matando a sede na saliva

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cá estou, respirando. sem pressa. sem susto. silenciosamente, sem alarde. no meu canto, apenas mirando a vida de rabo de olho enquanto ela passa, rebolando, despreocupada. é um breve intervalo, já sei, não há de durar. antes que se perceba, já será de novo tempo de arregaçar as mangas e moldar o barro sujando as mãos, o suor escorrendo pela testa e a vida acontecendo alucinadamente, caleidoscopicamente. poeticamente, a seu modo. mas por ora, apenas por ora, eu me permito. eu fico. eu me resguardo. eu descanso e cochilo e sonho pequenas delicadezas. eu falo baixinho, conto dos detalhes, da poesia escondida e digo para mim, apenas para mim. digo as coisas bonitas que o coração anseia, quer escutar, quer saborear. eu sacio a minha vontade, mato a minha própria sede, e repouso. e como a criança que se esquece da vida recortando figuras inventadas na imaginação, eu fico. com vagar. sem pesar. recorto flores, gaivotas, picolés. e enquanto o vento arrasta as nuvens de um lado a outro, povoando o céu de figuras simpáticas que convidam a gente a fantasiar, eu me refaço. vou encontrando de novo o espaço do sorriso, da leveza. o espaço da alegria. um espaço que é meu, e onde eu existo mais satisfeita.

foto: Renata Penna

a queda, a dança

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tinha uma pedra no meio do caminho, mas também tinha uma chance de ir além – além da pedra, além da dor. havia ali um presente, uma dádiva. carecia atenção e cuidado para ver, mas havia. era a possibilidade do salto, da queda transmutada em passo de dança. o desvio que se faz caminho, e com ele se chega a um lugar onde a tristeza sabe ficar menor, onde é possível um respiro bem fundo a encher o peito de ar e alimentar o corpo pelo lado de dentro, preparando o terreno para uma delicadeza que há de vir. a vida vai abrindo portas. ou janelas. ou pequenas frestas por onde se pode ver a luz e antecipar alguma beleza, alguma poesia. alguma coisa, percebo, sempre se abre. tudo é caminho. há que se lidar com o que se perde, com o que se vai, e embora em algum momento haja o desespero pelo que não se sabe e pela dor que invade quando dizemos adeus, há que se ter as mãos vazias para que haja espaço onde acomodar o que de bonito ainda virá. há que se chorar o luto aos soluços, sem se negar ao latejamento que o padecimento traz, sem economizar-se de alma, doando o que se tem. porque depois do luto, há de vir a vida. depois da noite, há de vir o dia. depois do escuro, do breu, do abismo vazio que amedronta e faz sentir pequenino feito grão de milho, vem alguma coisa de grande, iluminada e bonita. chama-se esperança. e nasce nos cantinhos mais escondidos, onde não se esperava que nascesse coisa nenhuma. e cresce viçosa, teimosa, petulante. e se a gente permite, se sabe acolher e dar de si quanto ela pede, ela fica bonita, formosa, faceira. puxa pela mão e leva para dançar, celebrando a manhã que acabou de nascer. porque sabe, ela sempre nasce. às vezes demora, que até cansa esperar, fatiga de um jeito que quase se desiste. mas se a gente persiste e faz por onde sobreviver e não perder a fé, ela nasce. e a gente também – de novo, de novo.

foto: Renata Penna

a casa onde ninguém vai

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é que às vezes eu tenho medo das respostas que a vida me traz. se eu ficar bem quieta e concentrada, se eu prestar atenção, eu sei que a vida me diz. em silêncio e de um jeito que só pra mim há de fazer sentido, ela me diz. diz o que eu preciso saber, nem menos e nem mais, eu sei. ela sempre é desse jeito comigo, certeira. vem devagar, vem serena, passa a mão sobre a minha cabeça e quando estou quase adormecida, ela diz. mas às vezes eu não sei se eu quero saber, é isso: eu não sei se eu quero saber. tem horas que eu penso e fico mesmo na dúvida se eu não prefiro seguir vivendo do jeito que dá, na ignorância passiva, na calmaria bovina, naquela placidez idiota de quem não sabe pra onde vai e nem sabe se vai ou se fica, e nem se incomoda pela falta de mudanças porque nem sabe que podem haver mudanças, periga desconhecer até a palavra e o conceito. no fim, talvez seja mais fácil. menos sofrido. mais confortável. porque eu também tenho medo. entende? eu também tenho medo. não, eu não sou tão forte nem tão segura nem tão sabedora de todas as coisas quando você imagina que eu seja. eu faço parecer, vezemquando. mas na hora do vamos ver, tem um medo aqui dentro, um medo gelado e cheio de dentes. uma paúra, mesmo. são tantas inseguranças, são tantos poréns. são tantas coisinhas miúdas ou nem tão miúdas assim que todos os dias eu varro pra baixo do tapete porque dói, dói demais deixar que elas me peguem no braço. tem horas, eu confesso, que eu só queria passar em branco. só isso e nada mais: passar em branco, despercebida. que olhassem para o outro lado e me deixassem aqui, encolhida nesse canto poeirento onde o medo me alcança. tem dias que tudo o que eu peço quando me levanto da cama é que todos aqueles que por ventura cruzarem o meu caminho estejam distraídos em excesso, que não se dêem conta das minhas pequenas coisas ridículas, das minhas risíveis vergonhas. que as coisas não tenham tanta importância, que não signifiquem tanto. que passem, que me esqueçam. sabe como é? entende do que eu falo? esse instante assombroso em que a gente teme a resposta que a vida pode dar? quando a gente tenta aquietar a pergunta, sussurra baixinho a interrogação que não cala, abraça os joelhos encolhido num canto e até se permite acreditar que talvez, talvez, se pudermos ficar muito quietos, já quase como alguém que morreu e apenas ainda não se deu conta do fato, talvez, quem sabe a resposta não venha. só dessa vez. só por hoje, só por ora. até que amanheça um novo dia e quem sabe alguma coisa boa, alguma alegria por pequena, seja possível de novo. *

