a queda, a dança

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tinha uma pedra no meio do caminho, mas também tinha uma chance de ir além – além da pedra, além da dor. havia ali um presente, uma dádiva. carecia atenção e cuidado para ver, mas havia. era a possibilidade do salto, da queda transmutada em passo de dança. o desvio que se faz caminho, e com ele se chega a um lugar onde a tristeza sabe ficar menor, onde é possível um respiro bem fundo a encher o peito de ar e alimentar o corpo pelo lado de dentro, preparando o terreno para uma delicadeza que há de vir. a vida vai abrindo portas. ou janelas. ou pequenas frestas por onde se pode ver a luz e antecipar alguma beleza, alguma poesia. alguma coisa, percebo, sempre se abre. tudo é caminho. há que se lidar com o que se perde, com o que se vai, e embora em algum momento haja o desespero pelo que não se sabe e pela dor que invade quando dizemos adeus, há que se ter as mãos vazias para que haja espaço onde acomodar o que de bonito ainda virá. há que se chorar o luto aos soluços, sem se negar ao latejamento que o padecimento traz, sem economizar-se de alma, doando o que se tem. porque depois do luto, há de vir a vida. depois da noite, há de vir o dia. depois do escuro, do breu, do abismo vazio que amedronta e faz sentir pequenino feito grão de milho, vem alguma coisa de grande, iluminada e bonita. chama-se esperança. e nasce nos cantinhos mais escondidos, onde não se esperava que nascesse coisa nenhuma. e cresce viçosa, teimosa, petulante. e se a gente permite, se sabe acolher e dar de si quanto ela pede, ela fica bonita, formosa, faceira. puxa pela mão e leva para dançar, celebrando a manhã que acabou de nascer. porque sabe, ela sempre nasce. às vezes demora, que até cansa esperar, fatiga de um jeito que quase se desiste. mas se a gente persiste e faz por onde sobreviver e não perder a fé, ela nasce. e a gente também – de novo, de novo.

foto: Renata Penna

dream on

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“faz-se necessário avançar. mas tudo impede o avanço. e dói.” *

e agora josé, o sonho acabou. pois é. bora juntar os cacos, recolher a sujeira, ajeitar a bagunça da melhor maneira possível tanto quanto se possa, e a partir daí. caminhar. dar o passo, e ir. adiante. tem um caminho longo, sabe. tem muita coisa possível, muita vida querendo acontecer. então é isso, tem que ter coragem de enterrar o defunto. sem carpideira, sem cerimônia, sem marcha fúnebre. é jogar a terra por cima, talvez alguma flor colorida, e então dizer adeus, sem economizar na letra nem no sentimento. e há de doer, e dói. é luto, é despedida. e anda doendo, mas é aí que entra a coragem. e o desprendimento, e o desapego. é aceitar a dor sem dar de ombros, sem ignorar mas com as mãos abertas, deixando escorrer, que seja aos poucos mas de maneira definitiva. e depois, o suspiro. quando acaba, quando termina, quando morre finalmente para não mais. o suspiro. e a determinação de mirar a estrada adiante, ver o que há de bom. é tanto. e a esperança. ah, a esperança, sempre ela. de uma outra coisa, de começar de novo. de ser mais certo. de dar no lugar certo, se é que alguma vez a gente dá em algum lugar ao invés de somente continuar – não era para isso a vida? eu continuo. vou continuando. aqui do meu canto, sem querer desistir. sem querer esmorecer. sem querer desesperar, nem deixar de acreditar. porque eu preciso, entende. não foi agora, mas há de ser. alguma vez. num outro tempo, quem sabe. de um outro jeito. uma coisa nova, que o novo é sempre tão bom e tão bonito. tão fresco. assim há de ser, oxalá.

* do Caio Fernando Abreu / foto: Renata Penna