rio e também posso chorar,

ela se achava miúda diante dos outros, diante das coisas, diante da vida e dos sentimentos que eram todos grandes demais, arrebatavam feito onda em mar bravio, derrubando o que havia pela frente, então ela se achava pequena, ela tinha medo e respirava ofegante encolhida no canto, e fechava os olhos apertando com força e repetia para si mesma a oração aprendida com a avó há muito tempo, ensinada para pedir por aquilo que era muito importante e não podia mesmo faltar, e o coração ficava muito acelerado, batia feroz dentro do peito e parecia que ia escapulir pela boca, e ela se sentia assustada, com os pelos do braço arrepiados feito quando a gente sente a presença de alguém que não está ali e nem poderia, ela se sentia frágil, queria colar adesivos do seu lado de fora alertando para quem passasse desavisado que ali havia alguma coisa delicada, algo que ao menor descuido ou manejo desastrado se espatifaria em pedacinhos e não se poderia colar depois, ela sentia vontade de gritar, de gritar bem alto para o mundo todo que não, que não queria mais, que era para parar com aquilo tudo de uma vez, que a brincadeira não tinha mais graça, que ela queria encontrar a saída do labirinto de uma vez por todas, que queria respirar aliviada, enfim ver a luz do lado de fora, ela queria abrir bem os braços e respirar bem fundo como quem alcança a liberdade depois de uma vida inteira de cativeiro, ela queria pisar descalça no chão e nunca mais ter que vestir sapatos, ela queria que o vento lhe bagunçasse os cabelos e lhe soprasse no ouvido um assovio cúmplice, brincalhão, um convite à alegria, um gracejo qualquer. ela queria um espelho, ela precisava olhar e ver. ela queria ser grande por fora, a olhos vistos, do tamanho que ela sabia que era por dentro. ela se achava miúda, grão de milho, poeira carregada no vento, só ela não sabia que de tão grande ela era se via de longe, lá onde ela achava que a vista nem alcançava mas sim, ela podia ver, só faltava ela ver que via.

foto: Renata Penna

a menina submersa

‘quando sinto no pescoço um nó vem o vento e me sopra eu sou pó’ *

eu não devia ter saído de casa

eu não devia ter levantado da cama

eu nem devia ter começado

o que diabos eu estava pensando

inspira. expira. inspira. expira. ponto fixo no teto. aquela mancha ali, de umidade. vai servir. inspira. expira. de um até mil. começa e não para. inspira. expira. não perde o ponto. a cabeça, eu sei. ela quer te dominar. tanta coisa pra pensar. tanta coisa ruim acontecendo. tudo desmoronando. o ponto, cadê? ali, bem ali. não vai sair dali. inspira, expira. em que número estava? oitenta e dois? cento e vinte e um? começa de novo. de um a mil. concentra. é simples. não parece. tá. inspira. expira. dói. eu sei. da cabeça aos pés, todos os lugares. tem lugares novos que só agora você descobriu que existem porque eles doem e pesam de um jeito que não é possível ignorar. o ponto, o ponto. faz um esforço. inspira. expira. breath in, breath out. aquela canção. aquele tempo. essa saudade. quando tudo era simples. ou você achava que era simples. besteira. doía do mesmo jeito. as pequenas coisas. bull shit. o passado, essa entidade santificada. tudo mentira. conto da carochinha. pra boi dormir. duzentos e vinte e quatro? do zero, de novo. é o que tem pra hoje. inspira. expira. lá vem. a taquicardia. a falta de ar. concentra. esse medo filho da puta, eu sei. pára. pensa. o que de pior pode acontecer? se você morrer agora, se parar de respirar, se o coração parar de bater. não sei. talvez seja uma saída fácil. você não teria que mover uma palha, não teria que dar um passo, e ainda assim. ponto final. esquece. não é pra ser fácil. inspira. expira. um café preto, pra começar. se ao menos você tomasse café. um cigarro. uma bebida forte. com tantos sentimentos deve ter algum que sirva. o ponto. sei lá. a vida continua, sabe. lá fora. o sol nasce todos os dias. as folhas ainda caem ao chão porque o outono sempre vem depois do verão, as pessoas acordam de manhã, saem pra trabalhar, pegam os filhos no colo, choram no cinema, dividem uma pizza e voltam pra casa pra começar tudo de novo. é simples, sabe. talvez. pode ser. poderia. só não pra você, mas mesmo assim. que diferença isso faz? uma gota no oceano, lembra. grão de areia. poeira no espaço. dust in the wind. todos nós. do pó, ao pó. concentra nisso aí. talvez seja melhor do que o ponto de umidade no teto. eu acho que sim. esquece o ponto. foca nisso aí. dust in the wind. todos. nós. todos. nós. inspira. expira. um. dois. três. até mil.

