I saw the sign

sem saída de emergência. sem escapatória. sem solução. sem rota de fuga. sem luz no fim do túnel. sem colete salva-vidas. sem palavra de segurança. sem fôlego.

estou respirando dentro de um saco de papel, o ar escapando dos pulmões mais rapidamente do que consigo contê-lo, as pernas começando a formigar, uma sensação acachapante de que estou me perdendo de mim, de que meu corpo está desistindo de me acompanhar nesta jornada que tem se revelado a cada dia mais extenuante, mais desafiadora, mais impossível. o coração pulula dentro do peito, como se quisesse escapar para longe, refugiar-se em um abrigo qualquer, em um recanto mais acolhedor, um canto seguro sem tantos perigos, sem tantas ameaças. sem tantas dores. sem tantas paúras. mas ele está preso a mim como eu a ele, condenamo-nos um ao outro quando nascemos, reféns de uma mesma alma que sente demais, deseja demais, entrega demais e nunca sabe quando parar – ao contrário, escorrega sempre ladeira abaixo sem freio de mão, em irresponsável velocidade, para ao final da descida esborrachar-se no chão e quedar-se ali, sangrando, entre lágrimas e algum arrependimento, mas pouco, nunca o suficiente para que não venha a lançar-se de novo na mesma empreitada suicida tão logo cicatrizem-se as feridas da última queda – e às vezes antes disso. vertiginosamente, destemidamente, desajuizadamente. assim.

e eu? aos tropeços, sôfrega, faço o possível e dou de mim o que tenho e o que não, na tentativa de acompanhá-la a contento, existindo como me pede. há tempos em que consigo fazê-lo, heróica e estoicamente. mas de tempos em tempos, os tempos são outros. tempos em que me arrasto ao chão, esfolada e sangrando, esvaída em lamentos sem conseguir corresponder ao que me exige. estas são as horas – assombrosas horas – em que a desistência me ronda. o abandono de tudo, o despregar-se da vida, do sopro vital, do desejo, da continuidade, de tudo.

(o texto é de 2018, o sentimento é intermitente)

nós que aqui estamos,

porque parece tudo tão estúpido, sabe. quanto mais eu penso, mais eu chego à mesma conclusão: somos ridículos, insignificantes, poeira cósmica em um infinito de espaço e tempo que jamais alcançaremos compreender por inteiro, e todas as coisas que nos parecem tão grandiosas e importantes e definitivas não passam de irrelevância. mas e aí, entende? o que é que muda? porque deveria mudar alguma coisa. essa consciência aguda da nossa insignificância diante do imenso do universo deveria fazer alguma diferença, mudar a nossa maneira de compreender o mundo, de lidar com a vida, sei lá. mas no fim fica tudo do mesmo jeito. e dói igual. sufoca na mesma intensidade, e o aperto no peito continua insuportável. e então. para onde vamos? a mesma solidão de merda, o mesmo vazio debaixo dos pés. o abismo. a falta. os nãos todos com que a vida nos presenteia, rindo-se da nossa incapacidade de dar a volta, simplesmente. seguir por ali e não por aqui. cara, como estou cansada. é tudo muito, sabe? e de repente, aquela vontade. um desejo infantil de viver as coisas sem me importar tanto, sem que tudo signifique. por que diabos tudo tem que significar alguma coisa? por que é que a gente não pode descartar as experiências feito papel de bala, feito semente da fruta, feito espinha do peixe. por que é que tudo tem que continuar doendo tanto e tão agudo, mesmo depois que acabou? e por que é que tudo demora tanto pra acabar? bem, não tudo, é verdade. mas algumas coisas. as mais doloridas. estendem-se infinito, agarrando-se às nossas entranhas, sem querer ir embora. adiam o adeus, e a gente ali. sangrando. chorando. caminhando. sei lá. essa lua, essa noite fria. esse silêncio, a rua vazia. as saudades de tudo. ah, o tempo em que eu era aquela que já não sou mais, ou talvez eu nunca tenha sido. poeira cósmica. que coisa ridícula.

