salve linda canção sem esperança

levanto da cama. vagarosamente. em silêncio, mal querendo abrir os olhos. a luz me agride e cega, me cansa e desencoraja. sinto cansaço. muito cansaço. dóem-me os ossos. dói-me a alma. carrego comigo uma tristeza que não sei definir ao certo de onde vem, se vem de fato de algum lugar, ou se apenas se mistura comigo como parte da essência do que tenho para oferecer ao mundo, por ora. esforço-me para encontrar em mim alguma lembrança de como era a vida, antes. anteriormente, quando havia em mim outra coisa que não esse desânimo galopante, essa estafa generalizada, esse desejo obstinado de que tudo seja diferente do que de fato é. é inútil. já não me lembro, não há em mim qualquer reminiscência do que fui antes de me encontrar neste lugar onde estou agora: uma ilha de desalento cercada de fadiga por todos os lados. é como se antes disso, não tivesse mesmo havido coisa alguma. é como se antes de me tornar esse amontoado de abatimentos eu nem ao menos tivesse alguma vez existido. sei que preciso estender a mão. sei que há muito a minha espera. sei que é essencial que eu me reconstrua, que encontre milagrosamente em mim algum resquício de vontade, de coragem, de força motriz. sei que me preciso colocar de pé. encher novamente os pulmões com o ar mais puro que possa encontrar, alimentar-me de alguma esperança e antecipação de melhores tempos, não sei. algo. uma insignificância, uma bobagem qualquer. por minúsculo e risível que possa parecer, como tem me parecido tudo o que se apresenta como possibilidade. sei bem do que preciso. sei bem. só não sei como consegui-lo. por ora, levanto da cama. mal querendo abrir os olhos. aceito a luz e a dor que ela me causa, como aceito todas as outras, porque não há outro caminho senão este. escovo os dentes. tomo banho. dou conta do agora. não penso no depois. apenas o segundo seguinte, e pronto. o resto, depois se vê. a respiração seguinte é o que importa. e depois dela, que haja mais uma. é a que me tenho dedicado, sentindo, da maneira mais sincera e profunda que se pode sentir alguma coisa, que estou fazendo o melhor que posso.

que eu não me esqueça disso: estou fazendo o melhor que posso.

a semente ensina a não caber na flor,

quando eu tinha 20 anos, eu imaginava uma coisa da vida.

bom, eu imaginava muitas coisas da vida.

eu tinha todo um roteiro na minha cabeça do que a minha vida seria logo ali adiante, e alguns anos à frente, e muitos anos à frente.

eu tinha muitas ideias sobre o trabalho que eu ia fazer e como eu ia fazer esse trabalho, e as coisas que nasceriam de fazer esse trabalho que eu ia fazer da maneira que eu ia fazer.

eu tinha muitas expectativas sobre as pessoas que eu ia conhecer e como eu ia me relacionar com elas e as coisas que elas iam trazer para a minha vida.

eu tinha uma porção de perspectivas sobre as coisas que eu ia ter e conseguir e conquistar e sobre como eu ia me sentir quando eu tivesse e conseguisse e conquistasse essas coisas que eu ia ter e conseguir e conquistar.

eu tinha todo um rosário de idealizações sobre quem eu seria e as marcas que eu ia deixar no mundo e a história que eu ia escrever com as minhas mãos.

aí a vida aconteceu e foi toda, todinha diferente do que eu tinha imaginado. e eu demorei – confesso – um tempo danado de comprido para me abandonar ao longo do caminho, para deixar que as coisas simplesmente acontecessem, descoladas de como eu tinha imaginado ou desejado ou planejado que elas tinham que ser.

eu conheci muita gente interessante, nenhuma delas cabia nas minhas antecipações e cada uma delas me pegou pela mão e me levou a lugares onde eu jamais teria imaginado um dia por os pés.

