a semente ensina a não caber na flor,

quando eu tinha 20 anos, eu imaginava uma coisa da vida.

bom, eu imaginava muitas coisas da vida.

eu tinha todo um roteiro na minha cabeça do que a minha vida seria logo ali adiante, e alguns anos à frente, e muitos anos à frente.

eu tinha muitas ideias sobre o trabalho que eu ia fazer e como eu ia fazer esse trabalho, e as coisas que nasceriam de fazer esse trabalho que eu ia fazer da maneira que eu ia fazer.

eu tinha muitas expectativas sobre as pessoas que eu ia conhecer e como eu ia me relacionar com elas e as coisas que elas iam trazer para a minha vida.

eu tinha uma porção de perspectivas sobre as coisas que eu ia ter e conseguir e conquistar e sobre como eu ia me sentir quando eu tivesse e conseguisse e conquistasse essas coisas que eu ia ter e conseguir e conquistar.

eu tinha todo um rosário de idealizações sobre quem eu seria e as marcas que eu ia deixar no mundo e a história que eu ia escrever com as minhas mãos.

aí a vida aconteceu e foi toda, todinha diferente do que eu tinha imaginado. e eu demorei – confesso – um tempo danado de comprido para me abandonar ao longo do caminho, para deixar que as coisas simplesmente acontecessem, descoladas de como eu tinha imaginado ou desejado ou planejado que elas tinham que ser.

eu conheci muita gente interessante, nenhuma delas cabia nas minhas antecipações e cada uma delas me pegou pela mão e me levou a lugares onde eu jamais teria imaginado um dia por os pés.

eu trabalhei com uma porção de coisas, tracei caminhos inesperados, fiz escolhas profissionais que eu jamais teria antecipado e cheguei aqui, nesse lugar onde eu trabalho com algo que amo, faço a diferença na vida das pessoas, sou paga por isso e o meu trabalho diz muito de quem eu sou e das marcas que eu quero deixar no mundo.

eu não tive nem consegui nem conquistei praticamente nada daquilo que eu tinha planejado, mas tive e consegui e conquistei coisas que se revelaram muito mais preciosas, muito mais importantes e muito mais significativas para a pessoa que eu me tornei.

eu tive três filhas incríveis – talvez tenha sido essa a única parte da minha história que eu imaginava acontecendo assim desde sempre e virou realidade, embora nem nos meus sonhos mais audazes eu pudesse imaginar o tamanho da revolução que essas três meninas de carinhas redondas, olhinhos curiosos e cachinhos rebeldes fariam na minha vida.

a vida me trouxe por caminhos que eu nem sempre escolhi, ou talvez tenha escolhido de algum modo, consciente ou nem tanto assim. e no fim, esses caminhos eram todos meus. cada um deles.

ter sido tudo tão diferente do que eu achava que era pra ser fez de mim a pessoa que eu sou hoje. e olha, eu gosto de ser a pessoa que eu sou hoje. eu me reconheço nos espelhos de agora. eu me olho e penso: vamos juntas, dá a mão, você é uma boa companhia.

estou exatamente onde deveria estar.

a vida é líquida. é rio correndo por entre as pedras. se a gente não aprende a caber no fluxo a gente continua vivo, segue respirando, o coração ainda bate, mas o que era mais importante já morreu e a gente não viu.

que bom que eu realizei tão poucos dos sonhos que eu sonhei aos vinte anos.

que bom que a vida me permitiu sonhar tanta coisa nova e tão linda.