a menina submersa

‘quando sinto no pescoço um nó vem o vento e me sopra eu sou pó’ *

eu não devia ter saído de casa

eu não devia ter levantado da cama

eu nem devia ter começado

o que diabos eu estava pensando

inspira. expira. inspira. expira. ponto fixo no teto. aquela mancha ali, de umidade. vai servir. inspira. expira. de um até mil. começa e não para. inspira. expira. não perde o ponto. a cabeça, eu sei. ela quer te dominar. tanta coisa pra pensar. tanta coisa ruim acontecendo. tudo desmoronando. o ponto, cadê? ali, bem ali. não vai sair dali. inspira, expira. em que número estava? oitenta e dois? cento e vinte e um? começa de novo. de um a mil. concentra. é simples. não parece. tá. inspira. expira. dói. eu sei. da cabeça aos pés, todos os lugares. tem lugares novos que só agora você descobriu que existem porque eles doem e pesam de um jeito que não é possível ignorar. o ponto, o ponto. faz um esforço. inspira. expira. breath in, breath out. aquela canção. aquele tempo. essa saudade. quando tudo era simples. ou você achava que era simples. besteira. doía do mesmo jeito. as pequenas coisas. bull shit. o passado, essa entidade santificada. tudo mentira. conto da carochinha. pra boi dormir. duzentos e vinte e quatro? do zero, de novo. é o que tem pra hoje. inspira. expira. lá vem. a taquicardia. a falta de ar. concentra. esse medo filho da puta, eu sei. pára. pensa. o que de pior pode acontecer? se você morrer agora, se parar de respirar, se o coração parar de bater. não sei. talvez seja uma saída fácil. você não teria que mover uma palha, não teria que dar um passo, e ainda assim. ponto final. esquece. não é pra ser fácil. inspira. expira. um café preto, pra começar. se ao menos você tomasse café. um cigarro. uma bebida forte. com tantos sentimentos deve ter algum que sirva. o ponto. sei lá. a vida continua, sabe. lá fora. o sol nasce todos os dias. as folhas ainda caem ao chão porque o outono sempre vem depois do verão, as pessoas acordam de manhã, saem pra trabalhar, pegam os filhos no colo, choram no cinema, dividem uma pizza e voltam pra casa pra começar tudo de novo. é simples, sabe. talvez. pode ser. poderia. só não pra você, mas mesmo assim. que diferença isso faz? uma gota no oceano, lembra. grão de areia. poeira no espaço. dust in the wind. todos nós. do pó, ao pó. concentra nisso aí. talvez seja melhor do que o ponto de umidade no teto. eu acho que sim. esquece o ponto. foca nisso aí. dust in the wind. todos. nós. todos. nós. inspira. expira. um. dois. três. até mil.

 

