aprendi novas palavras e tornei outras mais belas,

“tenho aprendido tanto sobre acolhimento, sobre aceitação e respeito. incrível como quando a gente descobre um meio de julgar menos, aprende a amar melhor.”

vasculhando uns papéis antigos, fui dar hoje com essa frase rabiscada num canto de folha. não estava datada, portanto não sei dizer com exatidão quando foi que a escrevi, mas senti-me agradecida em silêncio por ter aprendido isto um dia e estar – confesso – ainda a aprendê-lo cotidianamente: julgar menos e amar melhor. amar é coisa que se aprende, sim. não se nasce sabendo e há quem não aprenda a fazer direito, de um jeito que não machuque ao invés de afagar (ou ao menos não muito e sobretudo não propositadamente) e não aprisione ao invés de libertar. porque amar, em derradeira análise, é isso: libertar. um abrir de braços. o soberano respeito à inteireza do outro, a seu modo de ser e estar no mundo. amar é olhar o pássaro que voa. é sentir encher os olhos quando volteia no ar. é sorrir quando ele bate as asas, esperar que volte e refastelar-se com o que fica conosco em forma de experiência, de troca, de doação. o julgamento é vício corrente, é tentação cotidiana. queremos o outro pelo que achamos que deve ser. que preencha nossos vazios. que seja grande naquilo que somos pequenos, que alcance nossas impossibilidades e dê conta delas sem que para isso precisemos mover um dedo, sem obrigar-nos a escarafunchar nossas dores e varrer nossas poeiras de sob o tapete. mas amor é outra coisa. não é, ao contrário do que dizia o poeta (ó, pretensão a minha, desdizer o poeta), “estar-se preso por vontade”. é estar solto, é poder rodopiar-se ao vento, é chegar até onde a alma deseja e ainda assim saber-se parte de alguma coisa que permanece. é um pertencimento sem posse. é ir e voltar, sem nunca deixar de estar. acolhimento, aceitação e respeito. sorte na vida. que bonito presente, este.

e há tempos são os jovens que adoecem

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eu escrevi o texto abaixo (a citação inclusa) aos quinze anos. lá se vão mais de vinte, e é sempre um espanto deparar-me com a menina que eu fui, toda emaranhada em suas caraminholices angustiadas, toda em carne viva, como eu nunca deixaria de ser. o colorido-dolorido, paradoxo perdido na espuma cotidiana dos dias, dualidade que aprendi a saborear. ah, essa menina. há tanto de mim nela, e há tanto dela em mim. ela, que naquele tempo era eu. ou quem eu achava que eu era. puxa. que coisa maluca-assustadora-maravilhosa é o tempo, e a gente enroscada nele.

‘parece cocaína mas é só tristeza’ *

eu sei que as coisas às vezes parecem maiores do que são na verdade, e eu sei que tudo parece pior num dia cinza em que o sol não aparece, e eu sei que eu estou cansada e dormi mal ontem à noite e quando eu durmo mal a vida parece um emaranhado bem mais insuportável do que talvez seja, eu sei sim eu sei, mas eu não consigo evitar, eu me pergunto se há de ser sempre assim, entende? tão solitário, tão vazio. as palavras ditas na frente do espelho. as mãos frias. o sinal da esquina trocando as cores, o tic tac do relógio, as horas passando, mais um dia chegando ao fim, a noite silenciosa e no meio de tudo, eu. uma ilha, cercada de silêncio por todos os lados. às vezes me bate um desespero, sabe. uma vontade de gritar, bem alto. sem medo, sem vergonha. escandalosamente, mesmo. mas no segundo seguinte já me sinto ridícula, porque sei que é inútil. não há ninguém – ninguém ouve, ninguém vê, ninguém entende e ninguém virá. um oceano de distância, toda uma vida. eu escrevo. escrevo muito. furiosamente, até começarem a me doer os dedos e eu sentir a vista cansada e as palavras começarem a se embaralhar e eu não aguentar mais e então eu me jogo na cama, fico olhando para o teto. esperando sem saber o quê. eu acho muito, esse cansaço todo para os meus quinze anos. sei lá. de algum jeito, não parece ser certo. dizem que as coisas mudam, dizem que tudo melhora, dizem que é só uma fase difícil. eu não sei. eu quero acreditar, sabe. preciso muito acreditar. e me agarro a essa possibilidade como se fosse uma tábua de salvação, mas lá no fundo, o medo persiste, igualzinho, sem tirar nem por. o medo de que seja assim para sempre. para sempre – tão definitivo, isso. o medo de que o amanhã seja sempre igual ao hoje. as mesmas palavras que eu não digo. o mesmo abismo entre eu e os outros. o mesmo arrepio de desânimo na base da nuca. o mesmo sorriso amarelo escondendo a vontade de enfiar a cabeça na terra feito avestruz. a mesma falta de vontade de sair de casa. a mesma lágrima escorrendo silenciosa. o mesmo buraco no peito. tudo assim, tão eu. eu mesma. porque é isso, mudam os dias, passam as horas, as coisas se reorganizam do lado de fora, mas eu. eu sou sempre eu mesma, eu não consigo me evitar. e às vezes eu penso que isso deve ser o mais bonito de tudo, que eu seja sempre eu mesma, igual a ninguém, e que isso é o que vai valer a pena no fim das contas, mas esse fim não chega, esse fim demora. e até lá, eu não sei o que fazer de mim. eu-não-sei. **

