peixe na boca do crocodilo,

captura-de-tela-2017-02-04-as-14-39-54sinto-me às vezes como uma criança que repete inutilmente e sem dar sinais de cansaço um mesmo pedido, na mesma cadência, sempre com os olhos rasos e a alma desejosa de acreditar, sempre agarrada a um fiapo de esperança de que quem sabe, agora sim aconteça, seja enfim a hora do milagre. e ele nunca vem, o milagre. mesmo assim e contra todas as probabilidades eu desafio o bom senso e sigo pedindo, repetindo, entoando a mesma cantilena de sempre, prometo dar em troca o que não tenho, faço barganhas mentais as mais improváveis, passo ridículo diante de mim mesma mas não me importo, quero apenas ser atendida. que o presente venha repousar sobre as minhas mãos sedentas e que eu possa então finalmente descansar. sentir novamente o coração batendo na cadência esperada, sem tomar-me de assalto e me dar a impressão de que vai sair pela boca ao primeiro descuido. dormir um sono tranquilo, a cabeça bem pousada no travesseiro e um sonho doce que me faça lembrar da criança que já não sou há tanto tempo. ela, que acreditava com facilidade na boniteza das coisas e não esperava o milagre, nem sequer pensava nele, porque ele era tudo o que havia, acontecia apenas, sem esforço. ela, que há tanto tempo era eu. ou quem eu pensava que eu era. estendo as pontas dos dedos, quero tocá-la, quase vejo diante de mim a menina. ela, que desconhecia a brabeza do mundo e era inteira olhos e ouvidos e coração abertos para tudo o que havia. sem medo, que só fui ter medo depois. sem expectativas, que tecer conjecturas sobre o que ainda não havia sido foi coisa que só aprendi mais tarde. sem adivinhamentos inúteis, que a vida toda era um jogo divertido de tentativa e erro, e o erro não era mais que uma esfolada no joelho e a possibilidade de tentar de novo adiante. eu era então apenas leveza, sonho, entrega e maravilhada surpresa. que eu possa, de novo. que eu não seja barreira para mim. o milagre, por favor. estou muito precisada.

do amor táctil

as-ondasli “As ondas” quando tinha dezoito anos. nunca tinha lido Virginia Woolf, pra dizer a verdade nem sabia quem era, só conhecia o nome. cheguei a ele por acaso e até hoje tenho loucura por esse livro. depois li Orlando, Mrs Dalloway, Flush, Rumo ao farol e Os anos, nessa ordem, mas nenhum deles me arrebatou como aquela primeira leitura. um dos livros da minha vida.

eu tinha emprestado sem saber a quem, alguns anos atrás. me contorcia de saudades toda vez que por algum motivo lembrava do livro, querendo folhear de novo as páginas amareladas (comprei em sebo, numa portinhola da Liberdade), rever os trechos sublinhados (sou dessas), reler umas partes sem respeitar a ordem das páginas (adoro).

ontem troquei umas mensagens com uma amiga que há tempos não via, entre umas e outras ela me solta “tô com uma coisa tua, amanhã vou pelo centro, te deixo aí, passa o endereço”.

cheguei da rua hoje, pense numa alegria. embrulhadinho em papel colorido. como se fosse presente. e era.

‘livros são objetos transcedentes
nós podemos amá-los do amor táctil’ *

sim.

(*do Caetano)

e há tempos são os jovens que adoecem

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eu escrevi o texto abaixo (a citação inclusa) aos quinze anos. lá se vão mais de vinte, e é sempre um espanto deparar-me com a menina que eu fui, toda emaranhada em suas caraminholices angustiadas, toda em carne viva, como eu nunca deixaria de ser. o colorido-dolorido, paradoxo perdido na espuma cotidiana dos dias, dualidade que aprendi a saborear. ah, essa menina. há tanto de mim nela, e há tanto dela em mim. ela, que naquele tempo era eu. ou quem eu achava que eu era. puxa. que coisa maluca-assustadora-maravilhosa é o tempo, e a gente enroscada nele.