e o sonho fatalmente viraria pesadelo,

captura-de-tela-2017-01-16-as-10-19-34inclinou-se para fora do carro e no movimento pisou sem intenção a poça de água da soleira da rua e molhou as pontas dos dedos, ideia estúpida sair de sandálias, desnudar os pés estando a alma já tão em carne viva, desproteger o resto do corpo desnecessariamente parecia uma tolice inaceitável, ingenuidade de quem vive sem cautela e sem medir as dores para que não transbordem enquanto se olha para o outro lado, de quem se dá ao acaso distraidamente e por isso padece, deitou para trás o pescoço procurando enxergar o sol, semi cerrou os olhos instintivamente, o céu branco, que dia branco meu deus, chegava a ser crueldade tamanha brancura do lado de fora e o cinza desbotado lhe corroendo por dentro, empurrou de volta a porta pesada em um esforço dolorido para em seguida assistir o arranque do veículo em um guincho de animal sacrificado e então ali estava, parada no meio da rua atrapalhando a passagem, desequilibrando-se a cada esbarrão apressado que lhe castigava a inércia, foi difícil dar o primeiro passo porque ela o temia como se fosse o princípio de algo novo que já sabia que não seria alegre, nem suave, nem bom, sentia-se muito cansada, como se o diálogo que travara há pouco afundada no banco do carona lhe tivesse consumido uma a uma todas as reservas de energia, de esperança, de sentimento, de tudo, ainda assim conseguiu caminhar uma quadra, o que já foi muito, e logo estancou sem ar, a respiração difícil, o nó na garganta, pensou que poderia morrer ali, precisamente ali, naquela esquina, por entre os passantes, recostada no muro pichado, abandonada no asfalto engordurado, bem perto da lixeira, jogada fora, olhou para um lado e para o outro e não reconheceu coisa nenhuma, não sabia onde estava nem para onde deveria ir, não reconhecia aquela rua, nem aquele espaço, nem aquele tempo, não reconhecia aquele dia, aquela hora, aquela não era a vida que havia se disposto a viver, aqueles não tinham sido os seus planos, havia sido cruelmente enganada e se naquele exato momento tivesse ao alcance da mão um espelho certamente não veria nele o reflexo da pessoa que um dia pensara ter sido, pensou então em ir para um lado, depois para o outro, pensou apenas seguir em frente mas não soube escolher como não soubera nunca, todos os caminhos pareciam escuros e desconhecidos, ameaçadores como era a vida e como prometia ser dali por diante, ameaçadora e fria, vivida solitariamente e sem muletas, encolheu-se lentamente junto à soleira de um estabelecimento qualquer que se encontrava fechado como todo o resto, como a porta da felicidade se é que havia uma, se é que isso existia, recostou-se e chorou baixinho para não chamar a atenção (porque há estes momentos em que só o que se pode suportar é o anonimato, tudo o mais exagera).

e sem nós dois o que resta sou eu

captura-de-tela-2017-01-12-as-21-25-38já não sei bem o que é. se é dor, saudade, tristeza ou uma mistura irreconhecível de cada uma dessas coisas que ao final de cada dia se me acomodam no peito e impedem respirar adequadamente. puxo o ar com dificuldade e inspiro curtas quantidades, como se meus pulmões fossem incapazes de suportar o exagero de uma respiração profunda, corajosa e destemida. não me sinto destemida. ao contrário, tenho me sentido ridiculamente encolhida diante da vida, ao menos nas horas mais avançadas da noite, quando o silêncio toma conta de tudo. tem havido muito disto, dentro e fora de mim: silêncio. mas não o silêncio amigável de mãos dadas com as minhas intensidades a dizer-me em sua quietude exato o que preciso escutar, não o silêncio que tive por companheiro desde a mais afastada meninice e que me permite uma inteireza que poucas vezes consigo quando não está e não estamos, não. este silêncio de agora é outro, a enfiar-se por todos os cantos, provocativo, a cutucar-me as entranhas. estico-lhe as mãos e me ponho a investigá-lo com as pontas dos dedos, ele é áspero e suas pontas me ferem, fazendo pequenos cortes que sangram aos poucos e demoram muito a cicatrizar. estamos sós, eu e ele. ele, que também me pertence. ele, que sem palavra e sorrateiramente diz tanto sobre quem eu sou e quem tenho sido. ele que me desvenda, sem piedade, rindo-se sadicamente das minhas lágrimas. penso: uma coisa de cada vez. concentro-me em aceitá-lo apenas hoje sem tanta paúra: se conseguir fazê-lo, ao findar o dia terei alcançado uma grande vitória, um passo gigantesco nesta caminhada que está longe do fim, bem sei. quero abraçar este silêncio e também acarinhá-lo como um amigo querido, coisa que todos os silêncios que me visitam têm sido sempre, desde quando já nem me lembro. se estamos e estaremos juntos, que seja isso também uma coisa bonita, leve, mãos dadas e tudo, como estou acostumada, a leveza mesmo na dor. daquele amor que a gente recupera, para além do véu das agonias excruciantes. quero um silêncio bonito e doce de novo. sim, isso: que seja doce. de novo.