 

certa manhã acordei de sonos intranquilos

foi uma noite estranha, essa. poderia culpar o calor excessivo ou a agitação inesperada antes de deitar, mas a verdade é que a inquietação, longe de estar do lado de fora, repousava em mim, por entre os meus pensamentos. dormi mal, acordei várias vezes ao longo da noite, de sobressalto. tive uns sonhos estranhos, enigmáticos, desconexos. lembrei-me de todos eles ao acordar, às vezes com minuciosos detalhes desconcertantes, mas não conseguia juntar os pedaços, entender onde as coisas começavam e como terminavam, se é que terminavam. penso que despertei de cada um deles eles em meio aos acontecidos, evitando os pontos finais. fiz nos sonhos como tenho tentado fazer na vida: fugi aos encerramentos e às despedidas, furtei-me de dar os adeuses necessários e me escondi pelos cantos, esgueirando, para não ter que lidar com o inevitável. patético, não? sim, bastante. reconheço. de qualquer maneira amanheci, como não podia deixar de fazer nem que quisesse. coloquei os pés para fora da cama e respirei bem fundo, na ânsia de puxar para dentro uma coragem que não me pertencia. mais um dia. vinte e quatro horas ou algo assim – contando que eu durma nem que seja um pouco na próxima noite – para serem meticulosamente desperdiçadas com pensamentos inúteis que, ao findar o dia, me levarão ao mesmo lugar. para quê, eu me pergunto, e não ouço resposta. apenas o meu eco, repetindo a mim mesma infinitamente: para quê. a resposta, quem sabe, será esta mesma. para que. para, que. será isso. talvez. sim.

peixe na boca do crocodilo,

captura-de-tela-2017-02-04-as-14-39-54sinto-me às vezes como uma criança que repete inutilmente e sem dar sinais de cansaço um mesmo pedido, na mesma cadência, sempre com os olhos rasos e a alma desejosa de acreditar, sempre agarrada a um fiapo de esperança de que quem sabe, agora sim aconteça, seja enfim a hora do milagre. e ele nunca vem, o milagre. mesmo assim e contra todas as probabilidades eu desafio o bom senso e sigo pedindo, repetindo, entoando a mesma cantilena de sempre, prometo dar em troca o que não tenho, faço barganhas mentais as mais improváveis, passo ridículo diante de mim mesma mas não me importo, quero apenas ser atendida. que o presente venha repousar sobre as minhas mãos sedentas e que eu possa então finalmente descansar. sentir novamente o coração batendo na cadência esperada, sem tomar-me de assalto e me dar a impressão de que vai sair pela boca ao primeiro descuido. dormir um sono tranquilo, a cabeça bem pousada no travesseiro e um sonho doce que me faça lembrar da criança que já não sou há tanto tempo. ela, que acreditava com facilidade na boniteza das coisas e não esperava o milagre, nem sequer pensava nele, porque ele era tudo o que havia, acontecia apenas, sem esforço. ela, que há tanto tempo era eu. ou quem eu pensava que eu era. estendo as pontas dos dedos, quero tocá-la, quase vejo diante de mim a menina. ela, que desconhecia a brabeza do mundo e era inteira olhos e ouvidos e coração abertos para tudo o que havia. sem medo, que só fui ter medo depois. sem expectativas, que tecer conjecturas sobre o que ainda não havia sido foi coisa que só aprendi mais tarde. sem adivinhamentos inúteis, que a vida toda era um jogo divertido de tentativa e erro, e o erro não era mais que uma esfolada no joelho e a possibilidade de tentar de novo adiante. eu era então apenas leveza, sonho, entrega e maravilhada surpresa. que eu possa, de novo. que eu não seja barreira para mim. o milagre, por favor. estou muito precisada.