* Renato Russo, em ‘Há tempos’/ ** outubro de 1993

da lama ao caos do caos à lama

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de todas as vezes que eu sonhei com você e acordei no meio da noite com o pescoço empapado de suor e o coração palpitando acelerado e o teu gosto ainda esquecido por entre os cantos da minha boca, de todas as vezes que você veio invadir o meu sono sem pedir licença para bagunçar os meus sentimentos já não muito ordenados – foram muitas as vezes -, terá sido esta talvez a mais romântica num sentido estrito, a mais parecida com um filmeco de hollywood, daqueles mamão-com-açúcar, daqueles bem previsíveis e bobinhos que você detestaria e acharia risíveis e torceria o nariz da primeira à última cena, com aquele ar blasé que eu conheço também (e amo, amo, sim, como dizer que não). irônico, eu sei. eu e você, e essa nossa história que mais parece saída de um roteiro felliniano, e de repente no mundo encantado dos sonhos onde tudo se torna possível (permita-me flertar com o inimaginável apenas por ora), nós dois assim: moço e moça, príncipe e donzela e aquela babaquice toda com violinos tocando, cabelos ao vento e uma ponte qualquer iluminada ao fundo (sempre há uma ponte iluminada ao fundo, repare, a metáfora mais desbotada de todos os tempos e ainda assim continuam a repisá-la, os putos). sim, eu sei que voluntariamente você se recusaria a participar de uma farsa desta magnitude, gargalharia sem pensar duas vezes para depois dar de ombros e sair caminhando em sentido contrário sem considerar o estrago que sua recusa faria naquela criatura patética de mão estendida e olhar apaixonado (sim, esta sou eu, no sonho como na vida). mas esta é a beleza da coisa, note: eu não preciso te pedir permissão. não me faz falta a tua anuência e ao menos no meu sonho, você me pertence. inteiro, e sem ressalvas. o meu olhar é o que te define, e eu faço de ti aquilo que me convém. você é, por ora, príncipe. de cavalo branco e tudo, bem daquele jeito que te faria contorcer de desgosto. esta, a minha vingança. um oferecimento da casa. *

(* escrito em janeiro de 1999)

feche a porta. e apague a luz.

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foto: Renata Penna

eu não vou correr atrás de você. só dessa vez. só por hoje, eu não. porque tá ficando tedioso isso, sabe. todas as vezes. você vai, e eu atrás. e o gosto do sal me correndo pelas bochechas. e a quentura me subindo pra face quando você se vira pra constatar aquilo que já sabia: eu ali, idiota, pedinte, ridícula, de mãos estendidas, de coração em pedaços, de orgulho no chão. não é nada bonito, eu sei. não é nada que eu possa colocar no currículo e vá depor a meu favor, ou que vá compor a minha lista de grandes realizações num futuro próximo, muito pelo contrário. é daquelas vergonhazinhas que a gente varre pra baixo do tapete pra esconder da visita. é daquelas histórias que a gente conta como se tivesse acontecido com uma outra pessoa, alguém que a gente conheceu numa outra vida, alguém distante que a gente só vê de longe e aponta e ri, ri desgovernadamente, ri sem nenhum pudor porque é alguém alheio a nós mesmos, alguém que cruzamos na rua e mudamos de calçada, alguém com quem não queremos e não precisamos andar de mãos dadas – isso sim seria um absoluto vexame. mas é, sou eu mesma. essa pessoazinha possível que consigo ser hoje. risível, mas é o que eu tenho pra hoje, então engulo. feito remédio amargo. feito comida que a gente não pode recusar por educação. ou pra não passar fome. mas então dessa vez, só dessa vez, ficamos assim: eu não vou. você continua, vai em frente, vai vivendo, vai até onde tiver que ir, vai até o fim se preciso for e se tiver que ser desse jeito não volte, fique onde sentir que deve ficar, bem longe de mim. já sabemos que assim é que foi feito pra ser, desde sempre. e eu já cansei de brigar com o que foi feito pra ser. *