é bonita é bonita e é bonita, sim.

aprendi novas palavras e tornei outras mais belas,

“tenho aprendido tanto sobre acolhimento, sobre aceitação e respeito. incrível como quando a gente descobre um meio de julgar menos, aprende a amar melhor.”

vasculhando uns papéis antigos, fui dar hoje com essa frase rabiscada num canto de folha. não estava datada, portanto não sei dizer com exatidão quando foi que a escrevi, mas senti-me agradecida em silêncio por ter aprendido isto um dia e estar – confesso – ainda a aprendê-lo cotidianamente: julgar menos e amar melhor. amar é coisa que se aprende, sim. não se nasce sabendo e há quem não aprenda a fazer direito, de um jeito que não machuque ao invés de afagar (ou ao menos não muito e sobretudo não propositadamente) e não aprisione ao invés de libertar. porque amar, em derradeira análise, é isso: libertar. um abrir de braços. o soberano respeito à inteireza do outro, a seu modo de ser e estar no mundo. amar é olhar o pássaro que voa. é sentir encher os olhos quando volteia no ar. é sorrir quando ele bate as asas, esperar que volte e refastelar-se com o que fica conosco em forma de experiência, de troca, de doação. o julgamento é vício corrente, é tentação cotidiana. queremos o outro pelo que achamos que deve ser. que preencha nossos vazios. que seja grande naquilo que somos pequenos, que alcance nossas impossibilidades e dê conta delas sem que para isso precisemos mover um dedo, sem obrigar-nos a escarafunchar nossas dores e varrer nossas poeiras de sob o tapete. mas amor é outra coisa. não é, ao contrário do que dizia o poeta (ó, pretensão a minha, desdizer o poeta), “estar-se preso por vontade”. é estar solto, é poder rodopiar-se ao vento, é chegar até onde a alma deseja e ainda assim saber-se parte de alguma coisa que permanece. é um pertencimento sem posse. é ir e voltar, sem nunca deixar de estar. acolhimento, aceitação e respeito. sorte na vida. que bonito presente, este.

do amor táctil

as-ondasli “As ondas” quando tinha dezoito anos. nunca tinha lido Virginia Woolf, pra dizer a verdade nem sabia quem era, só conhecia o nome. cheguei a ele por acaso e até hoje tenho loucura por esse livro. depois li Orlando, Mrs Dalloway, Flush, Rumo ao farol e Os anos, nessa ordem, mas nenhum deles me arrebatou como aquela primeira leitura. um dos livros da minha vida.

eu tinha emprestado sem saber a quem, alguns anos atrás. me contorcia de saudades toda vez que por algum motivo lembrava do livro, querendo folhear de novo as páginas amareladas (comprei em sebo, numa portinhola da Liberdade), rever os trechos sublinhados (sou dessas), reler umas partes sem respeitar a ordem das páginas (adoro).

ontem troquei umas mensagens com uma amiga que há tempos não via, entre umas e outras ela me solta “tô com uma coisa tua, amanhã vou pelo centro, te deixo aí, passa o endereço”.

cheguei da rua hoje, pense numa alegria. embrulhadinho em papel colorido. como se fosse presente. e era.

‘livros são objetos transcedentes
nós podemos amá-los do amor táctil’ *

sim.

(*do Caetano)

só que outra.

memorialresist_p-1esses dias achei um caderno antigo aqui, um diário de anotações dos meus vinte, vinte e poucos anos. no canto de uma página, um pouco depois da morte da minha avó, a primeira grande perda (mais ou menos) definitiva que experimentei na vida, tem um diálogo rabiscado:

– eu não entendo ainda porque a morte teve que levá-la.
– quem levou ela foi a vida.
– …
– do outro lado da vida, tem mais vida. só de outro jeito. a morte não leva ninguém. quem leva é a vida. só que outra.

eu já não me lembro mais se foi um diálogo inventado. ou se alguém de muita sabedoria e sensibilidade generosamente me disse essas palavras tão certeiras.

eu só sei que faz um sentido danado.