é assim como uma fisgada,

captura-de-tela-2017-01-08-as-08-30-07Não sei dizer, quando penso desse jeito, enumero proposições como: a ser uma pessoa menos banal, a ser mais forte, mais segura, mais serena, mais feliz, a navegar com um mínimo de dor. Essas coisas todas que decidimos fazer ou nos tornar quando algo que supúnhamos grande acaba, e não há nada a ser feito a não ser continuar vivendo. *

esforço-me, reviro-me por dentro para encontrar forças, chego a pisotear meus princípios, ir na contramão de mim mesma e fazer listas de prioridades, longas listas onde eu possa assinalar alternativas, coisas a fazer, pequenas atividades cotidianas, distrações mais ou menos temporárias que me afastem da dor. de nada adianta, devo dizer. ocupo-me por algum tempo mas ao final do dia largo-me no sofá diante dessa inenarrável bagunça: os cacos do que se quebrou espalhados pelo chão, ameaçadores, prontos a me fazer cortar os pés, sangrar infinitamente, chorar de novo. sim, não há nada a ser feito a não ser continuar vivendo. ajeitar o relógio antes de dormir, beber um copo d’água ao acordar, cumprir os horários, encher o tanque do carro, ir ao supermercado, colocar a roupa na máquina, esvaziar a pia da louça que se acumula há dias, é preciso continuar vivendo. será mesmo? agradaria-me mais fechar as portas, colocar uma placa do meu lado de fora: ‘deixe-me ir, preciso andar’. mas onde vou, eles vão comigo: os cacos. incontáveis pedaços daquilo que parecia tão forte, tão sólido. tão inatingível. nada é (talvez eu agora aprenda a lição). fiz o possível, coloquei na prateleira mais alta bem longe de mãos curiosas, tirava-lhe o pó todos os dias ou ao menos sempre que me lembrava e certamente com mais frequência do que seria esperado que fizesse, cuidava para que não ficasse exposto ao sol nem à chuva, para que não pegasse vento, esperava mesmo estar fazendo um bom trabalho, e enfim. um gesto estabanado e lá se foi, ao chão. espatifou-se com barulho e estardalhaço, os cacos voaram para longe, por todos os cantos, vários me acertaram em cheio e os que não, apenas me aguardam, pacientes. sabem que não tenho para onde ir porque me conhecem, sabem de mim até o que eu gostaria que não soubessem. falhei também neste propósito: escancarei-me além do limite aceitável. mostrei todos os meus subterfúgios, dei a conhecer cada uma das minhas rotas de fuga e agora, resta-me apenas o silêncio. e a lágrima, essa que ninguém me tira.

* Caio Fernando Abreu

adeus também foi feito pra se dizer,

captura-de-tela-2017-01-04-as-19-30-11saí hoje de casa com um vestido listrado todo soltinho, os cabelos molhados e a sapatilha colorida que ganhei ontem, botei o pé na rua me sentindo tão bem, tão leve, alegre e feliz com o sol brilhando no céu e o vento fresco me acarinhando o rosto nas horas mais distraídas, mas aí aconteceu e pronto, o vestido virou apenas um vestido, a sapatilha virou apenas uma sapatilha e o vento só me bagunçava os cabelos, engraçada essa mania que a vida tem de fazer pouco do que a gente tem de mais bonito quando a gente descuida, de repente eu era apenas uma pessoa qualquer com um vestido amassado na barra e nas mangas e um sapato com um abacaxi na parte de cima, uma coisa esquisita que naquela hora parecia que não combinava com nada, eu era então apenas uma pessoa toda ridícula, deslocada no tempo e no espaço, e o que antes era poesia virou apenas lamento e eu ali em pedaços, murchando, miúda, querendo mais do que qualquer outra coisa fechar a porta atrás de mim, qualquer porta, e sozinha chorar até me esvaziar por dentro, e agora eu estou aqui, jogada na cama olhando para o teto esperando as horas passarem e sem saber o que fazer de mim, e desse sentimento remoído aqui dentro do peito, dessa vontade de ir embora ou de atirar alguma coisa na parede só para sentir a tímida alegria de ver a coisa se estilhaçando em pedaços, só para ver do lado de fora a representação imagética do meu lado de dentro que agora está assim, partido em incontáveis pedacinhos espalhados por todos os cantos que parece nem que eu tenha o resto da vida para dedicar a isso vou conseguir juntar novamente e mesmo que o faça, e cole de novo um pedaço no outro será apenas um remendo e já dizia a canção, ‘os remendos pegam mal’, talvez seja essa a lição que eu devia ter aprendido para não chegar aqui, a isso, agora: os remendos pegam mal. e como.