november rain

chuvahaja alma para tamanho dilúvio. chove lá fora e aqui, inunda. corre-me por dentro um rio de lágrimas, em corredeira, derrubando barragens pelo caminho, serpenteando por entre as pedras ou por cima delas ou apesar delas, e eu tamborilo nervosamente meus dedos no vidro da janela, querendo aquietar alguma coisa que não sei o que é. tantas urgências. e esse desejo de gritar cada uma delas a plenos pulmões, perder de vez a voz, a vergonha e a covardia. chove lá fora e aqui troveja, relampeia, escurece-me o céu do meu lado de dentro e a alma se me revira em princípios de furacão. não sei o que há de restar. não sei o que de mim sobrevive, ao fim de tudo isso. não sei se haverá um fim, ou se será infinitamente apenas isso mesmo: um revolteio constante de intensidades a atirarem-se umas por cima das outras, em rebeldia, enquanto eu. trato de tentar adormecer entre as tempestades. nas breves calmarias, nos respiros transitórios, nos momentos fugidios em que um tímido arco-íris apenas se insinua em um horizonte que eu desejaria alcançar. chove lá fora e aqui, a vida acontece. incessantemente. impiedosamente. impacientemente. uma irrascibilidade de mim para comigo. perco as rédeas daquilo que sou, se é que algum dia as tive. penso que não. o que me habita por dentro irrompe desgovernadamente, feito veículo com freio avariado, feito animal selvagem sem sela e sem arreio. eis o que sou. divido-me: algo em mim vai, rodopia de mãos dadas com o vento, sem medo de perder-se no vendaval; outra parte repousa, encolhida num canto abraçada aos joelhos, chorando baixinho feito criança perdida da mãe. chove lá fora e aqui eu me misturo a mim mesma. ouso perder-me, para me encontrar.

duas três dez cem mil lágrimas

centrao_p-65pois certas coisas, certos arranjos, repare, parecem mesmo impossíveis. e a gente permanece, insiste, persiste, dá murro na ponta da faca até quase perder os dedos, e ainda assim. inalcançável. há aquilo que tem força porque precisa acontecer, e do mesmo modo, de outro lado, há tudo aquilo que não se presta aos nossos desejos e manobras, por fortes e sinceros e bem intencionados que sejam. tentamos a muito custo transpor os muros, as barreiras, os obstáculos, mas chegamos do outro lado e há apenas vazio. e dor. e lamento. então choramos, encolhidos num canto, vítimas de um abandono atroz: abandonaram-nos a sorte, a possibilidade, o fiapo de esperança. o que fazer então? com sinceridade digo que ainda não sei, e estou agora a entregar-me à dor, simplesmente. a chorar as perdas, a engolir o luto. mastigar os nãos por entre os dentes. apertar o desamparo por entre os dedos, até sentir que me latejam os ossos. e repito-me cadenciadamente, em uma cantilena um pouco monótona mas muito necessária, que amanhã será um novo dia. não estou muito convencida, mas ainda assim digo a mim mesma uma vez emendada na outra, acreditando que de tanto repetir, quem sabe tornarei a remota possibilidade uma verdade irrevogável. poderei então juntar meus cacos, respirar bem fundo, olhar para frente. recomeçar. espero que sim, embora não tenha certeza. mas a verdade, perceba, é esta: não me resta mais do que esperar. de olhos rasos. feito criança em véspera de natal. esperar. quem sabe. talvez eu mereça o milagre.

