salve linda canção sem esperança

levanto da cama. vagarosamente. em silêncio, mal querendo abrir os olhos. a luz me agride e cega, me cansa e desencoraja. sinto cansaço. muito cansaço. dóem-me os ossos. dói-me a alma. carrego comigo uma tristeza que não sei definir ao certo de onde vem, se vem de fato de algum lugar, ou se apenas se mistura comigo como parte da essência do que tenho para oferecer ao mundo, por ora. esforço-me para encontrar em mim alguma lembrança de como era a vida, antes. anteriormente, quando havia em mim outra coisa que não esse desânimo galopante, essa estafa generalizada, esse desejo obstinado de que tudo seja diferente do que de fato é. é inútil. já não me lembro, não há em mim qualquer reminiscência do que fui antes de me encontrar neste lugar onde estou agora: uma ilha de desalento cercada de fadiga por todos os lados. é como se antes disso, não tivesse mesmo havido coisa alguma. é como se antes de me tornar esse amontoado de abatimentos eu nem ao menos tivesse alguma vez existido. sei que preciso estender a mão. sei que há muito a minha espera. sei que é essencial que eu me reconstrua, que encontre milagrosamente em mim algum resquício de vontade, de coragem, de força motriz. sei que me preciso colocar de pé. encher novamente os pulmões com o ar mais puro que possa encontrar, alimentar-me de alguma esperança e antecipação de melhores tempos, não sei. algo. uma insignificância, uma bobagem qualquer. por minúsculo e risível que possa parecer, como tem me parecido tudo o que se apresenta como possibilidade. sei bem do que preciso. sei bem. só não sei como consegui-lo. por ora, levanto da cama. mal querendo abrir os olhos. aceito a luz e a dor que ela me causa, como aceito todas as outras, porque não há outro caminho senão este. escovo os dentes. tomo banho. dou conta do agora. não penso no depois. apenas o segundo seguinte, e pronto. o resto, depois se vê. a respiração seguinte é o que importa. e depois dela, que haja mais uma. é a que me tenho dedicado, sentindo, da maneira mais sincera e profunda que se pode sentir alguma coisa, que estou fazendo o melhor que posso.

que eu não me esqueça disso: estou fazendo o melhor que posso.

trata-se de livro inacabado porque lhe falta resposta, *

reli agora aquela frase do poeta que dizia ‘do lugar onde estou já fui embora’ ** e pensei comigo, muito embaralhadamente e sem conseguir organizar as ideias de modo adequado que sim, que de algum modo já dei as costas a este lugar tão conhecido, que de alguma maneira já estou dedicada a outras coisas, a outras paisagens, a novas possibilidades, e no entanto há algo em mim que permanece, que não se desprende, um apego que não sei identificar a contento, que não aceita palavra e não admite rodeios, apenas existe e me segura pelo colarinho quando acredito que estou livre, e ato contínuo culpei-me pela incapacidade de seguir adiante de fato, liberta de todas as amarras, olhando apenas para a frente, contemplando o horizonte que me seduz ao longe, creia-me, não há por ora algo que deseje mais do que isto, chegar lá a passos largos, contentes e extasiados, minha alma pede por isso, meu coração anseia, aos pulos, quase sangrando, mas há algo em mim, uma coisa qualquer talvez muito pequena mas nem por isso menos importante, que ainda tem o que fazer aqui, que ainda precisa compreender alguns detalhes, limpar alguns cantos onde ficou poeira daquilo que foi, recolher uns pequenos cacos que insistiram em esconder-se por debaixo dos tapetes, então eu fico, de alguma maneira eu permaneço e me dedico ao menos em parte a terminar o que ainda me exige, a construir tão cuidadosamente quanto possível estes pontos finais, ou pontos e vírgulas, já que adiante continuarei escrevendo, acontecendo, existindo, ao menos é essa a minha esperança, de que lá para a frente, lá onde a vista quer tanto alcançar, eu continue, eu me espalhe novamente, e dance com os braços abertos e as saias rodando ao vento, sorrindo de novo, sobretudo isso, por favor, sobretudo isso: sorrindo de novo.