eu trabalhei com uma porção de coisas, tracei caminhos inesperados, fiz escolhas profissionais que eu jamais teria antecipado e cheguei aqui, nesse lugar onde eu trabalho com algo que amo, faço a diferença na vida das pessoas, sou paga por isso e o meu trabalho diz muito de quem eu sou e das marcas que eu quero deixar no mundo.

eu não tive nem consegui nem conquistei praticamente nada daquilo que eu tinha planejado, mas tive e consegui e conquistei coisas que se revelaram muito mais preciosas, muito mais importantes e muito mais significativas para a pessoa que eu me tornei.

eu tive três filhas incríveis – talvez tenha sido essa a única parte da minha história que eu imaginava acontecendo assim desde sempre e virou realidade, embora nem nos meus sonhos mais audazes eu pudesse imaginar o tamanho da revolução que essas três meninas de carinhas redondas, olhinhos curiosos e cachinhos rebeldes fariam na minha vida.

a vida me trouxe por caminhos que eu nem sempre escolhi, ou talvez tenha escolhido de algum modo, consciente ou nem tanto assim. e no fim, esses caminhos eram todos meus. cada um deles.

ter sido tudo tão diferente do que eu achava que era pra ser fez de mim a pessoa que eu sou hoje. e olha, eu gosto de ser a pessoa que eu sou hoje. eu me reconheço nos espelhos de agora. eu me olho e penso: vamos juntas, dá a mão, você é uma boa companhia.

estou exatamente onde deveria estar.

a vida é líquida. é rio correndo por entre as pedras. se a gente não aprende a caber no fluxo a gente continua vivo, segue respirando, o coração ainda bate, mas o que era mais importante já morreu e a gente não viu.

que bom que eu realizei tão poucos dos sonhos que eu sonhei aos vinte anos.

que bom que a vida me permitiu sonhar tanta coisa nova e tão linda.

é bonita é bonita e é bonita, sim.

aprendi novas palavras e tornei outras mais belas,

“tenho aprendido tanto sobre acolhimento, sobre aceitação e respeito. incrível como quando a gente descobre um meio de julgar menos, aprende a amar melhor.”

vasculhando uns papéis antigos, fui dar hoje com essa frase rabiscada num canto de folha. não estava datada, portanto não sei dizer com exatidão quando foi que a escrevi, mas senti-me agradecida em silêncio por ter aprendido isto um dia e estar – confesso – ainda a aprendê-lo cotidianamente: julgar menos e amar melhor. amar é coisa que se aprende, sim. não se nasce sabendo e há quem não aprenda a fazer direito, de um jeito que não machuque ao invés de afagar (ou ao menos não muito e sobretudo não propositadamente) e não aprisione ao invés de libertar. porque amar, em derradeira análise, é isso: libertar. um abrir de braços. o soberano respeito à inteireza do outro, a seu modo de ser e estar no mundo. amar é olhar o pássaro que voa. é sentir encher os olhos quando volteia no ar. é sorrir quando ele bate as asas, esperar que volte e refastelar-se com o que fica conosco em forma de experiência, de troca, de doação. o julgamento é vício corrente, é tentação cotidiana. queremos o outro pelo que achamos que deve ser. que preencha nossos vazios. que seja grande naquilo que somos pequenos, que alcance nossas impossibilidades e dê conta delas sem que para isso precisemos mover um dedo, sem obrigar-nos a escarafunchar nossas dores e varrer nossas poeiras de sob o tapete. mas amor é outra coisa. não é, ao contrário do que dizia o poeta (ó, pretensão a minha, desdizer o poeta), “estar-se preso por vontade”. é estar solto, é poder rodopiar-se ao vento, é chegar até onde a alma deseja e ainda assim saber-se parte de alguma coisa que permanece. é um pertencimento sem posse. é ir e voltar, sem nunca deixar de estar. acolhimento, aceitação e respeito. sorte na vida. que bonito presente, este.