365 dias

fazendaIpanema-245‘deixei que tudo desaparecesse / e perto do fim, não pude mais encontrar / o amor ainda estava lá’ *

sonhei com você essa noite. com você vivo, com você bem. sorrindo. cantando. a última vez fazia tempo. deve ser a proximidade da data – já vai fazer um ano. nessa época, há 365 dias, eu estava às voltas com uma porção de despedidas e últimas chances, à espera do dia em que finalmente eu te diria unilateralmente adeus, de uma vez por todas. era muita coisa junta me atropelando no correr dos dias, era uma dor excruciante como poucas que eu senti na vida – talvez mesmo nenhuma – e eu respirava com muita dificuldade. eu voltava do hospital todos os dias aos prantos, em meio ao trânsito infernal da cidade eu ouvia canções que me lembravam de você, de nós, de tanta coisa. a música sempre foi um elo inquebrantável entre nós dois. a música, que entre a gente dizia tanto. desde muito tempo, numa época em que só nos comunicávamos pelas palavras escritas em papéis amassados que chegavam pelo correio, você gostava de assinar as tuas cartas com trechos das tuas canções favoritas, e eu contigo adquiri o hábito de fazer o mesmo – até hoje, ainda faço.  não escrevo mais cartas, mas mantenho intocado o costume de dedicar trechos de música às pessoas que mais gosto. é uma, das muitas coisas tuas que permaneceram em mim. mas eu falava daqueles dias, em que eu ia e voltava do hospital entre memórias mais ou menos organizadas, saudades difusas e dores quase fatais. aqueles dias em que o peito me doía a cada novo sopro de vida a me encher os pulmões enquanto a sua ia escorrendo pelos dedos, dia após dia, hora após hora, em uma longa e desolada caminhada rumo ao inevitável. todas as noites, lá pelo começo da madrugada, eu abria a janela do apartamento silencioso, onde além de mim todos dormiam, e me sentava no parapeito. puxava bem fundo o ar gelado, de inverno, impiedoso. e ali, numa solidão de dar dó – porque sempre são solitárias as grandes dores, como as grandes alegrias – , eu esgotava as lágrimas do dia. e bem sabia que dali a algumas horas o sol ia aparecer de novo, lá no canto do horizonte. em desafio. e eu ia começar tudo outra vez – aquela montanha-russa de sentimentos e lembranças e culpas e dores e saudades e muito amor. houve dias em que achei que nunca mais ia conseguir parar de chorar. achei mesmo que esse passaria a ser um ritual meu, muito particular, de todas as madrugadas: encostar-me no parapeito da janela, respirar bem fundo, chorar soluçando. mas, sabe. muita coisa aconteceu. enquanto eu segurava na tua mão, nas longas horas que se arrastavam naquele quarto de hospital, entre apitos de aparelhos eletrônicos, vai e vem de enfermeiras e médicos e desenganos de toda sorte, aconteceu quase uma vida inteira. entre as memórias que eu resgatava sozinha, falando contigo sem receber resposta. eu percebi tanta coisa. eu aprendi tanto. sobretudo, aprendi a esquecer. não tudo: aprendi a escolher. a olhar e ver, a saber o que merecia ficar e o que não. a soltar os nós que me prendiam a tantos vazios, a tantas faltas, a tantos desencontros, e deixar ir. e aprendi a lembrar, também. sem medo. a me agarrar sem qualquer pudor às coisas bonitas. que eram tantas. são tantas. um dia você me disse que tinha medo que eu me esquecesse das coisas boas. pois hoje, quando já faz quase um ano que você se despediu dessa vida, abrindo atrás de ti de maneira irreversível a porteira do esquecimento, eu posso te dizer sem gaguejar: eu não me esqueci. eu não vou me esquecer. as coisas boas, as coisas bonitas, as coisas preciosas, todas elas, estão gravadas em mim. na pele. no corpo. na alma. sinto delas o gosto, o cheiro, o toque. eu carrego comigo. eu te carrego comigo. o que havia de ruim, creia-me: dissolveu-se. transmutou-se. será para sempre de algum modo parte daquilo que eu sou e de como cheguei aqui, mas já não há nisso nada que tire a grandeza da experiência, que é linda em suas infinitas nuances, imperfeições, possibilidades. ao fim, fizemos algo importante de tudo o que nos foi dado, e o fizemos da melhor maneira possível. da nossa melhor maneira possível. eu me orgulho disso. eu me orgulho de nós, no final das contas. e hoje, quando me tateio por dentro em busca do que ainda permanece, tenho uma única certeza: o amor ainda está aqui. de tudo, apesar de tudo. dando sentido a tudo. o amor ainda está aqui. e há de ficar, ressoando sempre, teimosamente. como uma velha canção – uma canção pra você viver mais.