trecho de ‘A hora da Estrela’, de Clarice Lispector / ** frase de Manoel de Barros

rio e também posso chorar,

ela se achava miúda diante dos outros, diante das coisas, diante da vida e dos sentimentos que eram todos grandes demais, arrebatavam feito onda em mar bravio, derrubando o que havia pela frente, então ela se achava pequena, ela tinha medo e respirava ofegante encolhida no canto, e fechava os olhos apertando com força e repetia para si mesma a oração aprendida com a avó há muito tempo, ensinada para pedir por aquilo que era muito importante e não podia mesmo faltar, e o coração ficava muito acelerado, batia feroz dentro do peito e parecia que ia escapulir pela boca, e ela se sentia assustada, com os pelos do braço arrepiados feito quando a gente sente a presença de alguém que não está ali e nem poderia, ela se sentia frágil, queria colar adesivos do seu lado de fora alertando para quem passasse desavisado que ali havia alguma coisa delicada, algo que ao menor descuido ou manejo desastrado se espatifaria em pedacinhos e não se poderia colar depois, ela sentia vontade de gritar, de gritar bem alto para o mundo todo que não, que não queria mais, que era para parar com aquilo tudo de uma vez, que a brincadeira não tinha mais graça, que ela queria encontrar a saída do labirinto de uma vez por todas, que queria respirar aliviada, enfim ver a luz do lado de fora, ela queria abrir bem os braços e respirar bem fundo como quem alcança a liberdade depois de uma vida inteira de cativeiro, ela queria pisar descalça no chão e nunca mais ter que vestir sapatos, ela queria que o vento lhe bagunçasse os cabelos e lhe soprasse no ouvido um assovio cúmplice, brincalhão, um convite à alegria, um gracejo qualquer. ela queria um espelho, ela precisava olhar e ver. ela queria ser grande por fora, a olhos vistos, do tamanho que ela sabia que era por dentro. ela se achava miúda, grão de milho, poeira carregada no vento, só ela não sabia que de tão grande ela era se via de longe, lá onde ela achava que a vista nem alcançava mas sim, ela podia ver, só faltava ela ver que via.

foto: Renata Penna

certa manhã acordei de sonos intranquilos

foi uma noite estranha, essa. poderia culpar o calor excessivo ou a agitação inesperada antes de deitar, mas a verdade é que a inquietação, longe de estar do lado de fora, repousava em mim, por entre os meus pensamentos. dormi mal, acordei várias vezes ao longo da noite, de sobressalto. tive uns sonhos estranhos, enigmáticos, desconexos. lembrei-me de todos eles ao acordar, às vezes com minuciosos detalhes desconcertantes, mas não conseguia juntar os pedaços, entender onde as coisas começavam e como terminavam, se é que terminavam. penso que despertei de cada um deles eles em meio aos acontecidos, evitando os pontos finais. fiz nos sonhos como tenho tentado fazer na vida: fugi aos encerramentos e às despedidas, furtei-me de dar os adeuses necessários e me escondi pelos cantos, esgueirando, para não ter que lidar com o inevitável. patético, não? sim, bastante. reconheço. de qualquer maneira amanheci, como não podia deixar de fazer nem que quisesse. coloquei os pés para fora da cama e respirei bem fundo, na ânsia de puxar para dentro uma coragem que não me pertencia. mais um dia. vinte e quatro horas ou algo assim – contando que eu durma nem que seja um pouco na próxima noite – para serem meticulosamente desperdiçadas com pensamentos inúteis que, ao findar o dia, me levarão ao mesmo lugar. para quê, eu me pergunto, e não ouço resposta. apenas o meu eco, repetindo a mim mesma infinitamente: para quê. a resposta, quem sabe, será esta mesma. para que. para, que. será isso. talvez. sim.

november rain

chuvahaja alma para tamanho dilúvio. chove lá fora e aqui, inunda. corre-me por dentro um rio de lágrimas, em corredeira, derrubando barragens pelo caminho, serpenteando por entre as pedras ou por cima delas ou apesar delas, e eu tamborilo nervosamente meus dedos no vidro da janela, querendo aquietar alguma coisa que não sei o que é. tantas urgências. e esse desejo de gritar cada uma delas a plenos pulmões, perder de vez a voz, a vergonha e a covardia. chove lá fora e aqui troveja, relampeia, escurece-me o céu do meu lado de dentro e a alma se me revira em princípios de furacão. não sei o que há de restar. não sei o que de mim sobrevive, ao fim de tudo isso. não sei se haverá um fim, ou se será infinitamente apenas isso mesmo: um revolteio constante de intensidades a atirarem-se umas por cima das outras, em rebeldia, enquanto eu. trato de tentar adormecer entre as tempestades. nas breves calmarias, nos respiros transitórios, nos momentos fugidios em que um tímido arco-íris apenas se insinua em um horizonte que eu desejaria alcançar. chove lá fora e aqui, a vida acontece. incessantemente. impiedosamente. impacientemente. uma irrascibilidade de mim para comigo. perco as rédeas daquilo que sou, se é que algum dia as tive. penso que não. o que me habita por dentro irrompe desgovernadamente, feito veículo com freio avariado, feito animal selvagem sem sela e sem arreio. eis o que sou. divido-me: algo em mim vai, rodopia de mãos dadas com o vento, sem medo de perder-se no vendaval; outra parte repousa, encolhida num canto abraçada aos joelhos, chorando baixinho feito criança perdida da mãe. chove lá fora e aqui eu me misturo a mim mesma. ouso perder-me, para me encontrar.