paralisia

ccbbteatro2P-12porque a gente inventa, veja você que ironia, tantas maneiras de fugir, de dar voltas, de escapar aos sinais que a vida nos dá e fazer de conta que não, que não é bem isso, que não se está vendo, que não percebeu. por mais que em algum lugar bem escondido a gente saiba muito bem da precisança, do imperativo da alma suplicando pela mudança que a vida avisa que está pra chegar, rondando, esperando no dobrar da esquina, no primeiro descuido. mas a gente mente, sabe. descaradamente. assoviando e revirando os olhos. tamborilando os dedos no tampo da mesa. a gente mente fazendo de conta que está tudo bem, que dá pra deixar pra depois, que é possível adiar mais um pouco, aguardar, esperar, tardar, mais adiante quem sabe, num ponto mais avançado no tempo, talvez numa outra vida. e não era isso, no fundo a gente sabe, era aqui, era agora. era a hora. era já. era sem demora. era o instante exato, preciso, mas a gente mente. sussurra uma desculpa inventada, e torce pra mentira vingar. torce pra gente mesmo cair na armadilha, acreditar no engano e botar a cabeça no travesseiro por mais uma noite, duas, por mais uma vida inteira. ainda que a gente não caiba mais no que está, ainda que a gente anseie em silêncio e de mãos amarradas por uma coisa diferente, nem sempre é possível vencer o medo – essa é a verdade comezinha e ridícula que a gente tem que engolir. nem sempre é possível driblar as próprias angústias, aquelas mais encruadas. nem sempre a gente consegue dar um nó na própria covardia. às vezes, ela sobrevive. fazendo troça da coragem que a gente queria ter, mas não veio. a coragem de olhar o susto com as pálpebras bem sustentadas, de encarar o abismo, de permitir a vida desconhecida, aquela apenas possível.

ou é o começo do fim ou é o fim

dia3e4maioparatyemirimP-12porque da mesma maneira que o que tem de ser tem muita força, assim também o que não é para ser, o que precisa morrer, o que deve desaparecer para tornar-se uma outra coisa ou mesmo esvanecer-se em uma névoa poeirenta de dor e saudade, isso tudo parece ser dotado de uma determinação espantosa, uma obstinação teimosa que o faz encaminhar-se de maneira cega e obcecada em direção ao fim, à morte, ao abismo, ao nada. vai-se o que antes havia, fica a dor. uma dor pulsante, latejada, perturbosa. uma dor na qual por vezes o indivíduo se afunda como se caminhasse desatento em região lodosa, como se metesse os pés por descuido em areia movediça, uma dor que não tem urgência e por isso nos consome aos poucos, segurando-nos por entre os dentes, sem pressa. e não há fuga: o que vai morrer, morre. enterre-se ou permaneça-se agarrado ao que apodrece por apego ou incapacidade de despedir, já não importa: independente da nossa vontade, o que está morto já inexiste. findou-se. pontuou a história com um final, ainda que assim não nos pareça, ou que nos escape compreender – e tantas vezes é imenso o que nos escapa compreender, mas assim é. e bem, dizem que bons conselhos não se dão porque se fossem de alguma valia seriam vendidos, mas de qualquer maneira arrisco dizer: melhor abrir bem as mãos. sob risco de apertar demais a coisa morta por entre os dedos e apodrecer-se junto sem dar-se conta, pelas entranhas. até acordar um dia para abrir os olhos e não mais poder. morrer-se por dentro. isso sim, é das coisas mais tristes.