longa jornada noite adentro *

rezicacasamodernista-5o problema, pensava ela, era que nada era tão simples assim. as coisas iam e vinha, ajeitavam-se ordenadamente para no instante seguinte voltarem a acumular-se umas por cima das outras, desordenadamente. nisso matutava, enquanto sacudia os pés ao som da música que tocava ao longe, e de cuja letra ela nunca tinha gostado, mas agora sim. estava mudada. por dentro, e também por fora. ao olhar-se no espelho, de tempos para cá, via em si uma pessoa recém-chegada, transformada, toda cheia de novidades. esta pessoa nova causava-lhe susto, mas também um deleite que não podia disfarçar. e nem queria, pois (re)conhecer-se era bom, era bonito. todavia, no largo espaço fora de si, a mudança causava muita estranheza, especialmente em quem até ali havia estado acostumado a olhar sempre a mesma pessoa. ‘essa pessoa morreu, não existe mais’, pensava ela, toda vez que se sentia alvo de olhares inquisidores, que lhe queriam pegar pelo braço e roçar-lhe os cantos da alma, como a requerer a presença de alguém que ela já não era e – disso tinha certeza – não voltaria mais a ser. e quando desta maneira se impunha, colocando toda a novidade de si para existir e ser vista, percebia nas pessoas uma espécie de luto, seguida de uma indisfarçável revolta, como criança que não quer abrir mão de um brinquedo do qual gostava muito, por mais puído, quebrado ou danificado ele esteja, e ainda que já não possa lhe servir para muita coisa a não ser fazer experimentar aquele conforto desbotado das coisas já bem conhecidas. queriam-lhe de volta como um dia fora, isso era o que ela compreendia daqueles olhares atravessados de insatisfação mal disfarçada. mas embora houvesse neste desencontro alguma dor pontiaguda, ela dava de ombros. e repetia para si mesma que a vida não caminha para trás. passarinho não voa de ré. e que se as coisas não eram tão simples assim, tampouco lhe seriam indecifráveis. aos poucos, peça por peça, ela terminaria por montar todas as peças do quebra-cabeça de si mesma. decifro-me ou me devoro, ou ambas as coisas. ‘a alegria é a prova dos nove’, sempre. disso, ela sabia sem duvidar.

* título de peça de Eugene O’Neil

por um segundo mais feliz

reibirapit-1abro a porta e coloco os pés para fora, um de cada vez. ouso encarar o silêncio e a escuridão. ao longe, o horizonte. um breu impenetrável. pouco ou nada se vê, apenas algumas luzes espaçadas, em uma infrutífera tentativa de agregar vida ao emaranhado de montanhas adormecidas. inspiro profundamente, e ato contínuo meu peito se preenche de saudades de algo que não sei o que é, mas não dói. ‘e por falar em saudade, onde anda você’, assalta-me a memória a canção que vem casar-se perfeitamente ao instante que me escorre por entre os dedos vagarosamente, sem nenhuma pressa. onde andará? rio, sozinha, ao me dar conta que mal sei por onde ando eu, entre tantos descaminhos, reviravoltas e entreatos com os quais a vida tem se divertido às minhas custas – como poderia eu saber de você? andamos à vida, certamente, os dois. às voltas com as próprias escuridões, trabalhando arduamente, todos os dias, em carne viva, para levar ali algum pequeno-grande feixe de luz. do meu canto tenho conseguido algum progresso, a pequenos passos, tão obstinada como uma formiga trabalhadeira. desistir, jamais. desesperar – bem, às vezes, temporariamente e sem perder a coragem. sei bem que tens feito o mesmo, conheço de ti o bastante para sabê-lo sem duvidar. permito-me orgulhar-me de nós, de ambos igualmente. temos sido fortes sem negar-nos àquele desamparo tão necessário diante das coisas grandes demais. temos nos dado à vida de olhos bem abertos. temos respirado tão fundo. temos aprendido tanto. temos dado até mesmo aquilo que não acreditávamos ter para dar, e quanto de bonito se revela bem aí. de susto, a alegria. aqui, mergulhada em silêncios. longe de tudo. longe de ti. a alegria de estar, enfim, compreendendo algo que não carece nomear, porque apenas existe, é, acontece, de modo inteiro e definitivo. tocando humildemente, com a ponta dos dedos, uma existência mais consciente, menos equivocada, mais lúcida, sem tantas confusões emocionais advindas da necessidade infantil de projetar no outro aquilo que é meu, e poderia apenas ser meu. ser feliz é responsabilidade minha. está tudo aqui, ao alcance. assim como para si, também. dois mundos inteiros. duas pessoas. um mais um, igual a infinito.