quem diria que viver ia dar nisso

fazendaipanema-109e no que me diz respeito preciso te contar que a vida deste lado do mundo tem sido isso, minha irmã: uma sucessão de dores mais ou menos suportáveis, repetidos sustos de me reconhecer tão risivelmente humana, lágrimas de demasia abafadas no travesseiro, silêncios interrompidos pela urgência do café da manhã ou da ida ao parquinho para distrair as crianças, ligações enfadonhas de gente de que não gosto, cobranças estúpidas que atendo sem saber porquê, prazos inúteis que cumpro mecanicamente, apertos de mão, e ao final de cada dia, a cabeça rodopiando feito roda-gigante e um sem-fim de pensamentos que vão e vêm, para lá e para cá, de um lado a outro, agitando-se freneticamente, trombando uns com os outros pelo caminho, ridiculamente. tão risível, tudo isso. não estivesse você tão longe e nos distrairíamos falaríamos disso madrugada adentro, eu faria pouco das minhas próprias queixas e você me diria coisas ligeiramente sábias enquanto bebêssemos vinho vagabundo, uma taça após à outra, sem sentir o gosto, apenas pela diversão. música ruim ao fundo. cheiro de asfalto molhado. ah, aqueles tempos. tenho tantas saudades. tudo agora é tão outra coisa. às vezes penso que a vida me virou mesmo do avesso e não, eu não descobri que o avesso era o meu lado certo, para ser sincera ainda estou aqui, revirada, confusa, ridícula, sem saber para que lado correr, calculando disfarçadamente uma rota de fuga, olhando-me no espelho sem saber o que dizer a mim mesma. tenho tanto a colocar em palavras, e no entanto elas me faltam. fico calada, patética, lambendo as feridas, a alma encolhida, os braços largados ao longo do corpo, os pés cheios de calos doloridos, tão cansados de procurar a saída deste labirinto que, afinal, sou eu mesma. tudo, tanto, tudo. há tanto tempo não rodopio minhas saias, e gosto tanto de rodopiar minhas saias. não quero ser ingrata: a vida tem me dado muita coisa. e há tanto de bonito. sinto que deveria sorrir e agradecer, mas na maior parte do tempo não sei se rio ou se choro. queria o teu abraço. queria muito o teu abraço. que saudades, minha irmã. que saudades. você me faz muita falta. **

* título: de Caio Fernando Abreu, em carta a Maria Lídia Magliani / ** texto: março de 2006, trecho de mensagem para a amiga distante que já não está mais aqui