‘parece cocaína mas é só tristeza’ *

eu sei que as coisas às vezes parecem maiores do que são na verdade, e eu sei que tudo parece pior num dia cinza em que o sol não aparece, e eu sei que eu estou cansada e dormi mal ontem à noite e quando eu durmo mal a vida parece um emaranhado bem mais insuportável do que talvez seja, eu sei sim eu sei, mas eu não consigo evitar, eu me pergunto se há de ser sempre assim, entende? tão solitário, tão vazio. as palavras ditas na frente do espelho. as mãos frias. o sinal da esquina trocando as cores, o tic tac do relógio, as horas passando, mais um dia chegando ao fim, a noite silenciosa e no meio de tudo, eu. uma ilha, cercada de silêncio por todos os lados. às vezes me bate um desespero, sabe. uma vontade de gritar, bem alto. sem medo, sem vergonha. escandalosamente, mesmo. mas no segundo seguinte já me sinto ridícula, porque sei que é inútil. não há ninguém – ninguém ouve, ninguém vê, ninguém entende e ninguém virá. um oceano de distância, toda uma vida. eu escrevo. escrevo muito. furiosamente, até começarem a me doer os dedos e eu sentir a vista cansada e as palavras começarem a se embaralhar e eu não aguentar mais e então eu me jogo na cama, fico olhando para o teto. esperando sem saber o quê. eu acho muito, esse cansaço todo para os meus quinze anos. sei lá. de algum jeito, não parece ser certo. dizem que as coisas mudam, dizem que tudo melhora, dizem que é só uma fase difícil. eu não sei. eu quero acreditar, sabe. preciso muito acreditar. e me agarro a essa possibilidade como se fosse uma tábua de salvação, mas lá no fundo, o medo persiste, igualzinho, sem tirar nem por. o medo de que seja assim para sempre. para sempre – tão definitivo, isso. o medo de que o amanhã seja sempre igual ao hoje. as mesmas palavras que eu não digo. o mesmo abismo entre eu e os outros. o mesmo arrepio de desânimo na base da nuca. o mesmo sorriso amarelo escondendo a vontade de enfiar a cabeça na terra feito avestruz. a mesma falta de vontade de sair de casa. a mesma lágrima escorrendo silenciosa. o mesmo buraco no peito. tudo assim, tão eu. eu mesma. porque é isso, mudam os dias, passam as horas, as coisas se reorganizam do lado de fora, mas eu. eu sou sempre eu mesma, eu não consigo me evitar. e às vezes eu penso que isso deve ser o mais bonito de tudo, que eu seja sempre eu mesma, igual a ninguém, e que isso é o que vai valer a pena no fim das contas, mas esse fim não chega, esse fim demora. e até lá, eu não sei o que fazer de mim. eu-não-sei. **

* Renato Russo, em ‘Há tempos’/ ** outubro de 1993

quem diria que viver ia dar nisso

fazendaipanema-109e no que me diz respeito preciso te contar que a vida deste lado do mundo tem sido isso, minha irmã: uma sucessão de dores mais ou menos suportáveis, repetidos sustos de me reconhecer tão risivelmente humana, lágrimas de demasia abafadas no travesseiro, silêncios interrompidos pela urgência do café da manhã ou da ida ao parquinho para distrair as crianças, ligações enfadonhas de gente de que não gosto, cobranças estúpidas que atendo sem saber porquê, prazos inúteis que cumpro mecanicamente, apertos de mão, e ao final de cada dia, a cabeça rodopiando feito roda-gigante e um sem-fim de pensamentos que vão e vêm, para lá e para cá, de um lado a outro, agitando-se freneticamente, trombando uns com os outros pelo caminho, ridiculamente. tão risível, tudo isso. não estivesse você tão longe e nos distrairíamos falaríamos disso madrugada adentro, eu faria pouco das minhas próprias queixas e você me diria coisas ligeiramente sábias enquanto bebêssemos vinho vagabundo, uma taça após à outra, sem sentir o gosto, apenas pela diversão. música ruim ao fundo. cheiro de asfalto molhado. ah, aqueles tempos. tenho tantas saudades. tudo agora é tão outra coisa. às vezes penso que a vida me virou mesmo do avesso e não, eu não descobri que o avesso era o meu lado certo, para ser sincera ainda estou aqui, revirada, confusa, ridícula, sem saber para que lado correr, calculando disfarçadamente uma rota de fuga, olhando-me no espelho sem saber o que dizer a mim mesma. tenho tanto a colocar em palavras, e no entanto elas me faltam. fico calada, patética, lambendo as feridas, a alma encolhida, os braços largados ao longo do corpo, os pés cheios de calos doloridos, tão cansados de procurar a saída deste labirinto que, afinal, sou eu mesma. tudo, tanto, tudo. há tanto tempo não rodopio minhas saias, e gosto tanto de rodopiar minhas saias. não quero ser ingrata: a vida tem me dado muita coisa. e há tanto de bonito. sinto que deveria sorrir e agradecer, mas na maior parte do tempo não sei se rio ou se choro. queria o teu abraço. queria muito o teu abraço. que saudades, minha irmã. que saudades. você me faz muita falta. **