( * trecho de ‘Canção pra você viver mais’, de John Ulhoa) 

depois do salto

rezicaSABESP2-1“Ela diz adeus a tudo o que é familiar e seguro. Não cruza a porta para encontrar outra pessoa a quem se dedicar e que tome conta dela; sai de casa mais insegura do que jamais imaginou que poderia encontrar-se. Mas espera descobrir quem é, e por que é.

Existe nisso uma grande liberdade: o conhecimento que é preciso deixar para trás minha vida atual. Não sei para que. Por mim mesma. Para me tornar algo mais do que sou agora.” *

copiei esse trecho há pouco mais de um ano, e deixei-o colado em um pequeno pedaço de papel ao lado da minha cama. ele dizia muito de quem eu era então, e de tudo aquilo que eu experimentava em um momento de grandes decisões, mudanças e (r)evoluções.

Liv Ullmann, atriz norueguesa muito conhecida pelas – incríveis – atuações nos filmes de Bergmann, fala de Nora, personagem da peça Casa de Bonecas, de Henrik Ibsen. casada, dona de casa e mulher-mãe ‘de família’ impecável (consideremos a época em que a peça foi escrita), Nora decide deixar toda a segurança de uma vida aparentemente perfeita e que funciona dentro dos moldes aceitos e valorizados pela sociedade para trás, em nome da descoberta de quem ela é, diante do vazio, diante do mundo e diante de si.

eu nunca fui uma mulher-mãe de família impecável (ainda bem). nunca me vi sufocada pela vida que escolhi ter, com companheiro, filhas, casa, rotina (que nunca foi muita, mas). ainda assim, há um ano e meio percebi que havia algo ali que era preciso abandonar. sem medo, ou colocando o medo no bolso e caminhando, aceitando o abismo, a possibilidade da queda e da dor.

e eu fui. abri a porta, e fui. para tornar-me algo mais do que eu era então. para acolher de fato, e solitariamente, a pessoa que me esperava do lado de fora, querendo finalmente passar a existir em mim inteiramente. livremente. corajosamente.

um ano e meio depois, que alegria eu sinto ao olhar para trás e perceber quanta coisa descobri, ao olhar-me sem máscaras e atirar-me ao que viria sem redes de segurança, sem garantias, sem proteção. quanto aprendi sobre mim, sobre o meu lugar no mundo, sobre a minha relação com o outro. quanta vida a vida me trouxe. quanto amadurecimento se fez possível, apenas pela simples (simples?) decisão de colocar os pés um diante do outro e caminhar.

se hoje há em mim alguma certeza (e olha, não há muitas), é a certeza de que daqui pra frente eu posso fazer o que quiser – de mãos dadas ou solitariamente, em silêncio ou no meio do maior auê. de que a voz que fala baixinho comigo do meu lado de dentro não silencia mais, aconteça o que acontecer. de que onde quer que eu esteja, estarei porque quero – não porque preciso, ou porque me disseram que era assim que deveria ser, ou porque tenho muito medo de olhar para fora e descobrir o que mais existe.

verdade
liberdade
felicidade

quer eu fique, quer eu vá,
será sempre em nome disso aí.