(* escrito em setembro de 1996)

escorre entre os meus dedos

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e se ao menos eu não tivesse te virado as costas, quem sabe o que poderia ter sido, bonito, inteiro, suave, frenético, uma história cheia de cor e som e fúria, poderia ter sido quase tudo mas não foi coisa nenhuma, porque eu fugi, eu corri, eu fui para outro lado, alucinadamente, como quem teme pela própria vida e de certa forma era isso, eu não queria morrer, e se eu tivesse permanecido, se eu tivesse insistido em estar ali, em olhar tudo aquilo que você queria me mostrar e eu relutava em aceitar que pudesse existir, se eu tivesse esperado um pouco mais, se eu tivesse te abraçado como algo em mim queria e queria tanto eu teria morrido, algo em mim, entende, uma parte minha que pode até não ser tão importante, mas eu ainda a enxergo como se fosse tudo o que eu sou, e por isso tenho medo, é, eu digo em voz alta, foi por medo, paúra mesmo, foi covardia pura e simples, temor daquela coisa nova que se avizinhava e eu não sabia o que seria, e o desconhecido mete medo,  o que a gente não sabe assusta e põe pulgas atrás da orelha e macaquinhos no sótão e aquela coisa toda, e por isso ao invés de ir a gente fica, a gente dá meia volta e se agarra em desespero ao que já conhece, a aquele lugar onde a gente já se sente seguro e protegido, ainda que seja pouco, ainda que não seja nem ao menos bom, meu deus como tem horas na vida em que a gente é covarde e enterra na terra a cabeça feito avestruz ao invés de aceitar que a vida é isso, é abismo, é salto no escuro sem pára-quedas, é queda livre e é frio na barriga, ah se eu tivesse ido ao invés de dar a volta, se eu tivesse espiado lá adiante ao invés de baixar a vista, ah se eu tivesse gritado bem alto fazendo eco ao invés de engolir em seco e em silêncio, ah se eu tivesse estendido a mão e agarrado a sua para não soltar nunca mais ao invés de me encolher num canto e fechar os olhos para não ver você indo, desaparecendo, desistindo, tua sombra ficando pequena, ah, se eu tivesse, teria sido tão bom. poderia. eu acho. quem há de saber?

(* escrito em abril de 2001)

