do mais absoluto abandono, tento gritar mas a voz não me sai – apenas um gemido oco me arranha a garganta e dói, dói de maneira excruciante, como se a vida me quisesse mostrar que não, não é mais possível, não há mais esperança, não há mais nada. ‘deus está morto’, bradava a personagem  do alto da montanha, e silenciosamente penso que sim, mas não terá sido deus. será algo em mim, e quizá esteja definitivamente desprovido da possibilidade de continuar existindo. morto. no entanto, como para algumas coisas sou muito medrosa, escondo meu rosto entre as mãos, fazendo ruídos irreconhecíveis, como criança querendo vencer com a irracionalidade o medo do escuro. recuso-me a engolir esta verdade que a vida me empurra goela abaixo, esforço-me para pensar em outra coisa, finjo que me esqueci. por ora, tem dado algum resultado – embora eu tenha, vez por outra, lampejos de lucidez que me obrigam a admitir que, cedo ou tarde, terei de abrir os olhos de uma vez. que seja tarde. mais tarde. sei que a ocasião me aguarda, mas tenho fugido. porque tenho muito medo da dor, e do que virá depois. sobretudo, tenho medo que depois não haja nada. sim. que não haja nada, é a maior paúra de todas.

* Caio Fernando Abreu/ foto: Renata Penna

dos charlatanismos

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“(…) e os que desistem? conheço uma mulher que desistiu. e vive razoavelmente bem. o sistema que arranjou para viver é ocupar-se. nenhuma ocupação lhe agrada. nada do que eu já fiz me agrada. e o que eu fiz com amor estraçalhou-se. nem amar eu sabia, nem amar eu sabia. (…)” *

porque as pessoas são estranhas, no fim é isso mesmo: o ser humano é estranho. e eu me choco sempre, sempre. com a maneira das pessoas se relacionarem, aproveitando do que é do outro para os próprios fins. com a falta de cuidado, de empatia, de respeito. a gente fala muito nisso, em respeito. todo mundo fala, porque falar não custa. é palavrinha fácil na boca e no discurso, mas na hora de virar atitude, ah que trabalho que dá. falta o olhar, sabe? despido de preconceito, despido de interesse, o olhar nu que vê o outro pelo que ele é, e não pelo que ele pode ou pelo que me tem a dar. falta caminhar junto, mas junto de verdade, mãos dadas e tudo. sem egoísmo. sem egocentrismo. sem maldade. falta toda a gente saber que não é o centro do mundo, ninguém é. que nem sempre é sobre si, que nem sempre tem a ver consigo. e falta essa gente toda aprender a gostar. de verdade. sem escambo e sem interesse. um gostar destituído de posse, desprovido de qualquer malandragem, um gostar que não antevê vantagem, um gostar que existe sem qualquer compromisso, gratuitamente. porque amor, mesmo, é assim. assim é que é bonito. assim é que transforma. e no entanto o que eu vejo por aí é cada um na sua, por si, para si. deus contra todos, se é que deus já não está morto, como gritaram lá do alto da montanha. ele eu não sei, que nem sei se um dia viveu, mas quando eu passo os olhos por todos os cantos, o que eu mais vejo é gente vazia. morta por dentro. que não sabe gostar. que não sabe se dar. que não sabe ser. que não sabe de nada que valha a pena saber. ai, eu hoje como clarice amanheci em cólera. e alguma tristeza também.

* da Clarice Lispector, ‘Dies Irae’, in: “A Descoberta do Mundo” / foto: Renata Penna