rio e também posso chorar,

ela se achava miúda diante dos outros, diante das coisas, diante da vida e dos sentimentos que eram todos grandes demais, arrebatavam feito onda em mar bravio, derrubando o que havia pela frente, então ela se achava pequena, ela tinha medo e respirava ofegante encolhida no canto, e fechava os olhos apertando com força e repetia para si mesma a oração aprendida com a avó há muito tempo, ensinada para pedir por aquilo que era muito importante e não podia mesmo faltar, e o coração ficava muito acelerado, batia feroz dentro do peito e parecia que ia escapulir pela boca, e ela se sentia assustada, com os pelos do braço arrepiados feito quando a gente sente a presença de alguém que não está ali e nem poderia, ela se sentia frágil, queria colar adesivos do seu lado de fora alertando para quem passasse desavisado que ali havia alguma coisa delicada, algo que ao menor descuido ou manejo desastrado se espatifaria em pedacinhos e não se poderia colar depois, ela sentia vontade de gritar, de gritar bem alto para o mundo todo que não, que não queria mais, que era para parar com aquilo tudo de uma vez, que a brincadeira não tinha mais graça, que ela queria encontrar a saída do labirinto de uma vez por todas, que queria respirar aliviada, enfim ver a luz do lado de fora, ela queria abrir bem os braços e respirar bem fundo como quem alcança a liberdade depois de uma vida inteira de cativeiro, ela queria pisar descalça no chão e nunca mais ter que vestir sapatos, ela queria que o vento lhe bagunçasse os cabelos e lhe soprasse no ouvido um assovio cúmplice, brincalhão, um convite à alegria, um gracejo qualquer. ela queria um espelho, ela precisava olhar e ver. ela queria ser grande por fora, a olhos vistos, do tamanho que ela sabia que era por dentro. ela se achava miúda, grão de milho, poeira carregada no vento, só ela não sabia que de tão grande ela era se via de longe, lá onde ela achava que a vista nem alcançava mas sim, ela podia ver, só faltava ela ver que via.

foto: Renata Penna

nós que aqui estamos,

porque parece tudo tão estúpido, sabe. quanto mais eu penso, mais eu chego à mesma conclusão: somos ridículos, insignificantes, poeira cósmica em um infinito de espaço e tempo que jamais alcançaremos compreender por inteiro, e todas as coisas que nos parecem tão grandiosas e importantes e definitivas não passam de irrelevância. mas e aí, entende? o que é que muda? porque deveria mudar alguma coisa. essa consciência aguda da nossa insignificância diante do imenso do universo deveria fazer alguma diferença, mudar a nossa maneira de compreender o mundo, de lidar com a vida, sei lá. mas no fim fica tudo do mesmo jeito. e dói igual. sufoca na mesma intensidade, e o aperto no peito continua insuportável. e então. para onde vamos? a mesma solidão de merda, o mesmo vazio debaixo dos pés. o abismo. a falta. os nãos todos com que a vida nos presenteia, rindo-se da nossa incapacidade de dar a volta, simplesmente. seguir por ali e não por aqui. cara, como estou cansada. é tudo muito, sabe? e de repente, aquela vontade. um desejo infantil de viver as coisas sem me importar tanto, sem que tudo signifique. por que diabos tudo tem que significar alguma coisa? por que é que a gente não pode descartar as experiências feito papel de bala, feito semente da fruta, feito espinha do peixe. por que é que tudo tem que continuar doendo tanto e tão agudo, mesmo depois que acabou? e por que é que tudo demora tanto pra acabar? bem, não tudo, é verdade. mas algumas coisas. as mais doloridas. estendem-se infinito, agarrando-se às nossas entranhas, sem querer ir embora. adiam o adeus, e a gente ali. sangrando. chorando. caminhando. sei lá. essa lua, essa noite fria. esse silêncio, a rua vazia. as saudades de tudo. ah, o tempo em que eu era aquela que já não sou mais, ou talvez eu nunca tenha sido. poeira cósmica. que coisa ridícula.

