da horinha de descuido

ana8anosP-25

Súbito, encontro-me sozinha. Ninguém para conversar em voz alta. Em ambos os quartos, o sono tranquilo dos outros. A terceira pessoa, de susto exilada de mim. A casa toda silenciosa e escura, já bem tarde da noite. Acolho a solitude com alguma alegria, como quem estende as mãos para receber um presente embrulhado em pacote bonito com laço de fita brilhante. É coisa boa, devo agradecer. A solidão não me assusta, ao contrário: ela me alegra, sinto-me por ela abraçada, amparada, nutrida. Gosto destes pequenos intervalos que me são presenteados de tempos em tempos, estes lapsos em que posso organizar-me sem interferência, pensar nas coisas que me vêm acontecendo, empreender longas conversas solitárias, pensar aquilo tudo que não pode ser compreendido a não ser em silêncio e em primeira pessoa. E em um descuido, aqui neste pequeno cômodo de luzes apagadas e delicados ruídos familiares que apenas me fazem sorrateira companhia sem acordar os demais, experimento certa paz. Uma quietude da alma, um repouso de todos os sentidos, que silenciam como se fosse possível alcançar uma outra qualidade de presença, um estar apenas, no instante, sem fazer coisa alguma. Sem querências, apenas percebendo que o ar entra e sai de maneira mansamente cadenciada, como se a vida de repente sorrisse por descobrir-se tão simples, tão possível. Não é muito, e ao mesmo tempo é o mundo inteiro, passeando por entre os dedos como uma pequena formiga desavisada. Uma joaninha a bater suas asas delicadas. Um dente de leão a libertar suas minúsculas pétalas diante do sopro. Como por milagre, como se disto tivesse sabido sempre, compreendo que bonito é isso, que há nisto muita poesia, que para descobri-lo existimos tempos a fio, desgovernadamente: que felicidade não se busca, é. E seja como for, só pode ser hoje – só assim é que é.

foto: Renata Penna

em seco

meninatriste

o quarto estava escuro e silencioso, e lá fora a noite chovia. preguiçosa, indolente e vagarosa. de um jeito doído, como quem chora. ela encostou a cabeça no vidro, deixou escorrer o cansaço. das coisas todas, da vida. engoliu um suspiro profundo, magoado. suspiro de saudade. desejo, quem sabe. perdeu os olhos na casa vizinha, as janelas fechadas. pensamento foi longe. distante. lá nas coisas possíveis que a imaginação alcança. pensou em tudo o que podia ser e não era. quis ter diferente. quis ser de outro jeito, viver outra história. olhou os próprios pés: pequeninos. encolhidos na sandália puída, tristonhos. calados. mais um suspiro. dolorido, ressabiado. quis gritar, mas temeu ferir demais o silêncio. engoliu o grito, junto com a dor. e a tristeza, que tinha o gosto mais amargo de todos. desviou os olhos para a cama vazia, o lençol esticado. quis morrer, só um pouco. só por hoje. depois, quem sabe, quereria voltar. mas às vezes é isso: a gente precisa morrer um bocado, pra seguir vivendo.

imagem: Patricia Metola