a casa onde eu sempre morei

fazendaipanema-287porque eu também sou, em alguma medida, fruto desta dor. em meio dela, eu nasci. e fui existindo da maneira possível, estendendo pelos cantos as minhas mãos desastradas, aprendendo a amar de modo estabanado, por entre os espinhos, por entre as impossibilidades, tateando as belezas que, sim, também existiram e não foram poucas, ou eu não estaria hoje aqui, inteira, com força suficiente para olhar essa história em seus detalhes mais escondidos, buscar compreender o que fomos, e o que fui eu e o que sou. e esta dor, que é e sempre foi minha sem sê-lo, numa misturança de sentires e mundos que caminharam entrelaçados desde o início dos nossos tempos, nas entranhas de uma história escrita estabanadamente, rabiscada e rasurada por entre caminhos e descaminhos, compreendo talvez pela primeira vez: não posso largá-la a meio caminho. não posso virar-lhe as costas como se não me dissesse respeito, não posso abandoná-la como se fosse um saco inútil de bagagem desnecessária, porque não o é: ela também me forma. dela também sou feita, ela repousa em cada molécula daquilo que me coloca de pé, e finalmente o reconheço sem pudor e sem paúra. não porque seja fácil – não é. mas é o que há. é a irrefutável realidade que a vida, ela mesma, despida de subterfúgios, atira-nos ao rosto em desafio: nada se faz sem o seu oposto, nada existe apenas por si sem seu contrário por mais indesejável, e em tudo há mais de um lado. não há alegria sem dor e não há, sem ela, lugar para o amor. eis o que me tem sido fundamental e inevitável acolher como verdade irrecusável: que amar necessariamente dói – não que haja necessariamente a obrigação do sofrimento, mas a dor, ela sim, crua, está e permanece como companheira natural do ato de amar quem quer que seja. porque amamos necessariamente o imperfeito, porque o somos todos, por essência. para além das superficialidades do gostar comezinho que se disfarça como se fosse algo mais sem no entanto sê-lo, amar por inteiro significa abrir-se para a falha do outro, aceitar a falta, a mão estendida sem serventia, a impossibilidade mais absoluta naquele que seria o momento da comunhão, o vazio e o sopro gelado do abandono na hora mais triste. e se falo disso é porque sei bem do que se trata este abandono. sei como é experimentá-lo, sei bem do que nos causa por dentro e das muitas marcas que permanecem, a despeito do tempo, a despeito das distâncias, a despeito das inúmeras e desesperadas tentativas de embrulhar o que já foi e abandonar pelo caminho. mas sei bem também que, da vida que me resta nas mãos, eu decido o que faço. é meu livre arbítrio. minha derradeira libertação. e é isso o que eu escolho fazer: eu amo sem pensar duas vezes. sem pedir desculpas. e sem olhar para trás.

só que outra.

memorialresist_p-1esses dias achei um caderno antigo aqui, um diário de anotações dos meus vinte, vinte e poucos anos. no canto de uma página, um pouco depois da morte da minha avó, a primeira grande perda (mais ou menos) definitiva que experimentei na vida, tem um diálogo rabiscado:

– eu não entendo ainda porque a morte teve que levá-la.
– quem levou ela foi a vida.
– …
– do outro lado da vida, tem mais vida. só de outro jeito. a morte não leva ninguém. quem leva é a vida. só que outra.

eu já não me lembro mais se foi um diálogo inventado. ou se alguém de muita sabedoria e sensibilidade generosamente me disse essas palavras tão certeiras.

eu só sei que faz um sentido danado.

365 dias

fazendaIpanema-245‘deixei que tudo desaparecesse / e perto do fim, não pude mais encontrar / o amor ainda estava lá’ *

