e quando você voltar,

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engraçado isso: como a vida dá voltas. clichezinho barato dizer isso, eu sei. mas tão verdade. às vezes é assim, puro redemoinho. um embaraço, um emaranhado. eu e você, por exemplo. pensei agora na gente, em tudo aquilo que já se passou, e sorri. de canto de boca. assim, como quem se apercebe de uma ironia muito brincalhona da vida. porque é muito isso, pensa comigo: a vida, dando as suas voltas. as idas e vindas, e os desencontros todos, como se alguém no controle de tudo se divertisse embaralhando as cartas do modo mais improvável, afastando as duplas, desfazendo as trincas, impedindo o jogo de se encaminhar, bonito, suave, para um fechamento qualquer. o barco aportando no cais onde por tanto tempo esteve alguém ali, de braços abertos, à espera. de quê?, você me pergunta. sei lá, sabe. amor. acolhimento. amizade, aquela coisa de olhar junto pra vida e seguir caminhando, puxa, sei lá. tanta coisa. tanta espera, tanto sonho. tudo coisa que era grande, mas como o tempo ficou pequena, quase risível, sabe. e de repente num fim de tarde tristonho e avermelhado o barco chega, aporta, repousa. e do outro lado, ninguém. um esquecimento e o vento soprando, cantarolando sozinho uma melodia desencantada. o que era pra ser, bem. eu ia dizer que o que era pra ser ficou perdido em algum lugar, mas pensei melhor e sabe, não era pra ser. se fosse, teria sido, acontecido, inevitável. então era isso mesmo, era o destino dessa história que foi quase bonita, acabar assim: dissolvida na areia, na espuma dos tempos, num fim de tarde sem chuva. e sem choro também. 

míngua

termino

era apenas a mesa do café, ela sabia disso e esforçou-se para não chorar. engoliu em seco, afastou os fios de cabelo que se amontoavam na testa e fez as coisas de maneira cadenciada, rítmica, como quem segue um ritual religioso muito importante. a toalha florida, o pires, a xícara. o prato. o copo de vidro. o guardanapo. tudo no singular. os plurais haviam se extinguido da casa e era assim a realidade presente: una. serviu a mesa como se fosse importante para fazer de conta que era, numa tentativa desesperada de convencer-se que ainda podia ser bom. arrumou as flores ao centro, milimetricamente. o jarro de água. o bolo inteiro, sem faltar uma fatia. ao pegar o vidro de açúcar, lembrou-se: seu café era amargo, como sempre fora. cafés adocicados naquela mesa, não mais. alcançou a cesta de pães. pães, não – pão. a manteiga, a faca. consigo, trazia a fome. fome do que não se serve à mesa. fome da vida que escapara pela janela. fome do nome que não havia podido dizer ao levantar da cama. fome do cheiro no travesseiro do lado esquerdo. fome da mão acarinhando o pescoço. fome dos lábios gelados lhe visitando as orelhas. fome do desejo invadindo seu corpo sem pedir licença. fome do preenchimento dos espaços. fome da simples presença. fome da companhia constante, da palavra doce. fome até da briga. fome até da dor. fome do amor perdido. afastou a cadeira de uma vez só, com barulho. sentou-se pesadamente, mastigou o pão solitário. a seco, sem café. o pão sem manteiga, sem nada. arranhava a garganta, mas era o feito possível. fosse como fosse, não haveria mesmo de lhe matar a fome.

foto: Renata Penna

sem desespero sem tédio sem fim

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e não é que eu não gostasse de você, eu apenas não gostava da pessoa que eu era quando estava com você. porque a nossa mistura não deu em algo muito bom. porque você despertou em mim coisas adormecidas que eu preferiria esquecer – e eu imagino que daí, desse lugar onde você está, não tenha sido muito diferente. a verdade é que nós dois simplesmente não fizemos bem um pro outro, e quando acontece assim é melhor admitir de uma vez, encarar de frente, acertar as contas e seguir adiante, cada um no seu caminho. eu sei que o seu vai ser bonito, porque você tem merecimento. você é uma pessoa boa, tem um bom coração. tem muito a dar e dividir com alguém mais certo, mais afinado. e eu, bem. aqui do meu lado, eu acho que tenho o meu merecimento também. de acertar da próxima vez. de olhar em outros olhos, sentir algo bom e ver uma coisa bonita começando, nascendo, principiando. eu vou atrás disso, porque eu quero muito. e preciso também. *

* escrito em outubro de 1998