vocativo

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no entanto te peço, sim, que não te demores. que caminhe depressa, que não se distraia com os detalhes curiosos do trajeto, que não se perca nos desvios ao longo da estrada. tome atalhos, se possível. corte caminho, faça o percurso mais apressado. estou angustiada, e não posso esperar. tenho passado aos sobressaltos os meus dias, torço as mãos de maneira aflita enquanto você não chega e vou muitas vezes à janela, olho para os dois lados com alguma esperança a me fazer cócegas na alma que é sempre vã, porque você tarda e ao redor ainda há somente vazios. então, por misericórdia, apresse-se. estou em um ponto em que tudo é urgente, meus silêncios já me consumiram inteiramente e por isso agora engulo em seco algumas vezes por minuto, o que me traz uma sensação muito desagradável e um desconforto que quase me leva a desistir. é solidão, mas não só. se fosse, apenas, seria mais fácil, pois a ela já me acostumei e gosto, sei conviver até com muita alegria, mas o que há agora é outra coisa. uma agonia cadenciada, um desespero apenas latente e por isso ainda mais apavorante. sinto frio, apesar do sol que insiste em brilhar todas as manhãs, como se zombasse da geleira que carrego no peito. fico arrepiada e alerta, estico meus braços ao redor do corpo em busca de alívio, mas não funciona. é preciso outro. é preciso que alguém chegue, diga as palavras corretas, resgate-me daquilo que já não posso suportar, daquilo que me arranha as ideias e revira os sentimentos, daquilo que dói e lateja. é preciso que eu possa somar, acrescer, redesenhar para então dividir. venha, portanto, se for agora. não outro dia, não amanhã, não. eu aceito a pressa, todo o resto será tarde demais.

foto: Renata Penna

a bruta flor

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é que às vezes, especialmente em horas determinadas no dia e em dadas circunstâncias, eu te preciso muito. como quem sente uma fome tão exagerada que chega a fazer doer o estômago e turvar a vista, como quem se vê acometido de uma fraqueza súbita, assim eu te preciso, fisicamente. é uma necessidade real, palpável. eu quase posso pegá-la nas mãos e acariciá-la como se fosse um bicho de estimação. ela, a vontade. a vontade de te sentir o cheiro, o gosto. a vontade de te ouvir a voz sussurrada. a vontade de estar perto, junto, com. a vontade que já não se conforma com pouco e já não se alimenta somente de palavra, a vontade que já não quer a distância e a separação, a vontade que quer desafiar o tempo e o espaço. ela anda rebelde, essa minha vontade. anda querendo subverter a ordem das coisas, perder-se das regras, mandar às favas a prudência, o juízo e os bons costumes. como boa anarquista que é – afinal é minha e a fruta não cai mesmo longe do pé – ela quer e quer do jeito que for mas quer, quer sem explicar coisa alguma, quer sem precisar de justificativa nem de permissão. quer, e quer, e ponto. e eu também quero. temos querido juntas, apertando as mãos uma da outra, aninhadas na mesma urgência ofegante, transbordadora. por ora, penso que só ela me compreende e eu a ela, e por isso estamos juntas, uma bem misturada à outra sem saber onde se começa e onde se termina. queremos. eu quero. e você?

foto: Renata Penna