foto: Renata Penna

a casa onde ninguém vai

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é que às vezes eu tenho medo das respostas que a vida me traz. se eu ficar bem quieta e concentrada, se eu prestar atenção, eu sei que a vida me diz. em silêncio e de um jeito que só pra mim há de fazer sentido, ela me diz. diz o que eu preciso saber, nem menos e nem mais, eu sei. ela sempre é desse jeito comigo, certeira. vem devagar, vem serena, passa a mão sobre a minha cabeça e quando estou quase adormecida, ela diz. mas às vezes eu não sei se eu quero saber, é isso: eu não sei se eu quero saber. tem horas que eu penso e fico mesmo na dúvida se eu não prefiro seguir vivendo do jeito que dá, na ignorância passiva, na calmaria bovina, naquela placidez idiota de quem não sabe pra onde vai e nem sabe se vai ou se fica, e nem se incomoda pela falta de mudanças porque nem sabe que podem haver mudanças, periga desconhecer até a palavra e o conceito. no fim, talvez seja mais fácil. menos sofrido. mais confortável. porque eu também tenho medo. entende? eu também tenho medo. não, eu não sou tão forte nem tão segura nem tão sabedora de todas as coisas quando você imagina que eu seja. eu faço parecer, vezemquando. mas na hora do vamos ver, tem um medo aqui dentro, um medo gelado e cheio de dentes. uma paúra, mesmo. são tantas inseguranças, são tantos poréns. são tantas coisinhas miúdas ou nem tão miúdas assim que todos os dias eu varro pra baixo do tapete porque dói, dói demais deixar que elas me peguem no braço. tem horas, eu confesso, que eu só queria passar em branco. só isso e nada mais: passar em branco, despercebida. que olhassem para o outro lado e me deixassem aqui, encolhida nesse canto poeirento onde o medo me alcança. tem dias que tudo o que eu peço quando me levanto da cama é que todos aqueles que por ventura cruzarem o meu caminho estejam distraídos em excesso, que não se dêem conta das minhas pequenas coisas ridículas, das minhas risíveis vergonhas. que as coisas não tenham tanta importância, que não signifiquem tanto. que passem, que me esqueçam. sabe como é? entende do que eu falo? esse instante assombroso em que a gente teme a resposta que a vida pode dar? quando a gente tenta aquietar a pergunta, sussurra baixinho a interrogação que não cala, abraça os joelhos encolhido num canto e até se permite acreditar que talvez, talvez, se pudermos ficar muito quietos, já quase como alguém que morreu e apenas ainda não se deu conta do fato, talvez, quem sabe a resposta não venha. só dessa vez. só por hoje, só por ora. até que amanheça um novo dia e quem sabe alguma coisa boa, alguma alegria por pequena, seja possível de novo. *

( * escrito em setembro de 2000)

foto: Renata Penna

sem mentir pra você

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ando me sentindo muito cansada. cansam-me as coisas mais cotidianas: o barulho repetitivo do farol da esquina de baixo a trocar suas cores, o latido do cachorro do vizinho da esquerda logo pela manhã, os insetos na lâmpada ao cair da noite, o calor excessivo e a chuva fina da madrugada. bem sei que este cansaço nada mais é que reflexo de um outro, mais enraizado e difícil de mensurar: estou cansada de nós. enfadada, mesmo. mas no silêncio dos dias em que como de costume você não me escuta, eu talvez por covardia, autopreservação, piedade, generosidade ou o que seja, direciono o cansaço para todas as outras coisas, pequeninas mas ridícula e tediosamente irritantes. desta forma adio o inevitável, e deixo para amanhã a decisão que não me sinto capaz de tomar hoje. mas confesso: o que me assusta, e por isso procuro mesmo não pensar muito a respeito embora a ideia me persiga e surpreenda nos cantos mais inesperados do dia, angustiosamente, é que enquanto espero, enquanto faço de conta, enquanto desvio a atenção do que realmente é para fingir uma outra coisa qualquer, vou represando o sentimento. e ele, veja bem – além de não ser pouco como os meus nunca são, é também muito misturado, o que o torna um tanto incontrolável e por isso mesmo perigoso: tem algo de raiva, muito amor, alguma decepção e um tanto de desespero, rasgos de desejo e acima de tudo ele, o cansaço. um cansaço cinzento e dolorido. cansaço zombeteiro, a rir-se de mim todas as horas do dia. *

* escrito em dezembro de 2007

foto: Renata Penna

a menina do colégio

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ela se levanta logo cedo, o dia ainda escuro lá fora. e frio. ela detesta frio. e por cima tem sono, quer voltar para a cama mas não pode. lamenta, suspirosa. mecanicamente, ela faz o que tem que ser feito: banho, roupa, escova de dentes, secador de cabelos, sapatos, achocolatado, pão com manteiga, chaves, mochila, fone de ouvido, pé na rua. o vento lhe bate no rosto, ela se amua. não gosta de vento, prefere o sol. caminha até o ponto de ônibus e espera, como todas as manhãs. engole o tédio. a música é boa, e ela se alegra. o ônibus chega, balanço, aperto. o trânsito ruim como todos os dias, a conversa animada das comadres no banco ao lado. a música já mudou, mas ainda é boa e ela se anima. ponto final. a avenida movimentada, o som das buzinas, os semáforos a trocar de cor. o colégio. a roleta de entrada, a caminhada de passos contados até a sala de aula, os alôs mais ou menos entusiasmados. a conversa jogada fora, os rabiscos no canto das folhas, as horas mortas, o intervalo. os diálogos sem interesse, as rodinhas rivais, as risadas vazias e a sala de aula novamente. o sono de volta, o aborrecimento, os olhos que se querem fechar sozinhos sem permissão. o discurso monocórdio do professor, as decorebas inúteis. meio-dia: o ponteiro do relógio, amigo, vem dar o aviso de liberdade. a rua, novamente. o sol a pino, o calor tão desejado. ela fecha os olhos um pouco contente, levanta o rosto em desafio e deixa que o sol ardido lhe queime as bochechas. uma alegria boa. passageira, mas boa. a caminhada até o ponto, novamente as buzinas, o trânsito, a poluição, toda gente apressada, os esbarrões. a espera, e então o ônibus de volta, o sacolejo, a janela engordurada, o cochilo interrompido pelas curvas mais acentuadas, a cabeça pendendo para a frente, em protesto. o ponto da padaria. a rua de casa, a casa. a casa. e amanhã, tudo começa de novo. até quando, meu deus, até quando? *