* título: de Caio Fernando Abreu, em carta a Maria Lídia Magliani / ** texto: março de 2006, trecho de mensagem para a amiga distante que já não está mais aqui

das despedidas

querid@s,

ontem à noite meu pai se despediu de seu corpo, desta vida e deste plano, depois de um longo período de agonia no hospital.

agradeço a todos os amigos que estiveram comigo, oferecendo colo, carinho, escuta e amparo nesses tempos doloridos. agradeço a todos que compartilharam conosco a hora do adeus, numa celebração leve, alegre e feita de amor e amizade, como teria sido da vontade dele. agradeço a todos que, mesmo de longe, não podendo estar fisicamente presentes, mandaram boas energias e palavras de acolhimento. agradeço a todos que, mesmo sem saber exatamente o que estava acontecendo, emanaram boas vibrações de luz e paz, ao perceber que algo não andava bem.

a despedida nunca é fácil, e a gente nunca se prepara o suficiente. é sempre cedo demais.

estou hoje afogada nos meus adeuses, acolhendo a dor e agarrada à esperança de que ela logo há de se transformar em gratidão e saudade. sobretudo, alimento-me agora mais do que nunca do amor por esse cara tão cheio de virtudes, tão cheio de defeitos – como somos todos-, com quem tive uma história conturbada, cheia de idas e vindas, mas sempre marcada pelas tentativas constantes de estar junto da maneira possível, fazendo da mistura de nós dois o melhor que podia ser.

‘e quando a vida dói,
eu procuro me concentrar
num caminho fácil’

pai,

me despedir de você foi a coisa mais difícil que eu já fiz na vida. doeu muito. está doendo muito. e ainda há de doer, por um tempo, e tudo bem. eu aceito, e agradeço por poder sentir.

no último mês, entre visitas ao hospital e expectativas constantes da despedida, sonhei muito com você. nos meus sonhos, éramos sempre quem fomos: você ainda o sujeito de olhar malandro, sorriso largo e riso inconveniente, que se recusava a levar a sério o que quer que fosse; eu, ainda a menina encabulada de dez anos que encostava a cabeça no teu colo e te ouvia cantar gatinha manhosa, fazendo de conta que não sabia que aquela canção não tinha sido escrita pra ela.

essa menina de dez anos te amava com toda a força da sua inocência.

em algum lugar dentro de mim, eu vou ser sempre aquela menina de dez anos. e é nesse lugar que você vai viver comigo pra sempre.

‘vai com os anjos, vai em paz’

te amo.

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da lama ao caos do caos à lama