(*Liv Ullmann, in: ‘Mutações’)

a nossa casa é onde a gente está

Captura de Tela 2016-06-26 às 23.05.24miseravelmente sozinha. afogada em todas as coisas somente minhas. abastada das minhas idiossincrasias, de tudo aquilo que do meu lado de fora não se pode fazer entender. se grito, é no abismo que minha voz se perde, sem eco, sem nada. por ora, posso contar apenas comigo. estender-me a mão, acolher a mim mesma e ser o colo de que tanto careço. alimentar-me por meus próprios meios e sobreviver sem ajuda, é do que se trata. e devo conseguir. de algum modo que ainda desconheço mas me dedico comprometidamente a descobrir, devo alcançar esta autossuficiência. este existir em mim. ‘tornar-se um mundo para si’. tenho descoberto em mim uma grandeza que desconhecia, um desenrolar-se de múltiplas possibilidades, todas muito interessantes, e diante disso estou fascinada como uma criança que gira avidamente um caleidoscópio, sem tirar os olhos da lente nem por um instante, para evitar o susto de perder um agrupamento único de cores e formas, uma pequena explosão de beleza que não se repetirá jamais, não do mesmo jeito, não exato como acabou de ser. sozinha. inexoravelmente sozinha. de uma solidão inevitável, inalienável. eu disse, no início: miseravelmente sozinha, mas não. corrijo-me, agora. não há nada de miserável em encontrar-me assim, diante de um espelho em que nada mais se reflete além daquilo que é meu. ao contrário: é puro regalo que a vida oferece, por sorte, quase por milagre. e eu lambo os dedos, para sentir-me bem o gosto. experimentar-me sem dividi-lo com quem quer que seja tem sido para mim uma explosão de tudo aquilo que há de mais genuíno na vida: alegria amor susto dor desejo e as outras coisas que não têm nome. seja como for, tudo me transborda. e tudo me cabe. *

(* junho de 2015)

(título: da letra de Arnaldo Antunes)

longa jornada noite adentro *

rezicacasamodernista-5o problema, pensava ela, era que nada era tão simples assim. as coisas iam e vinha, ajeitavam-se ordenadamente para no instante seguinte voltarem a acumular-se umas por cima das outras, desordenadamente. nisso matutava, enquanto sacudia os pés ao som da música que tocava ao longe, e de cuja letra ela nunca tinha gostado, mas agora sim. estava mudada. por dentro, e também por fora. ao olhar-se no espelho, de tempos para cá, via em si uma pessoa recém-chegada, transformada, toda cheia de novidades. esta pessoa nova causava-lhe susto, mas também um deleite que não podia disfarçar. e nem queria, pois (re)conhecer-se era bom, era bonito. todavia, no largo espaço fora de si, a mudança causava muita estranheza, especialmente em quem até ali havia estado acostumado a olhar sempre a mesma pessoa. ‘essa pessoa morreu, não existe mais’, pensava ela, toda vez que se sentia alvo de olhares inquisidores, que lhe queriam pegar pelo braço e roçar-lhe os cantos da alma, como a requerer a presença de alguém que ela já não era e – disso tinha certeza – não voltaria mais a ser. e quando desta maneira se impunha, colocando toda a novidade de si para existir e ser vista, percebia nas pessoas uma espécie de luto, seguida de uma indisfarçável revolta, como criança que não quer abrir mão de um brinquedo do qual gostava muito, por mais puído, quebrado ou danificado ele esteja, e ainda que já não possa lhe servir para muita coisa a não ser fazer experimentar aquele conforto desbotado das coisas já bem conhecidas. queriam-lhe de volta como um dia fora, isso era o que ela compreendia daqueles olhares atravessados de insatisfação mal disfarçada. mas embora houvesse neste desencontro alguma dor pontiaguda, ela dava de ombros. e repetia para si mesma que a vida não caminha para trás. passarinho não voa de ré. e que se as coisas não eram tão simples assim, tampouco lhe seriam indecifráveis. aos poucos, peça por peça, ela terminaria por montar todas as peças do quebra-cabeça de si mesma. decifro-me ou me devoro, ou ambas as coisas. ‘a alegria é a prova dos nove’, sempre. disso, ela sabia sem duvidar.