* para ler ouvindo: https://www.youtube.com/watch?v=-LprqBP0JTw

da concha que guarda o mar

museuonwheelsP-14a menina chorava a inconstância do vento. desejava promessas, saberes definitivos, algo que durasse. desejava que ao invés de rodopiar-se furiosamente a bagunçar-lhe os cabelos e levantar-lhe as saias, sempre maroto e passageiro, ele permanecesse. durasse. queria que repousasse, sereno, esticado em seu colo, com suavidade e alguma doçura, a lhe acariciar a pele delicadamente como um amigo querido que vem consolar, decidido a curar-lhe as dores passadas. que eram tantas, e a cada dia somavam-se a elas as dores novas, frescas, recém-nascidas, que lhe pegavam desprevinida. a ela, que sempre fora tão distraída e de outro modo não saberia existir. ela lhe pedia, suplicante, do único modo que sabia fazer, que ficasse. perdurasse. acalmasse. qual o quê. como vinha, decidido, forte, impiedoso, inconstante, rebelde, o vento passava. ia divertir-se mais adiante, dançar apaixonadamente em outras paisagens, bagunçar os cabelos de outras meninas e levantar-lhes as saias, para rir-se depois, em sua inconsequência selvagem. a menina emburrava, ciumenta. queria o vento para si, enclausurado, constante. queria aprisionar-lhe por entre os braços miúdos e muito brancos, queria permitir-se ser egoísta e tê-lo silenciosamente, sem alarde, apenas seu para toda a eternidade. mas a birra da menina, de rosto lavado de lágrimas, durava pouco. o que ela queria não era possível, e nem seria. era a tarefa do vento rodopiar sem descanso, dias a fio, ano após ano, por toda a vida e ainda mais. era tarefa do vento existir em liberdade. como era também da menina, e ela sabia. com alguma dor e um pouco de medo, entre os soluços do desconsolo que lhe explodia em pranto de tempos em tempos, ela sabia. eram feitos da mesma matéria. em segredo, como cúmplices de um crime perfeito, guardavam para si o maior mistério de todos, a maior alegria também: que amar é livre. que amar é asa. que o amor não é o repouso – mas o vôo.

coração desejo e sina

finHC-68então ela me perguntou, em voz baixa e adocicada, e com um olhar pedinte que ruminava um fiapo de esperança: com o tempo, fica mais fácil? fez-se um silêncio. ela não disse mais nada, pôs-se a esperar a colheita da resposta possível, e a torcer para que fosse aquilo que desejava. eu olhei para ela. tão inocente, em seu desconhecimento do mundo pela pouca idade, pelas coisas vividas ainda de modo tentante, de quem desfaz a ponta de um embrulho de presente que só poderá abrir por inteiro depois, muito depois. eu olhei para ela. demoradamente, sem apressar-me. ela me fitava ansiosa, os dois olhos redondos e negros a suplicar-me um alento qualquer. senti-me prisioneira de uma ternura infinita, e quis dizer-lhe que sim. que sim, meu deus. que fica mais fácil, que dói menos, que já não se chora tanto. que chega um dia este momento de desavergonhada felicidade em que o coração aprende a zombar da dor, a colorir a tristeza com pincel grosso lambuzado de cores fortes, alegres e vivas. eu quis dizer que chega um dia que a gente tira de letra, samba por cima do desencanto, sapateia por sobre a tristeza e vai, sem se despedaçar por dentro, sem ficar em pedacinhos, sem revirar-se do avesso, sem sentir que morre um pouquinho por vez, que se perde de si em pequenos bocados. eu quis, eu quis muito. quis juntar num amontoado as palavras mais doces, meu melhor acalanto. eu quis cobri-la de bons presságios. eu quis dar a ela o que me pedia: alguma esperança, um bocado de fé. eu quis afagar-lhe os cabelos desalinhados com a resposta que tanto desejava, com tamanha avidez. eu quis. mas não pude. a essa altura, feliz ou desgraçadamente, já não sabia mentir. e precisei entregar-lhe a verdade, cuidadosamente, mas sem subterfúgios. e lhe disse que não. que não. que não fica mais fácil. mas que também não deixa de ser bonito. e que talvez, veja só. que talvez, seja por isso mesmo.