( * escrito em setembro de 2000)

foto: Renata Penna

trampolim

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quem foi que disse que não se pode ter tudo? por que é que a gente aceita de cabeça baixa esta verdade tacanha e pobrinha: de que é preciso escolher. de que é preciso separar com a ponta dos dedos, de que é preciso deixar ir ainda que seja importante, ainda que possa ser bonito. como se amar grande e sem divisória, sem carecer de etiqueta, fosse coisa feia, coisa que fere, que ofende. como se amar inteiro de coração aberto fosse algo para se ter vergonha, para encolher num canto e guardar no armário, no escuro, no limbo. como se amar fosse coisa para se fazer com economia, discrição, em silêncio, por trás da porta. não é. amar é a capacidade mais bonita que o coração da gente tem. é dádiva. é privilégio. e quanto mais a gente ama, mais lindo fica. amar inteiro de braços abertos, sem qualquer traço de medo, devia ser motivo de orgulho. coisa para se espalhar por aí, ufanando. um coração destemido e intrépido que ama sem grudar etiqueta, sem dividir em escaninho e sem fechar portas, é coisa pra gente ficar feliz de ter. ah, esse mundo é besta, tão besta. tão errado. nele a gente aprende a envergonhar e enrubescer pelo que devia ser erguido bem alto pra mostrar pro mundo, porque é conquista. nele a gente aprende a apertar bem os dedos das mãos e cerrar os dentes num esforço bestial de guardar só pra si o que devia ganhar mundo, devia ser pássaro solto no vento, devia ser vôo, devia ser pipa perdida do fio das mãos do menino dançando bonito bem lá no alto, em rebeldia. amar bonito é assim, não dá pra segurar entre os dedos. amar bonito transborda, exagera, transcende. é. assim faz sentido, assim é doce e suave e ao mesmo tempo furacão. amar é desse jeito, ao menos pra mim. e penso que se pode aprender. quem quiser, se quiser. e se não, bem. é continuar aceitando o cabresto, é deixar o coração embotar amando pequeno, amando dentro da caixa, amando esse amor quadrado que carece de nome e compromisso. esse amor rasteirinho que não pode voar. que é feito pássaro preso na gaiola incapaz de cantar porque já não sabe, porque já não pode, porque lá do lado de fora da grade é que ficou o que era bom: o gosto, o gozo e a alegria. quanto a mim, eu tenho asas de boa envergadura e é no meio do vôo que o meu canto fica mais bonito, o amor é o meu trampolim.

fisgada

corrente

como a dor de uma amputação, às vezes é assim. um sentido agudo de falta, uma saudade sem que se saiba exatamente de quê, um suspiro profundo, uma pontada bem no meio do peito. como se o membro amputado gritasse em silêncio, como se isso fosse possível, e de alguma maneira é. e apesar de, é preciso seguir adiante. e começar um dia novo, e ter forças para levantar-se da cama, calçar os chinelos, lavar os cabelos, fazer o café, pagar as contas, respeitar os sinais fechados. tantos. e quando o desejo é render-se ao desespero primal, a este instinto puro e simples que pede desistência e rendição, quando. é este o tempo: quando. há de fazer-se de novo, e de novo, e de novo. novas manhãs de céu cinzento, novos amargores nos cantos da língua, novas dores de garganta pelas coisas não ditas, novos pesadelos às três da manhã. as impossibilidades escondidas, enterradas bem fundo em meio a um silêncio todo feito de covardia e incapacidade. e a eterna fantasia do recomeço. só mais uma vez, amanhã talvez. *

* escrito em março de 2013 / foto: Renata Penna