* título de peça de Eugene O’Neil

como se tempera o coração

BH-41era uma coisa assim, sem nome. nem eu saberia dizer exatamente a que veio, mas era bonita – isso eu podia sentir, tateando-a com as pontas dos dedos, curiosamente, querendo muito saber a coisa sem nome com todos os meus sentidos, fazendo-a parte de mim. misturamo-nos, delicada e desavisadamente. quando vi, já estávamos sendo. ao invés de dois, passamos a existir conjuntamente, a coisa em mim e eu nela. misteriosamente, a mistura me agradou e satisfez. uma quentura por dentro, uma carícia suave a me acalmar as dores mais latejantes, aquelas que sempre me vêm visitar à noite, no meio da mais absoluta escuridão, maculando o silêncio com o som dos soluços que não consigo evitar. fiquei feliz, assim de repente. não de uma felicidade irresponsável e grandiosa, de ser experimentada às gargalhadas – ao contrário, uma felicidade sorrateira, a soprar-me no ouvido uma canção bonita, lenta, quase uma bolha de sabão. quis gritar – pois esse é o meu meio de experimentar felicidades, contraindo-me toda, em convulsões de alegria. mas algo em mim me dizia que não, não era a isso que se prestava aquele instante tão quebradiço. não era a hora dos grandes arroubos. por ora, bastava experimentar a felicidade clandestinamente, aos pequenos bocados, sem alarde. não carecia fazer aparecer ao mundo – a felicidade era minha, tão minha que existia em mim sem eu quase saber. não dei permissão, nem disse palavras solenes que a recebessem com pompa e circunstância. apenas lhe abri as entranhas, num gesto humilde de quem, sem saber direito o que é, reconhece o encanto do milagre, quando ele acontece diante de si. de tudo isso, ficou para mim a lição: felicidade é assim, permitir e permitir-se.

por um segundo mais feliz

reibirapit-1abro a porta e coloco os pés para fora, um de cada vez. ouso encarar o silêncio e a escuridão. ao longe, o horizonte. um breu impenetrável. pouco ou nada se vê, apenas algumas luzes espaçadas, em uma infrutífera tentativa de agregar vida ao emaranhado de montanhas adormecidas. inspiro profundamente, e ato contínuo meu peito se preenche de saudades de algo que não sei o que é, mas não dói. ‘e por falar em saudade, onde anda você’, assalta-me a memória a canção que vem casar-se perfeitamente ao instante que me escorre por entre os dedos vagarosamente, sem nenhuma pressa. onde andará? rio, sozinha, ao me dar conta que mal sei por onde ando eu, entre tantos descaminhos, reviravoltas e entreatos com os quais a vida tem se divertido às minhas custas – como poderia eu saber de você? andamos à vida, certamente, os dois. às voltas com as próprias escuridões, trabalhando arduamente, todos os dias, em carne viva, para levar ali algum pequeno-grande feixe de luz. do meu canto tenho conseguido algum progresso, a pequenos passos, tão obstinada como uma formiga trabalhadeira. desistir, jamais. desesperar – bem, às vezes, temporariamente e sem perder a coragem. sei bem que tens feito o mesmo, conheço de ti o bastante para sabê-lo sem duvidar. permito-me orgulhar-me de nós, de ambos igualmente. temos sido fortes sem negar-nos àquele desamparo tão necessário diante das coisas grandes demais. temos nos dado à vida de olhos bem abertos. temos respirado tão fundo. temos aprendido tanto. temos dado até mesmo aquilo que não acreditávamos ter para dar, e quanto de bonito se revela bem aí. de susto, a alegria. aqui, mergulhada em silêncios. longe de tudo. longe de ti. a alegria de estar, enfim, compreendendo algo que não carece nomear, porque apenas existe, é, acontece, de modo inteiro e definitivo. tocando humildemente, com a ponta dos dedos, uma existência mais consciente, menos equivocada, mais lúcida, sem tantas confusões emocionais advindas da necessidade infantil de projetar no outro aquilo que é meu, e poderia apenas ser meu. ser feliz é responsabilidade minha. está tudo aqui, ao alcance. assim como para si, também. dois mundos inteiros. duas pessoas. um mais um, igual a infinito.

* para ler ouvindo: https://www.youtube.com/watch?v=-LprqBP0JTw