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de todas as vezes que eu sonhei com você e acordei no meio da noite com o pescoço empapado de suor e o coração palpitando acelerado e o teu gosto ainda esquecido por entre os cantos da minha boca, de todas as vezes que você veio invadir o meu sono sem pedir licença para bagunçar os meus sentimentos já não muito ordenados – foram muitas as vezes -, terá sido esta talvez a mais romântica num sentido estrito, a mais parecida com um filmeco de hollywood, daqueles mamão-com-açúcar, daqueles bem previsíveis e bobinhos que você detestaria e acharia risíveis e torceria o nariz da primeira à última cena, com aquele ar blasé que eu conheço também (e amo, amo, sim, como dizer que não). irônico, eu sei. eu e você, e essa nossa história que mais parece saída de um roteiro felliniano, e de repente no mundo encantado dos sonhos onde tudo se torna possível (permita-me flertar com o inimaginável apenas por ora), nós dois assim: moço e moça, príncipe e donzela e aquela babaquice toda com violinos tocando, cabelos ao vento e uma ponte qualquer iluminada ao fundo (sempre há uma ponte iluminada ao fundo, repare, a metáfora mais desbotada de todos os tempos e ainda assim continuam a repisá-la, os putos). sim, eu sei que voluntariamente você se recusaria a participar de uma farsa desta magnitude, gargalharia sem pensar duas vezes para depois dar de ombros e sair caminhando em sentido contrário sem considerar o estrago que sua recusa faria naquela criatura patética de mão estendida e olhar apaixonado (sim, esta sou eu, no sonho como na vida). mas esta é a beleza da coisa, note: eu não preciso te pedir permissão. não me faz falta a tua anuência e ao menos no meu sonho, você me pertence. inteiro, e sem ressalvas. o meu olhar é o que te define, e eu faço de ti aquilo que me convém. você é, por ora, príncipe. de cavalo branco e tudo, bem daquele jeito que te faria contorcer de desgosto. esta, a minha vingança. um oferecimento da casa. *

(* escrito em janeiro de 1999)

eu já sei o que eu vou ser quando eu crescer

adalbertolandiaP-27em criança, eu quando tinha medo puxava os cobertores até cobrir-me a cabeça e chorava baixinho, abafando os soluços no travesseiro para não acordar meu irmão, que adormecido silenciava na cama logo acima de mim – da magia dos beliches, todo um mundo de misturas sentimento-verticais. hoje, já adulta, durmo em uma cama enorme com companhia, sinto-me sufocada pelos cobertores e já não cubro com eles a cabeça e nem os medos, que choro alto, para quem quiser ouvir. choro ganindo, como cachorro filhote abandonado pela mãe na rua deserta em meio aos perigos do trânsito de uma cidade grande demais. choro alto, porque há o direito ao grito. e porque não posso permitir que me tirem este direito. e, em meio ao pranto, com as bochechas lavadas de água salgada, pego o meu medo por entre as mãos, para que ele não cresça demasiado nem se apodere daquilo que sou por dentro, para que não se adone das coisas que são minhas, para que não aquiete as minhas belezas, os meus desejos, aquelas valentias que cultivo desde menina e me são por isso bem preciosas. em criança, eu achava que crescer dava jeito em tudo e por isso ansiava o dia em que, por ser grande, eu não teria mais medo. uma inocência que a vida me forçou a perder, mas de um modo que acho bonito: já adulta eu ainda tenho medo, mas já não há em mim o medo do medo do medo. nomeio as minhas paúras e delas não me escondo, ao contrário: procuro conhecê-las, investigá-las. elas têm cheiro, têm gosto, têm tato. algumas delas ficam ridículas, à luz do dia. outras quase querem sorrir-me, como se fossem amigas – de algum modo são: estendem por trás de mim seus braços longos, a empurrar-me adiante. este o meu ganho: aprendi a conviver. a estar com medo e prosseguir. apesar de, ou por isso mesmo. talvez a isso é que se chame coragem. eu acho que sim.