sonhei com você essa noite. com você vivo, com você bem. sorrindo. cantando. a última vez fazia tempo. deve ser a proximidade da data – já vai fazer um ano. nessa época, há 365 dias, eu estava às voltas com uma porção de despedidas e últimas chances, à espera do dia em que finalmente eu te diria unilateralmente adeus, de uma vez por todas. era muita coisa junta me atropelando no correr dos dias, era uma dor excruciante como poucas que eu senti na vida – talvez mesmo nenhuma – e eu respirava com muita dificuldade. eu voltava do hospital todos os dias aos prantos, em meio ao trânsito infernal da cidade eu ouvia canções que me lembravam de você, de nós, de tanta coisa. a música sempre foi um elo inquebrantável entre nós dois. a música, que entre a gente dizia tanto. desde muito tempo, numa época em que só nos comunicávamos pelas palavras escritas em papéis amassados que chegavam pelo correio, você gostava de assinar as tuas cartas com trechos das tuas canções favoritas, e eu contigo adquiri o hábito de fazer o mesmo – até hoje, ainda faço.  não escrevo mais cartas, mas mantenho intocado o costume de dedicar trechos de música às pessoas que mais gosto. é uma, das muitas coisas tuas que permaneceram em mim. mas eu falava daqueles dias, em que eu ia e voltava do hospital entre memórias mais ou menos organizadas, saudades difusas e dores quase fatais. aqueles dias em que o peito me doía a cada novo sopro de vida a me encher os pulmões enquanto a sua ia escorrendo pelos dedos, dia após dia, hora após hora, em uma longa e desolada caminhada rumo ao inevitável. todas as noites, lá pelo começo da madrugada, eu abria a janela do apartamento silencioso, onde além de mim todos dormiam, e me sentava no parapeito. puxava bem fundo o ar gelado, de inverno, impiedoso. e ali, numa solidão de dar dó – porque sempre são solitárias as grandes dores, como as grandes alegrias – , eu esgotava as lágrimas do dia. e bem sabia que dali a algumas horas o sol ia aparecer de novo, lá no canto do horizonte. em desafio. e eu ia começar tudo outra vez – aquela montanha-russa de sentimentos e lembranças e culpas e dores e saudades e muito amor. houve dias em que achei que nunca mais ia conseguir parar de chorar. achei mesmo que esse passaria a ser um ritual meu, muito particular, de todas as madrugadas: encostar-me no parapeito da janela, respirar bem fundo, chorar soluçando. mas, sabe. muita coisa aconteceu. enquanto eu segurava na tua mão, nas longas horas que se arrastavam naquele quarto de hospital, entre apitos de aparelhos eletrônicos, vai e vem de enfermeiras e médicos e desenganos de toda sorte, aconteceu quase uma vida inteira. entre as memórias que eu resgatava sozinha, falando contigo sem receber resposta. eu percebi tanta coisa. eu aprendi tanto. sobretudo, aprendi a esquecer. não tudo: aprendi a escolher. a olhar e ver, a saber o que merecia ficar e o que não. a soltar os nós que me prendiam a tantos vazios, a tantas faltas, a tantos desencontros, e deixar ir. e aprendi a lembrar, também. sem medo. a me agarrar sem qualquer pudor às coisas bonitas. que eram tantas. são tantas. um dia você me disse que tinha medo que eu me esquecesse das coisas boas. pois hoje, quando já faz quase um ano que você se despediu dessa vida, abrindo atrás de ti de maneira irreversível a porteira do esquecimento, eu posso te dizer sem gaguejar: eu não me esqueci. eu não vou me esquecer. as coisas boas, as coisas bonitas, as coisas preciosas, todas elas, estão gravadas em mim. na pele. no corpo. na alma. sinto delas o gosto, o cheiro, o toque. eu carrego comigo. eu te carrego comigo. o que havia de ruim, creia-me: dissolveu-se. transmutou-se. será para sempre de algum modo parte daquilo que eu sou e de como cheguei aqui, mas já não há nisso nada que tire a grandeza da experiência, que é linda em suas infinitas nuances, imperfeições, possibilidades. ao fim, fizemos algo importante de tudo o que nos foi dado, e o fizemos da melhor maneira possível. da nossa melhor maneira possível. eu me orgulho disso. eu me orgulho de nós, no final das contas. e hoje, quando me tateio por dentro em busca do que ainda permanece, tenho uma única certeza: o amor ainda está aqui. de tudo, apesar de tudo. dando sentido a tudo. o amor ainda está aqui. e há de ficar, ressoando sempre, teimosamente. como uma velha canção – uma canção pra você viver mais.

( * trecho de ‘Canção pra você viver mais’, de John Ulhoa) 

a nossa casa é onde a gente está

Captura de Tela 2016-06-26 às 23.05.24miseravelmente sozinha. afogada em todas as coisas somente minhas. abastada das minhas idiossincrasias, de tudo aquilo que do meu lado de fora não se pode fazer entender. se grito, é no abismo que minha voz se perde, sem eco, sem nada. por ora, posso contar apenas comigo. estender-me a mão, acolher a mim mesma e ser o colo de que tanto careço. alimentar-me por meus próprios meios e sobreviver sem ajuda, é do que se trata. e devo conseguir. de algum modo que ainda desconheço mas me dedico comprometidamente a descobrir, devo alcançar esta autossuficiência. este existir em mim. ‘tornar-se um mundo para si’. tenho descoberto em mim uma grandeza que desconhecia, um desenrolar-se de múltiplas possibilidades, todas muito interessantes, e diante disso estou fascinada como uma criança que gira avidamente um caleidoscópio, sem tirar os olhos da lente nem por um instante, para evitar o susto de perder um agrupamento único de cores e formas, uma pequena explosão de beleza que não se repetirá jamais, não do mesmo jeito, não exato como acabou de ser. sozinha. inexoravelmente sozinha. de uma solidão inevitável, inalienável. eu disse, no início: miseravelmente sozinha, mas não. corrijo-me, agora. não há nada de miserável em encontrar-me assim, diante de um espelho em que nada mais se reflete além daquilo que é meu. ao contrário: é puro regalo que a vida oferece, por sorte, quase por milagre. e eu lambo os dedos, para sentir-me bem o gosto. experimentar-me sem dividi-lo com quem quer que seja tem sido para mim uma explosão de tudo aquilo que há de mais genuíno na vida: alegria amor susto dor desejo e as outras coisas que não têm nome. seja como for, tudo me transborda. e tudo me cabe. *

(* junho de 2015)

(título: da letra de Arnaldo Antunes)