*adaptado de uma página do diário da menina, escrita em outubro de 1993 / foto: Renata Penna

sem desespero sem tédio sem fim

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e não é que eu não gostasse de você, eu apenas não gostava da pessoa que eu era quando estava com você. porque a nossa mistura não deu em algo muito bom. porque você despertou em mim coisas adormecidas que eu preferiria esquecer – e eu imagino que daí, desse lugar onde você está, não tenha sido muito diferente. a verdade é que nós dois simplesmente não fizemos bem um pro outro, e quando acontece assim é melhor admitir de uma vez, encarar de frente, acertar as contas e seguir adiante, cada um no seu caminho. eu sei que o seu vai ser bonito, porque você tem merecimento. você é uma pessoa boa, tem um bom coração. tem muito a dar e dividir com alguém mais certo, mais afinado. e eu, bem. aqui do meu lado, eu acho que tenho o meu merecimento também. de acertar da próxima vez. de olhar em outros olhos, sentir algo bom e ver uma coisa bonita começando, nascendo, principiando. eu vou atrás disso, porque eu quero muito. e preciso também. *

* escrito em outubro de 1998

do que se tem nas mãos

maosagarrP” – eu não sei o que fazer da tua vida nas minhas mãos.

– e eu não sei o que fazer das minhas mãos, sem a tua vida.” *

‘eu não consigo mais pensar em mim sem pensar em você’, foi o que você me disse, à meia-luz naquela madrugada silenciosa por entre as minhas lágrimas. eu tive medo, entende. tive medo de estar assim com a sua vida nas minhas mãos, achei tão perigoso, tamanha responsabilidade, fiquei quase sufocada. de repente eu quis gritar, quis sair correndo dali e ir para bem longe sem olhar para trás, nunca mais olhar para você e nunca mais me sentir responsável por coisa nenhuma. eu amo você. eu amo muito você. mas às vezes isso não é tudo – e é com o coração dolorido e angustiado que eu digo isso, eu que já fui a criatura mais romântica da face da terra, daquelas pessoas capazes de acreditar em princesas e príncipes e violinos tocando e felizes para sempre. às vezes a vida pede mais, pede diferente. pede que a gente saia e vá para o mundo, mostre a cara, faça coisas diferentes, ria e chore, e depois quem sabe se volta ou quem sabe se não, não há garantias, entende? e é disso que eu tenho medo – porque não sei se não me falta coragem de dar o último passo, não sei se não me acovardo na hora de bater a porta atrás de mim, não sei se me sobra valentia suficiente para colocar os dois pés na rua e ir, ir para tudo isso que eu não sei o que é mas tem me feito tanta falta. e o que mais me exaspera nessa história toda é que tudo dói: ficar dói, seguir adiante dói, virar o rosto dói, fazer de conta que não é dói, deixar para depois dói demais. estou tão perdida, e as tuas palavras que eram para ser uma coisa bonita e doce, tão doce feito um afago no meio do sono sem querer acordar, elas só fizeram mais bagunça aqui dentro, uma algazarra tremenda que agora não me deixa dormir, não me deixa pensar, não me deixa descansar. **

 – escrito há tempos atrás, e é doce olhar com perspectiva e de repente me dar conta de que hoje já não dói, e já não pesa. pra nenhum de nós. que já não dói. –

* trecho de uma peça assistida muito tempo atrás,  não guardei o nome, mas o trecho ficou na memória (ou no coração)

** do arquivo

imagem: Renata Penna