nome próprio

adalbertolandiaP-55e lá se vai um aninho cheio de bicos. de pontas, de reentrâncias. o que ele fez de mim e o que fiz do que foi feito de mim está aqui, posso tocar com as mãos e vejo com detalhes diante do espelho: 2014 me empurrou da beira do precipício, matou-me as certezas e tirou-me da zona de conforto, jogou os meus medos todos bem aos meus pés e obrigou a olhar para eles, apertar entre os dedos, mastigar entre os dentes, engolir e aceitar entre as entranhas, como parte daquilo que eu precisava construir para mim, dali por diante. em 2014 eu cresci. não sei se posso dizer que ‘cresci como nunca’ – outros anos houveram na minha história que me fizeram crescer também um bocado, pela dor e pelo amor. mas 2014 foi impiedoso comigo. não me deixou fazer pausas, parar para respirar, para tomar fôlego. fez-me, dia após dia, de sol a sol seguir adiante, e adiante, e adiante. em 2014 eu mergulhei de cabeça e sem rede de proteção naquilo que era novo, no que vinha me espreitando por trás do muro, na esquina, ali onde eu ainda não havia ainda ousado colocar os pés. em 2014 eu abri mão daquilo que vinha pesando, do que já não fazia mais sentido, daquilo que há muito tinha deixado de ser, de respirar, de existir em mim como coisa viva, mas cuja morte eu ainda não tinha tido coragem suficiente para declarar em voz alta e então com as mãos sujas de terra e o suor escorrendo pela testa, enterrar definitivamente a sete palmos. em 2014 essa coragem se fez presente, e ela veio grande, veio definitiva. cortei os laços que há muito haviam virado nós de marinheiro que me impediam caminhar. disse os nãos que a vida vinha me pedindo para dizer com todas as letras e a recompensa veio na mesma medida: um sim grandioso de portas abertas e janelas também, de sol a se enfiar pelos cantos. e de um caminho bonito para caminhar, com um horizonte convidativo lá adiante. a vida me sorriu esse ano, sorriu sim. à moda dela, arreganhando os dentes e gargalhando com desafino, mas me sorriu e me tirou pra dançar no meio do salão, assim sem preparo, de susto. e eu fui. o coração quase que me sai pela boca, mas eu fui. enfiei o medo no bolso, e fui. fiz troça das minhas vergonhas, fiz pouco dos meus achados de não poder e fui.

2014, o ano do mergulho. de cair com a cara no chão, ralar o nariz, esfolar os joelhos. e levantar, botar um band-aid e continuar. em 2014 eu perdi umas inocências que a vida me arrancou sem piedade, jogando na cara a verdade crua, nua, irrecusável. e aí eu tomei a decisão que foi uma das mais difíceis dos últimos tempos: encerrar uma parceria profissional que eu acreditava que fazia parte daquilo que eu era. não fazia. não faz.

com a parceria profissional, lá se foi uma amizade – ou o que eu achava que era uma amizade. não era. e lá se foi, e virou luto pra depois virar nada. poeira na estrada. e eu vi o gosto bom que tinha essa coisa da gente nomear o vazio pelo que ele é: vazio. ele perde a grandeza e vira sopro. desaparece assim, num estalo. como se nunca tivesse sido.

em 2014 eu tirei um peso dos ombros e desamarrei as mãos, soltei as âncoras. e como foi bom estar livre, sentir o vento batendo no rosto e saber que dali pra frente, era comigo e só. não tinha mais muleta nenhuma para me apoiar o braço. e olha, eu andei tão melhor sem as muletas que me perguntei porque foi que eu demorei tanto a querer andar com os meus próprios pés.

olhar-me nos olhos, pelo lado de dentro e dizer em voz alta: é por aqui que eu vou. é aqui que se encontra aquilo em que eu acredito. e eu acredito. e o que a gente acredita, a gente não vende, nem troca, nem passa recibo. vida não é matéria da gente barganhar.

em 2014 teve muita paixão. teve luta. teve bandeira erguida por cima dos ombros, teve bloco na rua, palavra de ordem, coração latejando de esperança, teve grito de vitória por entre as lágrimas e o exagero de querer e acreditar e ter fé.

em 2014 teve amor, muito amor. e delicadeza também. e silêncio de olhar o outro, de acarinhar os cabelos, teve cafuné e cançãozinha de ninar com a voz embargada, daquele querer bem que transborda do peito e toma conta de tudo.

2014 me sacolejou, sacudiu pelos ombros e me colocou diante do espelho como quem diz: ‘entrega e confia, tu é grande’. e eu juntei a coragem que encontrei pelos meus cantos, fingi aquela que eu ainda não tinha, e fui ser grande. gente grande, de alma grande, de grandes sonhos, de desejo infinito e vontade teimosa e caminho comprido diante dos pés. e eu ainda estou caminhando. e cantando.

2014 me trouxe aqui assim: com nome próprio.

viver, amar, valeu.