a menina submersa

‘quando sinto no pescoço um nó vem o vento e me sopra eu sou pó’ *

eu não devia ter saído de casa

eu não devia ter levantado da cama

eu nem devia ter começado

o que diabos eu estava pensando

inspira. expira. inspira. expira. ponto fixo no teto. aquela mancha ali, de umidade. vai servir. inspira. expira. de um até mil. começa e não para. inspira. expira. não perde o ponto. a cabeça, eu sei. ela quer te dominar. tanta coisa pra pensar. tanta coisa ruim acontecendo. tudo desmoronando. o ponto, cadê? ali, bem ali. não vai sair dali. inspira, expira. em que número estava? oitenta e dois? cento e vinte e um? começa de novo. de um a mil. concentra. é simples. não parece. tá. inspira. expira. dói. eu sei. da cabeça aos pés, todos os lugares. tem lugares novos que só agora você descobriu que existem porque eles doem e pesam de um jeito que não é possível ignorar. o ponto, o ponto. faz um esforço. inspira. expira. breath in, breath out. aquela canção. aquele tempo. essa saudade. quando tudo era simples. ou você achava que era simples. besteira. doía do mesmo jeito. as pequenas coisas. bull shit. o passado, essa entidade santificada. tudo mentira. conto da carochinha. pra boi dormir. duzentos e vinte e quatro? do zero, de novo. é o que tem pra hoje. inspira. expira. lá vem. a taquicardia. a falta de ar. concentra. esse medo filho da puta, eu sei. pára. pensa. o que de pior pode acontecer? se você morrer agora, se parar de respirar, se o coração parar de bater. não sei. talvez seja uma saída fácil. você não teria que mover uma palha, não teria que dar um passo, e ainda assim. ponto final. esquece. não é pra ser fácil. inspira. expira. um café preto, pra começar. se ao menos você tomasse café. um cigarro. uma bebida forte. com tantos sentimentos deve ter algum que sirva. o ponto. sei lá. a vida continua, sabe. lá fora. o sol nasce todos os dias. as folhas ainda caem ao chão porque o outono sempre vem depois do verão, as pessoas acordam de manhã, saem pra trabalhar, pegam os filhos no colo, choram no cinema, dividem uma pizza e voltam pra casa pra começar tudo de novo. é simples, sabe. talvez. pode ser. poderia. só não pra você, mas mesmo assim. que diferença isso faz? uma gota no oceano, lembra. grão de areia. poeira no espaço. dust in the wind. todos nós. do pó, ao pó. concentra nisso aí. talvez seja melhor do que o ponto de umidade no teto. eu acho que sim. esquece o ponto. foca nisso aí. dust in the wind. todos. nós. todos. nós. inspira. expira. um. dois. três. até mil.

 

certa manhã acordei de sonos intranquilos

foi uma noite estranha, essa. poderia culpar o calor excessivo ou a agitação inesperada antes de deitar, mas a verdade é que a inquietação, longe de estar do lado de fora, repousava em mim, por entre os meus pensamentos. dormi mal, acordei várias vezes ao longo da noite, de sobressalto. tive uns sonhos estranhos, enigmáticos, desconexos. lembrei-me de todos eles ao acordar, às vezes com minuciosos detalhes desconcertantes, mas não conseguia juntar os pedaços, entender onde as coisas começavam e como terminavam, se é que terminavam. penso que despertei de cada um deles eles em meio aos acontecidos, evitando os pontos finais. fiz nos sonhos como tenho tentado fazer na vida: fugi aos encerramentos e às despedidas, furtei-me de dar os adeuses necessários e me escondi pelos cantos, esgueirando, para não ter que lidar com o inevitável. patético, não? sim, bastante. reconheço. de qualquer maneira amanheci, como não podia deixar de fazer nem que quisesse. coloquei os pés para fora da cama e respirei bem fundo, na ânsia de puxar para dentro uma coragem que não me pertencia. mais um dia. vinte e quatro horas ou algo assim – contando que eu durma nem que seja um pouco na próxima noite – para serem meticulosamente desperdiçadas com pensamentos inúteis que, ao findar o dia, me levarão ao mesmo lugar. para quê, eu me pergunto, e não ouço resposta. apenas o meu eco, repetindo a mim mesma infinitamente: para quê. a resposta, quem sabe, será esta mesma. para que. para, que. será isso. talvez. sim.