2015: que seja doce.

e porque o amor me escolheu

BeFunky_eucomfilhotaspacaCTjpgessa noite, foi assim: eu chorei de saudades. vocês dormindo no quarto ao lado, entre sonhos e lençóis amarfanhados, e eu agarrada ao travesseiro, pranteando um choro miúdo, agarrado na garganta, cheio de pequenos soluços. porque o tempo vem passando depressa demais. porque vocês têm crescido numa velocidade desconcertante, porque tudo o que já fomos vai ficando pra trás sem cerimônia e eu fico sozinha com este aperto no peito, com estes desejos de agarrar as horas, os dias, os meses, os anos. pegar o tempo pelo colarinho e fazer ele se aquietar um pouco, ralentar a cadência, demorar-se pelos cantos enquanto a gente se enamora de cada instante bonito – porque todos os insantes que a gente passa juntas são tão bonitos, todos. eu tenho aprendido muito com vocês que o amor é isso, é estar presente e inteiro diante do outro e de boca aberta engolir o que vier, não negar-se ao que dói nem ao que ilumina a gente pelo lado de dentro, encarar tudo o que é vivo com valentia, agarrando a vida à unha, sem encolhimento. e no que eu sou hoje que é tão diferente do que já fui, tem tanto daquilo que vocês fizeram de mim, sem esforço e pelo simples ato de existir no mundo, de me pegar na mão, de dizer uma palavra qualquer enquanto sorriem aquele sorriso comprido de uma orelha à outra. e eu gosto tanto tanto de ser hoje assim diferente do que já fui, eu gosto tanto desse emaranhado de coisas doces e inteiras e delicadas e fortes que vocês apontaram pra mim e seguem apontando, todos os dias quando a gente sai e pisa o chão e encara a barra de viver, e a boniteza também, e assim: juntas. e tudo isso é tanto que eu queria mais, eu queria de novo, eu queria por um tempo indefinido e bem esticado, eu queria pegar cada minuto e embrulhar com papel brilhante e guardar no fundo do armário ao abrigo da luz para não estragar, eu queria economizar para comer depois como a gente faz quando tem nas mãos o doce favorito, eu queria me empanturrar daquilo que já se foi e lamber os dedos mastigando a saudade, essa que dói lá bem do lado de dentro porque a vida é depressa demais. eu não sei se faz algum sentido, esse labirinto de palavras e sentires e olhares desaguados de uma vez só nessa carta – será isso uma carta? – escrita de modo tão caótico, mas no fim o que eu queria dizer era simples, era comezinho, e no entanto era o mundo inteiro, era o meu mundo inteiro: eu não sei quanto o mundo é bom, mas ele é melhor desde que vocês respiraram pela primeira vez. e eu sou também.

feche a porta. e apague a luz.

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foto: Renata Penna

eu não vou correr atrás de você. só dessa vez. só por hoje, eu não. porque tá ficando tedioso isso, sabe. todas as vezes. você vai, e eu atrás. e o gosto do sal me correndo pelas bochechas. e a quentura me subindo pra face quando você se vira pra constatar aquilo que já sabia: eu ali, idiota, pedinte, ridícula, de mãos estendidas, de coração em pedaços, de orgulho no chão. não é nada bonito, eu sei. não é nada que eu possa colocar no currículo e vá depor a meu favor, ou que vá compor a minha lista de grandes realizações num futuro próximo, muito pelo contrário. é daquelas vergonhazinhas que a gente varre pra baixo do tapete pra esconder da visita. é daquelas histórias que a gente conta como se tivesse acontecido com uma outra pessoa, alguém que a gente conheceu numa outra vida, alguém distante que a gente só vê de longe e aponta e ri, ri desgovernadamente, ri sem nenhum pudor porque é alguém alheio a nós mesmos, alguém que cruzamos na rua e mudamos de calçada, alguém com quem não queremos e não precisamos andar de mãos dadas – isso sim seria um absoluto vexame. mas é, sou eu mesma. essa pessoazinha possível que consigo ser hoje. risível, mas é o que eu tenho pra hoje, então engulo. feito remédio amargo. feito comida que a gente não pode recusar por educação. ou pra não passar fome. mas então dessa vez, só dessa vez, ficamos assim: eu não vou. você continua, vai em frente, vai vivendo, vai até onde tiver que ir, vai até o fim se preciso for e se tiver que ser desse jeito não volte, fique onde sentir que deve ficar, bem longe de mim. já sabemos que assim é que foi feito pra ser, desde sempre. e eu já cansei de brigar com o que foi feito pra ser. *

(* escrito em setembro de 1996)