peixe na boca do crocodilo,

captura-de-tela-2017-02-04-as-14-39-54sinto-me às vezes como uma criança que repete inutilmente e sem dar sinais de cansaço um mesmo pedido, na mesma cadência, sempre com os olhos rasos e a alma desejosa de acreditar, sempre agarrada a um fiapo de esperança de que quem sabe, agora sim aconteça, seja enfim a hora do milagre. e ele nunca vem, o milagre. mesmo assim e contra todas as probabilidades eu desafio o bom senso e sigo pedindo, repetindo, entoando a mesma cantilena de sempre, prometo dar em troca o que não tenho, faço barganhas mentais as mais improváveis, passo ridículo diante de mim mesma mas não me importo, quero apenas ser atendida. que o presente venha repousar sobre as minhas mãos sedentas e que eu possa então finalmente descansar. sentir novamente o coração batendo na cadência esperada, sem tomar-me de assalto e me dar a impressão de que vai sair pela boca ao primeiro descuido. dormir um sono tranquilo, a cabeça bem pousada no travesseiro e um sonho doce que me faça lembrar da criança que já não sou há tanto tempo. ela, que acreditava com facilidade na boniteza das coisas e não esperava o milagre, nem sequer pensava nele, porque ele era tudo o que havia, acontecia apenas, sem esforço. ela, que há tanto tempo era eu. ou quem eu pensava que eu era. estendo as pontas dos dedos, quero tocá-la, quase vejo diante de mim a menina. ela, que desconhecia a brabeza do mundo e era inteira olhos e ouvidos e coração abertos para tudo o que havia. sem medo, que só fui ter medo depois. sem expectativas, que tecer conjecturas sobre o que ainda não havia sido foi coisa que só aprendi mais tarde. sem adivinhamentos inúteis, que a vida toda era um jogo divertido de tentativa e erro, e o erro não era mais que uma esfolada no joelho e a possibilidade de tentar de novo adiante. eu era então apenas leveza, sonho, entrega e maravilhada surpresa. que eu possa, de novo. que eu não seja barreira para mim. o milagre, por favor. estou muito precisada.

e o sonho fatalmente viraria pesadelo,

captura-de-tela-2017-01-16-as-10-19-34inclinou-se para fora do carro e no movimento pisou sem intenção a poça de água da soleira da rua e molhou as pontas dos dedos, ideia estúpida sair de sandálias, desnudar os pés estando a alma já tão em carne viva, desproteger o resto do corpo desnecessariamente parecia uma tolice inaceitável, ingenuidade de quem vive sem cautela e sem medir as dores para que não transbordem enquanto se olha para o outro lado, de quem se dá ao acaso distraidamente e por isso padece, deitou para trás o pescoço procurando enxergar o sol, semi cerrou os olhos instintivamente, o céu branco, que dia branco meu deus, chegava a ser crueldade tamanha brancura do lado de fora e o cinza desbotado lhe corroendo por dentro, empurrou de volta a porta pesada em um esforço dolorido para em seguida assistir o arranque do veículo em um guincho de animal sacrificado e então ali estava, parada no meio da rua atrapalhando a passagem, desequilibrando-se a cada esbarrão apressado que lhe castigava a inércia, foi difícil dar o primeiro passo porque ela o temia como se fosse o princípio de algo novo que já sabia que não seria alegre, nem suave, nem bom, sentia-se muito cansada, como se o diálogo que travara há pouco afundada no banco do carona lhe tivesse consumido uma a uma todas as reservas de energia, de esperança, de sentimento, de tudo, ainda assim conseguiu caminhar uma quadra, o que já foi muito, e logo estancou sem ar, a respiração difícil, o nó na garganta, pensou que poderia morrer ali, precisamente ali, naquela esquina, por entre os passantes, recostada no muro pichado, abandonada no asfalto engordurado, bem perto da lixeira, jogada fora, olhou para um lado e para o outro e não reconheceu coisa nenhuma, não sabia onde estava nem para onde deveria ir, não reconhecia aquela rua, nem aquele espaço, nem aquele tempo, não reconhecia aquele dia, aquela hora, aquela não era a vida que havia se disposto a viver, aqueles não tinham sido os seus planos, havia sido cruelmente enganada e se naquele exato momento tivesse ao alcance da mão um espelho certamente não veria nele o reflexo da pessoa que um dia pensara ter sido, pensou então em ir para um lado, depois para o outro, pensou apenas seguir em frente mas não soube escolher como não soubera nunca, todos os caminhos pareciam escuros e desconhecidos, ameaçadores como era a vida e como prometia ser dali por diante, ameaçadora e fria, vivida solitariamente e sem muletas, encolheu-se lentamente junto à soleira de um estabelecimento qualquer que se encontrava fechado como todo o resto, como a porta da felicidade se é que havia uma, se é que isso existia, recostou-se e chorou baixinho para não chamar a atenção (porque há estes momentos em que só o que se pode suportar é o anonimato, tudo o mais exagera).

e sem nós dois o que resta sou eu

captura-de-tela-2017-01-12-as-21-25-38já não sei bem o que é. se é dor, saudade, tristeza ou uma mistura irreconhecível de cada uma dessas coisas que ao final de cada dia se me acomodam no peito e impedem respirar adequadamente. puxo o ar com dificuldade e inspiro curtas quantidades, como se meus pulmões fossem incapazes de suportar o exagero de uma respiração profunda, corajosa e destemida. não me sinto destemida. ao contrário, tenho me sentido ridiculamente encolhida diante da vida, ao menos nas horas mais avançadas da noite, quando o silêncio toma conta de tudo. tem havido muito disto, dentro e fora de mim: silêncio. mas não o silêncio amigável de mãos dadas com as minhas intensidades a dizer-me em sua quietude exato o que preciso escutar, não o silêncio que tive por companheiro desde a mais afastada meninice e que me permite uma inteireza que poucas vezes consigo quando não está e não estamos, não. este silêncio de agora é outro, a enfiar-se por todos os cantos, provocativo, a cutucar-me as entranhas. estico-lhe as mãos e me ponho a investigá-lo com as pontas dos dedos, ele é áspero e suas pontas me ferem, fazendo pequenos cortes que sangram aos poucos e demoram muito a cicatrizar. estamos sós, eu e ele. ele, que também me pertence. ele, que sem palavra e sorrateiramente diz tanto sobre quem eu sou e quem tenho sido. ele que me desvenda, sem piedade, rindo-se sadicamente das minhas lágrimas. penso: uma coisa de cada vez. concentro-me em aceitá-lo apenas hoje sem tanta paúra: se conseguir fazê-lo, ao findar o dia terei alcançado uma grande vitória, um passo gigantesco nesta caminhada que está longe do fim, bem sei. quero abraçar este silêncio e também acarinhá-lo como um amigo querido, coisa que todos os silêncios que me visitam têm sido sempre, desde quando já nem me lembro. se estamos e estaremos juntos, que seja isso também uma coisa bonita, leve, mãos dadas e tudo, como estou acostumada, a leveza mesmo na dor. daquele amor que a gente recupera, para além do véu das agonias excruciantes. quero um silêncio bonito e doce de novo. sim, isso: que seja doce. de novo.